Hábitos da rotina moderna alteram a ação da insulina e favorecem a resistência metabólica, alertam especialistas da rede pública
Redação
Publicado em 05/06/2026, às 11h26
O diabetes tipo 2 registra crescimento no Brasil. Dados do sistema de monitoramento Vigitel, divulgados pelo Ministério da Saúde em 2025, indicam que o percentual de adultos com a doença nas capitais brasileiras saltou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024.
O problema não se limita ao consumo de açúcar, mas envolve comportamentos cotidianos que afetam o funcionamento hormonal. A médica endocrinologista Maria Penha, do Hospital Regional de Assis (unidade estadual gerenciada pelo Cejam), aponta os riscos do jejum prolongado não planejado.
Quando a pessoa fica muitas horas sem comer, o corpo entende aquilo como uma situação de alerta. Há liberação de hormônios ligados ao estresse e o organismo passa a trabalhar para preservar energia. Depois, quando ocorre uma refeição muito grande ou rica em carboidratos simples, ocorre um pico importante de glicose no sangue e o pâncreas precisa produzir grandes quantidades de insulina rapidamente", explica a especialista.
A repetição diária desse processo favorece a resistência à insulina, condição na qual as células perdem a eficácia em responder ao hormônio responsável por controlar a glicose. O organismo passa a produzir cada vez mais insulina na tentativa de manter o equilíbrio, o que eleva o risco de diabetes tipo 2 com o passar dos anos.
A médica alerta para hábitos considerados normais que contribuem para esse cenário: pular o café da manhã, passar o dia apenas com café, almoçar muito tarde, substituir refeições completas por alimentos ultraprocessados e jantar próximo da hora de dormir. "O cérebro e o metabolismo precisam de certa previsibilidade. Quando a alimentação ocorre sempre de forma desordenada, o corpo permanece em estado constante de adaptação e isso interfere diretamente na ação da insulina", frisa.
A alimentação desatenta ou 'no automático' (trabalhando, no celular ou sem pausas) dificulta a percepção de fome e saciedade. A privação prolongada de comida também aumenta a tendência a episódios de compulsão por alimentos gordurosos e doces.
Sono ruim, estresse crônico, alimentação irregular, obesidade e sedentarismo também têm impacto importante. A obesidade, inclusive, é um dos principais fatores ligados tanto ao desenvolvimento quanto à dificuldade de controle do diabetes tipo 2", ressalta Maria Penha. Ela lembra que as Diretrizes 2025 da Sociedade Brasileira de Diabetes reforçam a redução de peso corporal como meta para o controle da glicemia.
O estresse agrava a condição. A liberação contínua de cortisol aumenta a produção de glicose pelo fígado e pode levar ao acúmulo de gordura abdominal.
A prevenção ao diabetes envolve adaptações graduais. A recomendação médica inclui manter horários regulares para a alimentação, priorizar alimentos in natura, incluir fibras e proteínas nas refeições e respeitar o sono. "Diabetes não surge de repente. Ele costuma ser resultado de pequenos desequilíbrios repetidos diariamente durante muitos anos. Por isso, olhar para a rotina alimentar com mais atenção é uma das formas mais importantes de prevenção", orienta a endocrinologista.
A rede de atenção primária atua para barrar o avanço da doença. A gerente da Unidade de Referência à Saúde do Idoso (URSI) Campo Limpo, Luciana Carvalho, destaca a importância da orientação contínua. "As equipes orientam sobre a importância de manter uma alimentação equilibrada, respeitando horários das refeições e priorizando alimentos in natura e minimamente processados. Muitas vezes, as pessoas não percebem como hábitos da correria do dia a dia aumentam o risco para doenças crônicas como o diabetes", explica a gerente.
O acompanhamento inclui o Plano de Autocuidado Pactuado, ferramenta que ajuda a equipe de saúde e o usuário a estabelecer metas. "O cuidado com o diabetes não envolve apenas medicamento ou exame. Existe uma dimensão comportamental muito importante, porque estamos falando de uma doença diretamente ligada ao estilo de vida", conclui Luciana.