Da orla marítima de Santos aos manguezais de Bertioga e Guarujá, as garças fazem parte da paisagem da região; é comum vê-las durante a caça
Geilton Junior
Publicado em 04/08/2026, às 16h20
Quem caminha pelas praias, canais e manguezais da Baixada Santista certamente já se deparou com uma cena comum: uma garça-branca, imóvel, à beira da água, observando atentamente o movimento antes de capturar um peixe.
Elegantes e discretas, essas aves estão entre as espécies mais frequentes do litoral paulista, e a presença constante delas na região tem uma explicação ligada às características naturais do ecossistema.
A Baixada Santista reúne uma combinação considerada ideal para esses animais. A região abriga praias, rios, canais, estuários e um dos maiores complexos de manguezais do estado de São Paulo, oferecendo alimento em abundância e locais seguros para descanso e reprodução.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as garças fazem parte da fauna típica dos manguezais brasileiros, ao lado de guarás, colhereiros, biguás e martins-pescadores.
Esses ambientes funcionam como verdadeiros berçários da vida marinha, concentrando peixes, crustáceos, moluscos e outros organismos que servem de alimento para diversas aves aquáticas.
Uma das principais características das garças é a estratégia de caça. Em vez de perseguirem as presas, elas permanecem praticamente imóveis por vários minutos até identificar o momento certo para atacar. Com um golpe rápido do bico, conseguem capturar pequenos peixes, camarões, caranguejos e até anfíbios.
Essa técnica faz com que as margens dos canais urbanos, os rios e as áreas alagadas sejam locais perfeitos para a alimentação. Na Baixada Santista, é comum observá-las nos canais de Santos, no estuário entre Santos e Guarujá, nos manguezais de Cubatão, Bertioga e São Vicente e até em lagoas próximas às praias.
Embora muita gente associe as garças apenas às praias, o verdadeiro "restaurante" dessas aves está nos manguezais. O ecossistema, influenciado pelas marés, concentra uma enorme biodiversidade e é considerado um dos mais produtivos do planeta.
O Atlas dos Manguezais do Brasil, publicado pelo ICMBio, destaca que esses ambientes oferecem alimento durante todo o ano, o que explica a grande concentração de aves aquáticas em regiões como a Baixada Santista.
Além disso, a região concentra as maiores áreas de manguezal do litoral paulista, especialmente no complexo estuarino de Santos e São Vicente, onde as marés renovam constantemente a oferta de nutrientes e de espécies aquáticas.
Diversas espécies de garças podem ser observadas na Baixada Santista. Entre as mais comuns estão a garça-branca-pequena (Egretta thula), a garça-branca-grande (Ardea alba) e a garça-moura (Ardea cocoi), que se diferenciam pelo tamanho, formato do bico e hábitos de alimentação.
É comum vê-las sozinhas durante a caça, mas muitas espécies passam a noite reunidas em árvores próximas aos manguezais, formando grandes dormitórios coletivos.
Além da beleza que acrescentam à paisagem, as garças desempenham um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas costeiros. Como predadoras, ajudam a controlar populações de peixes, crustáceos e pequenos animais, além de servirem como indicadoras da qualidade ambiental.
Especialistas consideram que a presença frequente dessas aves costuma indicar que ainda existem recursos naturais suficientes para sustentar a fauna local, especialmente em áreas de manguezal preservadas.
Isso não significa ausência de impactos ambientais, mas reforça a importância da conservação desses ambientes para manter a biodiversidade da Baixada Santista.
A próxima vez que encontrar uma garça parada à beira de um canal ou caminhando lentamente pela areia, vale a pena observar por alguns instantes. A aparente tranquilidade esconde uma caçadora altamente especializada, perfeitamente adaptada aos ecossistemas costeiros, que fazem da Baixada Santista um dos principais refúgios da fauna no litoral paulista.