Registro raro: baleia-franca-austral permanece com filhote em Ilhabela

Após quase desaparecer por causa da caça, a espécie volta a ser observada no litoral brasileiro durante o período de migração

Rhauanny Queiroz
Publicado em 17/07/2026, às 10h18

Fêmeas utilizam águas mais calmas durante o inverno para amamentar e proteger os filhotes - Reprodução instagram/@noticiasonlinelitoralpaulista


A baleia-franca-austral (Eubalaena australis) avistada na quarta-feira (15), no canal de Ilhabela, continua na região ao lado do filhote. A permanência da dupla no litoral norte de São Paulo reforça a raridade do registro e destaca a importância da região para a conservação dos grandes mamíferos marinhos durante o período de migração.

O primeiro avistamento foi registrado por volta das 10h pelo empresário do setor de turismo náutico e observador de baleias Marcos Cará. As imagens mostram a fêmea ao lado do filhote em um momento de tranquilidade, incluindo o comportamento de amamentação, considerado pouco comum de ser observado no litoral paulista.

Desde então, mãe e filhote permanecem nas águas do canal de São Sebastião, proporcionando um espetáculo raro para quem acompanha a temporada de baleias no litoral norte. A orientação, no entanto, é que a observação seja feita com responsabilidade, mantendo distância segura e respeitando o espaço dos animais. O mergulho com baleias é proibido no Brasil.



De acordo com dados do Viva Instituto Verde Azul, desde 2020 foram registrados apenas 25 avistamentos de baleias-francas em todo o litoral paulista. Desse total, 16 envolveram fêmeas acompanhadas de filhotes, o que evidencia a importância do registro feito em Ilhabela.

Embora a temporada de migração seja marcada principalmente pela presença das baleias-jubarte, a ocorrência de baleias-francas no litoral paulista é considerada menos frequente. O aparecimento de uma mãe acompanhada do filhote torna o registro ainda mais relevante para pesquisadores e para o monitoramento da espécie.

Gigantes que percorrem milhares de quilômetros

A baleia-franca-austral está entre as maiores espécies de cetáceos encontradas na costa brasileira. Os adultos podem ultrapassar 17 metros de comprimento e pesar mais de 60 toneladas. Entre suas principais características estão a ausência de nadadeira dorsal e as calosidades presentes na cabeça, que permitem a identificação individual de cada animal pelos pesquisadores.



Durante o verão, a espécie permanece em águas frias próximas à Antártica, onde se alimenta principalmente de krill e pequenos crustáceos. Com a chegada do inverno, inicia uma longa migração em direção ao litoral brasileiro em busca de águas mais quentes e calmas para reprodução, nascimento e amamentação dos filhotes.

No Brasil, a principal área reprodutiva está localizada no litoral de Santa Catarina. No entanto, durante a migração, alguns indivíduos também podem ser observados ao longo da costa sudeste, incluindo registros ocasionais no litoral de São Paulo.

Os filhotes nascem com cerca de cinco metros de comprimento e dependem do leite materno nos primeiros meses de vida. Por isso, as fêmeas costumam permanecer em áreas costeiras e de águas mais rasas, que oferecem maior proteção durante esse período.



Espécie quase desapareceu da costa brasileira

Além de ser um registro raro no litoral paulista, a presença da baleia-franca-austral também chama atenção pela história de recuperação da espécie. Durante séculos, ela foi uma das principais vítimas da caça comercial, prática que reduziu drasticamente sua população em diferentes regiões do mundo.

O próprio nome 'baleia-franca' surgiu porque ela era considerada a baleia "certa" para a captura. Como nadava lentamente, permanecia próxima da costa e flutuava após ser abatida, tornou-se um alvo frequente de baleeiros desde o período colonial.

No Brasil, a caça se concentrou principalmente entre os séculos XVII e XIX, com armações baleeiras instaladas do litoral da Bahia até Santa Catarina. O principal interesse não era a carne, mas a espessa camada de gordura dos animais, utilizada na produção de óleo para iluminação, lubrificação e até na fabricação de argamassa empregada em construções da época.



A exploração intensa levou a espécie à beira da extinção no Atlântico Sul. Com o fim da caça comercial e a criação de medidas de proteção, a população passou a apresentar sinais de recuperação nas últimas décadas, tornando cada avistamento de mães acompanhadas de filhotes um importante indicativo dos esforços de conservação.

Observação deve ser feita com responsabilidade

Com o aumento do número de baleias no litoral durante o inverno, cresce também a procura pelos passeios de observação. A recomendação é que a atividade ocorra apenas com embarcações autorizadas, para respeitar a distância segura dos animais e evitar qualquer interferência em seu comportamento natural.

Outra orientação importante é não tentar se aproximar das baleias nem entrar na água. O mergulho com cetáceos é proibido no Brasil, e o respeito ao espaço dos animais é fundamental para garantir sua segurança durante a migração e o período de cuidado com os filhotes.



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