Experimento com ratos durante dez semanas identificou alterações na barreira intestinal e aumento de moléculas associadas à inflamação
Rhauanny Queiroz
Publicado em 17/08/2026, às 12h04
A goma xantana está presente em diversos alimentos consumidos no dia a dia, principalmente produtos industrializados e receitas sem glúten. O aditivo é utilizado para melhorar a textura, aumentar a viscosidade e estabilizar preparações. Um estudo publicado na revista PLOS One, em abril, porém, apontou que o consumo contínuo da substância pode provocar alterações inflamatórias no intestino.
A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com apoio da Fapesp. Os experimentos foram feitos em ratos adultos, que receberam diferentes concentrações de goma xantana durante dez semanas.
Os animais foram divididos em quatro grupos. Um deles não recebeu o aditivo. Os demais receberam doses baixa, média e alta, simulando diferentes níveis de consumo.
Os resultados mostraram que todas as doses testadas provocaram um estado inflamatório moderado no intestino dos animais. O efeito foi mais intenso entre os grupos que receberam as doses média e alta.
Segundo os pesquisadores, os animais que consumiram goma xantana apresentaram maior presença de linfócitos na parede intestinal, indicando uma resposta do sistema de defesa local.
A inflamação também foi identificada por meio da análise do tecido intestinal e pelo aumento de moléculas associadas a processos inflamatórios, entre elas a interleucina-1 beta (IL-1β) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α).
O estudo também encontrou aumento nos níveis da proteína Claudina-2, alteração relacionada ao aumento da permeabilidade intestinal.
O intestino funciona como uma barreira entre o conteúdo presente no órgão e o restante do organismo. Quando essa barreira perde parte de sua integridade, aumenta a passagem de substâncias através do tecido intestinal.
De acordo com as pesquisadoras, a alteração observada nos animais indica perda da integridade da barreira intestinal.
Os pesquisadores não identificaram uma mudança expressiva na diversidade geral da microbiota intestinal dos animais. No entanto, o consumo prolongado da goma xantana alterou o equilíbrio entre os microrganismos presentes no intestino.
O estudo identificou aumento na quantidade de bactérias do filo Elusimicrobiota, associado a estados inflamatórios. Para os pesquisadores, essa alteração caracteriza um quadro de disbiose, que corresponde a um desequilíbrio na microbiota intestinal.
A goma xantana é um polissacarídeo produzido por meio da fermentação de açúcares pela bactéria Xanthomonas campestris. Depois do processo de produção e purificação, a substância se transforma em um pó branco utilizado pela indústria.
Sua principal função nos alimentos é aumentar a viscosidade e ajudar na estabilidade das preparações. O ingrediente aparece com frequência em produtos e receitas sem glúten, onde ajuda a proporcionar textura e elasticidade. Também pode ser encontrado em molhos, temperos, bebidas, sopas, purês e produtos sem lactose.
Além da indústria alimentícia, a goma xantana é utilizada em produtos farmacêuticos e cosméticos.
Os resultados do estudo não permitem afirmar que o consumo da goma xantana provoque inflamação intestinal em seres humanos, já que a pesquisa foi feita em ratos. A própria pesquisa aponta a necessidade de estudos que avaliem os efeitos da substância em humanos e investiguem seu uso seguro.
Segundo Claudia Oller, professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e coordenadora do estudo, o alerta está relacionado principalmente ao uso diário e ao efeito cumulativo do espessante, e não à necessidade de eliminar completamente a goma xantana da alimentação.
A pesquisadora também destaca que o objetivo não é demonizar o aditivo, mas ampliar os estudos sobre seus efeitos e possíveis estratégias para um uso seguro.
Por suas propriedades, a goma xantana pode ser encontrada em diferentes tipos de produtos. Entre os exemplos citados nas informações do estudo estão:
O ingrediente também pode estar presente em shakes proteicos e suplementos alimentares, segundo as informações da pesquisa.
A goma xantana também é utilizada no preparo de bebidas e alimentos para pessoas com disfagia, condição que dificulta a deglutição.
De acordo com as pesquisadoras, nesses casos a substância pode ser necessária para ajudar na alimentação e hidratação. Para pessoas que não toleram alternativas naturais, como o amido de milho, a orientação apresentada no estudo é trabalhar com redução de danos e acompanhar a saúde intestinal.
As pesquisadoras destacam que são necessários novos estudos para entender melhor os efeitos da goma xantana no organismo humano. Para a população em geral, o trabalho também reforça a recomendação de evitar o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, conforme orientação do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Com informações - Agência Fapesp