Costa Norte
Publicado em 22/06/2012, às 18h11 - Atualizado em 24/08/2020, às 01h03
O fato político mais marcante e inesperado do cenário nacional recente foi a ida do ex-presidente Lula à residência do deputado Paulo Maluf, por exigência deste, para oficializar a adesão do PP à candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. Uma foto de Lula abraçando Paulo Maluf era impensável se for levada em conta a história política de ambos. Sempre se fustigaram, com o uso de expressivas agressões.
Em 1993, quando os dois foram candidatos à presidência da República, Maluf comparou administradores petistas a “nuvens de gafanhotos”. Lula rebateu: “Maluf esquece de seu passado de ave de rapina. O que ameaça o Brasil não são nuvens de gafanhotos, mas sim nuvens de ladrões. Maluf não passa de um bobo alegre, um bobo da corte, um bufão que fica querendo assustar as elites acenando com o perigo do PT. Maluf é igualzinho ao Collor, só que mais velho e mais profissional. Portanto, mais perigoso.”
O então prefeito de São Paulo contra-atacou. “Ave de rapina é o Lula, que não trabalha há 15 anos e não explica como vive”, disparou. “Ave de rapina é o PT, que rouba 30% de seus filiados que ocupam cargos de confiança na administração. “Maluf emendou: “Se o Lula acha que há ladrões à solta, que os procure no PT, principalmente os que patrocinaram a municipalização do transporte coletivo de São Paulo.”
A troca de insultos sempre dominou o relacionamento entre Lula e Maluf ao longo de inúmeros embates eleitorais. Sobressaía o ódio que um tinha pelo outro. O pragmatismo de Lula de ceder as exigências de Maluf e posar em público ao lado dele em troca de um minuto e meio no horário eleitoral gratuito provocou a renuncia da deputada Luiza Erundina ao cargo de candidata a vice-prefeita na chapa de Haddad.
Esta é a 3ª barbeiragem do ex-presidente na condução política do PT na cidade de São Paulo. A 1ª foi vetar a candidatura da senadora Marta Suplicy, que dividia as pesquisas com José Serra. A 2ª barbeiragem foi tentar atrair para o lado de Haddad o apoio do prefeito Gilberto Kassab, que acabou nos braços do candidato tucano. Agora, caberá ao eleitor paulistano julgar a surreal união de Lula e Maluf para turbinar a campanha de Haddad.
Eles só pensam em Eleições
Senadores e deputados têm pela frente apenas mais três semanas de trabalho antes do início do recesso parlamentar, previsto para começar em 17 de julho. O recesso, porém, só poderá acontecer se os parlamentares votarem a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para 2013.
O Congresso retoma suas atividades em 1º de agosto, mas daí em diante os deputados e senadores serão liberados para participarem da campanha eleitoral. Deverão retornar à Brasília em 2 ou 3 dias de agosto e de setembro, para votação de projetos que serão escolhidos em comum acordo pelos governistas e oposição. É uma espécie de “me engana, que eu gosto”, com o objetivo de passar para a sociedade a impressão de que estão exercendo suas atividades legislativas.
Nesta semana, poucos parlamentares estiveram na Câmara e no Senado, já que um bom número deles participava do Congresso da ONU, a Rio+20. Outros motivadores do “recesso branco” foram as festas juninas, sobretudo no Nordeste, que são consideradas palanques de peso na corrida pelas prefeituras, e mais as convenções partidárias.
O presidente da Câmara, deputado Marco Maia, disse que vai tentar colocar em votação, antes do recesso, o projeto que fixa as regras de distribuição dos royalties do petróleo. Outro projeto que poderá ser votado é o que flexibiliza o horário de transmissão da Voz do Brasil.
Manobras em torno da CPI
A CPI do Cachoeira não funcionou esta semana por conta da ausência de vários de seus integrantes que participavam da RIO+20, Conferência sobre o meio ambiente promovido pelas Nações Unidas. Mas em torno dela foram tomadas decisões importantes que poderão alterar seus rumos futuros.
Uma delas é que integrantes da CPI pretendem cancelar a votação da semana passada que adiou a convocação do dono da Delta Construções após a revelação da existência de um encontro em Paris de um grupo de parlamentares com o empresário Fernando Cavendish. Outra decisão importante foi do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) considerando válidas as escutas telefônicas da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que revelaram o esquema criminoso do contraventor goiano Carlinhos Cachoeira. Foi refutada a tese do ministro Tourinho Neto que queria a liberação imediata do Cachoeira e a anulação das escutas.
Outra decisão inesperada foi a do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) José Antônio Dias Toffoli, que concedeu liminar adiando a votação do relatório de cassação do senador Demóstenes Torres no Conselho de Ética do Senado. Toffoli definiu que a votação só poderia ocorrer três dias úteis após a leitura do texto elaborado pelo relator senador Humberto Costa (PT-PE). Integrantes do Conselho de Ética reagiram. “É uma estratégia protelatória. Existe uma clara controvérsia, com base no Poder Judiciário, para retardar as respostas que o país espera diante dessas denúncias de corrupção” – protestou o senador Randolfe Rodrigues (PSol/AP).
Na Câmara dos Deputados, foi prorrogada por mais 45 dias a Comissão de Sindicância, criada para investigar os deputados Alberto Leréia (PSDB-GO), Rubens Otoni (PT/GO) e Sandes Junior (PP/GO), acusados de quebra de decoro por terem ligações com Carlinhos Cachoeira.