Músico transporta jararaca viva em panela de pressão durante resgate do filho picado

Desesperado após filho adolescente de 14 anos ser picado por cobra venenosa durante churrasco em chácara de Goiás, músico levou cobra durante resgate com o tinha por perto: uma panela de pressão

Da redação
Publicado em 09/03/2022, às 12h09 - Atualizado às 12h56

Jararaca, de cerca de 60 centímetros, foi transportada em panela de pressão pelo músico Ricardo Ambrósio, após animal picar seu filho durante churrasco em chácara de Goiás Músico transporta jararaca viva em panela de pressão durante resgate do filho picado - Imagem: Reprodução / Biólogo Henrique o Biólogo das Cobras/Youtube/ Ricardo Ambrósio


Ricardo Ambrósio, um músico de 35 anos, transportou uma jararaca viva em uma panela de pressão após o animal picar seu filho, Eduardo Andrade, um adolescente de 14 anos, durante um churrasco em uma chácara em Goiás. Com a jararaca na panela de pressão, o músico conseguiu auxílio da Polícia Rodoviária no socorro do filho. Socorrido, o adolescente permaneceu internado por sete dias em um hospital de Brasília e se recupera bem.

No último domingo (6), quando o adolescente já estava fora de perigo, o caso foi divulgado pelo biólogo, divulgador científico e especialista em herpetologia (anfíbios e répteis) Henrique Abrahão Charles, dono de um dos maiores canais dedicado às cobras do Youtube que leva seu nome e credencial o “Biólogo Henrique, o Biólogo das Cobras”.

“Acompanhei o caso desde o dia seguinte à picada”, disse o biólogo em uma  vídeo-análise da situação de risco em que, além do comportamento da serpente,  explica os  riscos, erros e acertos do pai do garoto durante a emergência (assista abaixo).



Ricardo, que participa do vídeo, afirma que foi passar o domingo de Carnaval (27/02) com familiares e amigos em uma chácara em Goiás. Como o mato do lugar estava alto, disse o músico, ele contratou um serviço de capinagem no entorno da chácara que envolvia uma pequena queimada no mato cortado.

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Ele acredita que, indiretamente, esse fogo foi determinante na picada do filho. “Por a gente ter cortado esse mato e, na hora que a gente chegou, tocou fogo, eu creio que essa cobra estava lá, porque ela saiu com medo do fogo. Talvez se a gente não tivesse tocado fogo, ela teria ficado o feriado todinho lá no mato no lugar dela lá, mas era necessária a limpeza do ambiente onde a gente ia ficar”, explica Ricardo.

O músico relata que, posteriormente, já com a família se divertindo em um churrasco, a jararaca surgiu sem ser notada e, repentinamente, picou o tornozelo esquerdo de seu filho.

“A gente tirou uma lona que estava em cima de umas cadeiras que estavam embaixo de uma árvore e começamos a organizar ali o local. A gente começou a assar carne, tudo, ele [Eduardo] pegou um pedaço de carne e foi sentar na cadeira. Na hora que ele sentou, eu vi que ele falou assim ‘AAí!’, pegou na perna e já levantou. Ai eu falei ‘que que foi?’. Aí eu peguei, olhei por debaixo da cadeira e a cobra estava lá, já se afastando do local”, relembra o pai.



“Na hora eu não senti nada", relembra o adolescente. "Mas logo depois eu comecei a sentir um formigamento e uma dor, como se meu pé estivesse pegando quase fogo. Muito quente e ardendo também”.

“Ele [Ricardo] falou que tinha lona em cima das cadeiras”, investiga o biólogo. “Muito provavelmente a cobra estava debaixo dessa lona. Eles puxaram e nem viram. Porque não seria comum ela nessa agitação toda, estar ali. Muito provavelmente eles puxaram a lona, ela ficou abobada e foi por isso que ela picou. Ela estava ali meio que protegida, ele tira a lona, agita as cadeiras, quando ela consegue despertar, tem uma perna na frente dela, o que ela pensa: mordida. Ela se sente compelida e não só isso, pode ter sido expulsa também pelo fogo, isso é comum”.

O especialista em herpetologia explica as particularidades do animal que picou o adolescente. “Essa serpente é uma Bothrops moojeni, é da família das jararacas, e [a picada] vai ter os sintomas parecidos com a da jararaca. O veneno pode levar a óbito, necrose, pode causar um problema no sangue, uma coagulopatia. Então, assim, tem uma peçonha, muito, muito sinistra”.



Apesar do perigo,  o biólogo das cobras pontua que também é preciso entender o lado do animal. “Eu volto a repetir que esses animais não são demônios. Eles sentem frio, fome, dor e medo. O tempo inteiro. Os animais na natureza não têm um pingo de sossego. Eles não podem nem dormir, porque, dormindo, podem ser devorados por outros”.

O músico relembra que, com o filho picado, tentou manter a calma e não permitiu que amigos matassem a serpente, pois acreditava que transportá-la viva poderia ajudar a salvar a vida do filho.

“Eu falei ‘nossa, foi uma cobra’. Ele [Eduardo] já ficou agoniado, a mãe dele também ficou muito agoniada na hora. Eu falei, ‘não, não pode [matar a cobra]’ porque eu vou levar a cobra. Falei pra ele [Eduardo] manter a calma. Falei pra minha esposa passar calma pra ele também”.



No desespero do resgate, a solução encontrada pelo músico para transportar a serpente foi aprisioná-la em uma panela. “Peguei ele [Eduardo], botei dentro do carro. Aí, o local que eu achei mais seguro pra gente transportar essa cobra foi uma panela de pressão. Coloquei a cobra dentro da panela e fechei a panela, pra ela não bater [escapar] dentro do carro”.

O biólogo comenta que o transporte da cobra tem seus riscos e há formas mais seguras de identificação. “Eu, particularmente, não recomendo levar a serpente. Eu recomendo você filmar e fotografar com uma distância segura para que não haja problema. Agora, se você vai levar o animal, aí tem que ser de uma forma muito segura como ele fez”.

Agentes da Polícia Federal prestaram apoio à família e deram destinação ambiental à cobra selvagem 2 - Músico transporta jararaca viva em panela de pressão durante resgate do filho picado Policiais Rodoviários capturando cobra de panela de pressão (Imagem: Reprodução / Biólogo Henrique o Biólogo das Cobras/Youtube/ Ricardo Ambrósio)



Com o filho picado, a esposa desesperada e a cobra presa em uma panela de pressão, o músico saiu de carro em busca de resgate e se deparou com uma guarnição da Polícia Rodoviária Federal. “Prestaram um auxílio muito bom pra gente. Eu parei lá, pedi ajuda, eles pegaram meu filho, minha esposa, a panela com a cobra, colocaram dentro da viatura e levaram até o hospital mais próximo”.

O hospital a que o músico se refere é o hospital de Brasília, na Ceilândia, onde seu filho Eduardo foi medicado e permaneceu internado em tratamento por uma semana. O adolescente passa bem. A cobra de cerca de 60 centímetros, relatou o músico, foi entregue aos policiais que a destinaram a órgãos ambientais.

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