Estudo revela fungo da esporotricose em animais selvagens pela primeira vez

Pesquisa apoiada pela Fapesp indica que animais silvestres funcionam como reservatórios do agente causador da esporotricose

Redação
Publicado em 19/06/2026, às 11h04

Coletas das carcaças ocorreram logo após atropelamentos em duas rodovias no estado do Paraná - Eloiza Teles Caldart/UEL


O fungo causador da esporotricose, que comumente infecta gatos domésticos e provoca lesões na pele, está presente em órgãos internos de animais selvagens. O estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) foi publicado em março na revista Mycopathologia.

Os resultados indicam que os animais silvestres atuam como reservatórios do patógeno, com potencial para circular o fungo entre áreas nativas, rurais e urbanas. A descoberta serve de alerta para as ações de vigilância epidemiológica e ambiental no litoral paulista e em todo o país.

Os pesquisadores identificaram três espécies do gênero Sporothrix, incluindo a Sporothrix brasiliensis, isolada no Brasil. Além dela, os cientistas detectaram a S. globosa e a S. schenckii, esta última predominante em mamíferos e aves. O micro-organismo causa graves lesões em animais e contamina seres humanos por meio da pele, com possibilidade de atingir o sistema linfático.



O coordenador do estudo e professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), Anderson Messias Rodrigues, esclarece os riscos da descoberta: 

Não foi possível saber se os fungos estavam em sua forma patogênica nos animais silvestres, mas é evidente que estão circulando mais do que imaginávamos, com potencial risco para a saúde humana e animal”.

O docente coordena o projeto de epidemiologia molecular fúngica financiado pela Fapesp. A identificação direta do material genético ocorreu por causa de um ensaio molecular desenvolvido pelo grupo de pesquisa.

Análise de fauna e quebra de paradigma

A primeira autora do estudo e doutoranda na Universidade McGill, no Canadá, Steffanie Skau Amadei, detalhou os procedimentos técnicos:



Não pudemos realizar a histopatologia para confirmar a infecção, o que pode ser feito em futuros estudos. No entanto, conseguimos detectar o DNA do fungo nos tecidos internos, como fígado e coração, o que é um indício de que ele está circulando no organismo. Além disso, só foram avaliados órgãos anatomicamente íntegros e não expostos ao ambiente, o que poderia ser uma fonte de contaminação”.

As coletas das carcaças ocorreram logo após atropelamentos em duas rodovias no estado do Paraná, sob a liderança do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

O monitoramento também contou com a cooperação de cientistas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e do Centro Médico Universitário de Utrecht, nos Países Baixos. Os pesquisadores analisaram 178 amostras de tecidos de 81 animais recolhidos entre 2017 e 2023 ao longo de 530km da BR-376 e 150km da PR-445.

O DNA das espécies fúngicas apareceu em 11 animais, com maior frequência no coração e no fígado. A espécie S. schenckii surgiu em aves, mamíferos e em um réptil, a cobra-coral-falsa. Entre os mamíferos infectados, constava o gato-do-mato-do-sul, espécie ameaçada de extinção. A S. brasiliensis surgiu em duas aves, enquanto a S. globosa infectou uma cutia, aves e a cobra-coral-falsa.



A pesquisadora Steffanie Skau Amadei apontou que os dados quebram um conceito antigo da biologia:

Existe um paradigma de que aves estariam protegidas de fungos patogênicos pelo simples fato de terem uma temperatura corporal alta, de até 42°C, o que impossibilitaria a vida de fungos. Vimos nesse estudo que as espécies patogênicas suportam, sim, temperaturas corporais altas”.

O professor Anderson Messias Rodrigues concluiu que a pressão humana sobre o meio ambiente expande a área de alcance do fungo: “Estamos presenciando a emergência do Sporothrix em novos hospedeiros. O estudo abre uma avenida para novas pesquisas ao mostrar que os reservatórios do fungo estão muito além dos animais domésticos. A pressão humana sobre o ambiente está diluindo as fronteiras do que é rural, urbano e silvestre”.

* Com informações da Agência Fapesp



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