Orientação considera 14 casos analisados pela agência norte-americana (FDA), incluindo dois óbitos, e recomenda acompanhamento dos níveis da vitamina durante o tratamento
Rhauanny Queiroz
Publicado em 16/09/2026, às 11h02
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu alerta sobre o risco de deficiência de vitamina B6 em pessoas que utilizam medicamentos contendo carbidopa/levodopa, utilizados no tratamento da doença de Parkinson. A deficiência pode estar associada à ocorrência de convulsões.
O alerta, publicado em 1º de setembro de 2026, foi motivado por uma revisão de segurança da agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a U.S. Food and Drug Administration (FDA).
Análise identificou casos de convulsões associadas à deficiência de vitamina B6 em pacientes que faziam uso de medicamentos com carbidopa/levodopa. Diante das evidências, a Anvisa determinou a atualização das informações de segurança da bula do medicamento de referência Carbidol®, com a inclusão de advertências sobre o risco de deficiência da vitamina e de convulsões relacionadas a essa condição.
As bulas também passaram a recomendar a avaliação dos níveis de vitamina B6 antes do início do tratamento e periodicamente durante o uso do medicamento. A agência solicitou ainda a inclusão de parestesia e convulsões entre as possíveis reações adversas.
Segundo a Anvisa, a FDA identificou 14 casos de convulsões associados à deficiência de vitamina B6 em pacientes tratados com medicamentos contendo carbidopa/levodopa. Do total, dois casos resultaram em óbito. Foram consideradas 13 notificações de eventos adversos encaminhadas à agência norte-americana e um caso encontrado na literatura científica.
Todos os casos avaliados envolveram doses de levodopa superiores a 1.000mg por dia. Já doses acima de 1.500mg por dia foram associadas a um intervalo menor entre o início do tratamento e a identificação da deficiência de vitamina B6.
Os casos apresentaram períodos de latência entre 23 e 132 meses. As convulsões foram predominantemente de início focal, com generalização secundária, e alguns pacientes evoluíram para estado de mal epiléptico.
A análise também identificou outros sinais compatíveis com deficiência de vitamina B6, como aumento dos níveis de homocisteína, anemia microcítica ou normocítica e sintomas neuropsiquiátricos.
A vitamina B6, em sua forma ativa, o fosfato de piridoxal (PLP), participa de diversas funções do organismo, incluindo a produção de neurotransmissores. Entre eles está o Gaba, substância que contribui para o controle da atividade das células nervosas e para a prevenção de convulsões.
De acordo com a Anvisa, em medicamentos contendo carbidopa/levodopa, a deficiência pode ocorrer porque a conversão da levodopa em dopamina pode contribuir para a redução dos níveis de vitamina B6. Além disso, a carbidopa pode se ligar à forma ativa da vitamina, reduzindo sua disponibilidade no organismo.
A FDA não identificou, durante a revisão, casos de convulsões associadas à deficiência de vitamina B6 em pacientes que utilizavam a combinação de carbidopa/levodopa/entacapona, conhecida como formulação tripla, nem na formulação injetável de carbidopa/levodopa.
A Anvisa reforça que o tratamento com carbidopa/levodopa não deve ser interrompido sem orientação de um profissional de saúde. A avaliação dos níveis de vitamina B6 deve ser realizada conforme a recomendação médica.
Profissionais de saúde devem avaliar a vitamina antes do início do tratamento, periodicamente durante o uso e quando surgirem sinais ou sintomas sugestivos de deficiência. Também deve ser considerada, conforme a avaliação clínica individual, a necessidade de suplementação.
Entre os sinais e sintomas que devem ser comunicados ao profissional de saúde estão convulsões, depressão, confusão, alterações nos lábios, língua ou pele, dormência, formigamento, dor aguda e fraqueza muscular.
A agência também orienta que os profissionais estejam atentos ao fato de que convulsões relacionadas à deficiência de vitamina B6 podem não responder adequadamente aos anticonvulsivantes convencionais e podem apresentar resolução após a correção da deficiência.
Até o momento, não foram identificados no Brasil casos notificados de convulsões associadas ao uso de carbidopa/levodopa. Ação da Anvisa tem caráter preventivo e busca ampliar as informações disponíveis para profissionais de saúde e pacientes.