☰
✕

Estudo revela que musculação faz células de gordura encolherem antes da perda de peso

Pesquisa da Unicamp identificou mudanças no tecido adiposo de camundongos obesos após apenas sete dias de treinamento de força

Rhauanny Queiroz
Publicado em 26/09/2026, às 11h03

Pesquisa acompanhou camundongos obesos submetidos a sete sessões de treinamento - Pexels


A balança pode não mostrar nenhuma mudança nos primeiros dias de musculação, mas isso não significa necessariamente que o organismo não esteja respondendo ao exercício. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou alterações no tecido adiposo de camundongos obesos após apenas sete sessões de treinamento de força, antes de qualquer redução do peso corporal.

Publicado na revista Life Sciences e apoiado pela FAPESP, o trabalho mostrou que o treinamento aumentou mecanismos relacionados à lipólise, processo de quebra da gordura armazenada nas células para que ela possa ser utilizada como fonte de energia.

Os animais que fizeram o treinamento apresentaram menor massa de gordura visceral e adipócitos menores, mesmo sem redução do peso corporal total. O resultado chamou a atenção dos pesquisadores porque permite observar os efeitos do exercício antes que uma eventual perda de peso possa interferir nas análises.



O estudo faz parte de uma linha de pesquisa da Unicamp que investiga há quase 20 anos os efeitos do exercício sobre a saúde metabólica, incluindo condições como obesidade e diabetes.

O que aconteceu durante o experimento

A pesquisa foi realizada com camundongos machos. Parte dos animais recebeu alimentação padrão, enquanto outro grupo foi submetido a uma dieta rica em gordura para induzir a obesidade.

Depois, os animais obesos foram divididos novamente. Um grupo permaneceu sedentário e o outro passou pelo treinamento de força. A dieta rica em gordura foi mantida durante o período de exercício para que a atividade física fosse a principal diferença entre os dois grupos.

Para simular o treinamento de força, os camundongos precisavam subir uma escada de 70 centímetros carregando uma carga presa à cauda. As sessões foram realizadas com carga equivalente a 70% da capacidade máxima dos animais, com 20 subidas e intervalos de 60 a 90 segundos.

Ao todo, foram realizadas sete sessões de treinamento.

“A gente calculou quanto de carga cada camundongo conseguia carregar subindo uma escada. Obviamente, não dá para reproduzir os mesmos exercícios de musculação feitos por uma pessoa, mas conseguimos provocar no organismo um esforço semelhante ao da musculação”, explica Leandro Moura, professor da Unicamp, autor do estudo e coordenador do Exercise Cell Biology Lab (Ecebil).

Gordura visceral foi o foco dos pesquisadores

Os pesquisadores analisaram principalmente o tecido adiposo mesentérico, localizado ao redor dos intestinos. Nos seres humanos, esse depósito é relacionado à chamada gordura visceral, que fica mais profundamente no abdômen, entre os órgãos.

A escolha desse tecido permitiu observar como o exercício afetava a gordura antes de qualquer alteração significativa no peso corporal.

Depois das sete sessões, os camundongos que fizeram musculação apresentaram menor quantidade de tecido adiposo mesentérico em comparação aos animais obesos que permaneceram sedentários.

Os adipócitos, células responsáveis pelo armazenamento de gordura, também apresentaram menor tamanho nos animais que realizaram o treinamento.

Para os pesquisadores, observar essas mudanças sem redução do peso corporal ajudou a separar os efeitos provocados diretamente pelo exercício daqueles que poderiam aparecer posteriormente em consequência do emagrecimento.

“Quando conseguimos manter o mesmo peso corporal e observamos o que aconteceu no organismo, podemos isolar diretamente o que o exercício físico favoreceu antes do emagrecimento”, explica Moura.

Como a musculação interfere na quebra de gordura

Além de analisar o tamanho das células, os pesquisadores investigaram o que estava acontecendo dentro delas.

O estudo identificou alterações em proteínas relacionadas à lipólise, processo responsável pela quebra dos triglicérides armazenados nos adipócitos.

Entre as proteínas analisadas estavam PLIN1, ABHD5 e ATGL. De maneira simplificada, a PLIN1 participa do controle da gordura armazenada dentro das células. Quando recebe estímulos relacionados ao exercício, pode liberar a ABHD5, que interage com a ATGL, uma enzima envolvida na primeira etapa da quebra dos triglicérides.

Nos camundongos obesos sedentários, a quantidade de ABHD5 estava reduzida. Após o treinamento de força, os pesquisadores observaram maior interação do eixo ABHD5-ATGL, além da ativação de outros marcadores relacionados à lipólise.

O estudo também encontrou uma redução na expressão do gene Scd1, relacionado à síntese de gordura. Segundo os pesquisadores, o resultado sugere uma mudança no funcionamento do tecido adiposo, com menor atividade de mecanismos associados ao armazenamento de gordura e maior atividade daqueles relacionados à sua quebra.

O que isso significa para quem faz musculação?

O resultado ajuda a explicar por que a balança não é o único indicador das mudanças provocadas pelo exercício.

Uma pessoa pode iniciar um programa de treinamento e não observar uma queda imediata no peso. No entanto, o estudo indica que, pelo menos nos animais avaliados, alterações metabólicas relacionadas ao tecido adiposo podem acontecer antes da redução do peso corporal.

“A população tem uma ideia de que fez musculação por dois meses, não emagreceu e, portanto, não adiantou nada. Mas o que vimos nesse estudo é que, com apenas sete dias de treinamento de força, mesmo quando ainda não havia perda de peso, vias moleculares que favorecem o acúmulo de gordura estavam menos ativas, enquanto aquelas que estimulam a quebra estavam mais ativas”, afirma Moura.

Os pesquisadores também destacam que os resultados reforçam a importância de considerar diferentes modalidades de exercício. Segundo Moura, musculação e exercícios aeróbicos podem ativar vias semelhantes e outras diferentes, em intensidades distintas.

Por isso, o pesquisador aponta a associação entre os dois tipos de exercício como uma estratégia para quem busca emagrecimento.

Resultado ainda não pode ser aplicado diretamente aos humanos

Apesar dos resultados, o estudo apresenta uma limitação importante: os experimentos foram realizados em camundongos, e não em pessoas.

Por isso, os pesquisadores não afirmam que sete dias de musculação terão o mesmo efeito em seres humanos ou que uma pessoa necessariamente terá redução das células de gordura nesse período.

O trabalho analisou camundongos machos obesos, um único depósito de gordura e genes, proteínas e sinais moleculares relacionados à quebra de gordura.

A equipe pretende agora acompanhar períodos mais longos de treinamento para entender como essas respostas evoluem quando a perda de peso começa a ocorrer. Os pesquisadores também estudam os efeitos do exercício sobre outros depósitos de gordura, incluindo o tecido localizado ao redor do coração.

Para Moura, os resultados ajudam a mostrar que as respostas ao exercício podem começar antes de qualquer mudança visível no corpo.

“Mesmo que a gente não esteja vendo nada ainda a olho nu, metabolicamente, lá dentro do nosso organismo, várias sinalizações benéficas para a saúde, inclusive para o emagrecimento, estão acontecendo”, conclui o pesquisador.

Para mais conteúdos