Vídeo de surucucu pico de jaca albina agonizando antes de morrer em estrada chamou atenção em comunidades de serpentes. Biólogo especialista em cobras afirma que registro do espécime é raro, foi feito no Brasil e lamenta que cobra tenha sido morta. Assista
Da redação
Publicado em 05/04/2022, às 12h12 - Atualizado às 15h47
Um registro em vídeo de uma rara surucucu pico de jaca albina ganhou projeção em comunidades de herpetologia e movimentou grupos de identificação de serpentes esta semana.
Acredita-se que a cobra havia sido atropelada momentos antes. Nas imagens, a serpente, peçonhenta e ameaçada, aparece definhando em uma estrada de terra. Exalando os últimos suspiros, ela balança a cauda com dificuldades enquanto uma horda de formigas, antevendo a possibilidade do banquete de carne morta, se aproxima. Data e local do registro ainda são indefinidos.
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“É um registro único no mundo, não tem registro de surucucu pico de jaca albina”, explicou ao Portal Costa Norte, nesta terça (5), o biólogo, divulgador científico e especialista em herpetologia (anfíbios e répteis) Henrique Abrahão Charles. “Foi no Brasil sim, por conta da espécie”.
O registro da serpente albina ganhou ainda mais projeção ontem (4), após o biólogo divulgar uma vídeo-análise em seu canal, um dos maiores do Youtube sobre o tema, em que ele explica porque o registro é raro, as particularidades da cobra albina e lamenta que o animal tenha sido encontrado à beira da morte (assista abaixo).
“Esse é um registro magnífico. É uma surucucu pico de jaca albina, uma coisa nunca antes registrada. Na natureza, eu nunca vi nem em cativeiro. É uma pena que ela estava morta, ou pelo menos acabando de morrer ali naquele momento, porque é uma cobra muito especial”, lamenta o especialista em serpentes na vídeo-análise.
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Abrahão explica que o nome científico da cobra se deve a um hábito similar ao da temida cascavel. “Lachesis muta quer dizer que ela é uma cascavel muda, porque ela bate a cauda, mas ela não tem o chocalho. E aí se criou essa ideia de cascavel muda”. A espécie Lachesis muta está classificada com ameaçada de extinção, enquadrada na categoria de espécie vulnerável.
Fora isso, a cobra era albina, o que faz dela ainda mais incomum. De acordo com o biólogo, na vida silvestre, o albinismo pode trazer desvantagens aos animais, tanto pelos problemas na visão associados à condição genética quanto pelo indesejado destaque dos animais albinos na vegetação - a falta de camuflagem natural os torna presas mais fáceis.
Entretanto, explica o biólogo, não é raro que mesmo albinas, as Lachesis muta e outras serpentes aparentadas consigam chegar à vida adulta, em razão de uma série de características anatômicas e comportamentais que as permitem se adaptar.
“Esse tipo de serpente é crepuscular, [elas] saem no cair da noite, de modo que [a falta] de camuflagem não será um problema tão grande pra elas. Além disso, a surucucu é uma crotalinae, ou seja, ela possui fosseta loreal, um órgão do lado da narina que é responsável por ela ’enxergar calor’. Com isso, ela consegue se virar. Ela consegue se alimentar. O fato de ela ser albina não será uma dificuldade muito grande pra ela. Para outros animais é um pouco mais difícil”, esclarece o especialista.
Mesmo assim, o biólogo opina que o animal poderia ter sido recolhido como forma de ter preservada sua integridade.
“Eu pressuponho que ela deveria até ter sido coletada, porque ela tem maiores dificuldades de viver na natureza. Porque o que aconteceu é que ela foi atropelada na beira da estrada. Provavelmente, uma cobra albina, na beira da estrada, tem muito mais dificuldade de enxergar. Quando você está de carro, joga o farol alto na cara do bicho, ele fica meio que cego, ele não sabe o que está acontecendo, ele não sabe que é uma estrada e que ele deveria fugir dali”, ilustra o biólogo.
O especialista também relaciona as mortes de animais aos hábitos humanos. “Infelizmente, as pessoas reclamam da invasão do escorpião amarelo, que está virando uma praga urbana, mas não podem ver um gambá na beira da rua que passam com o carro em cima. Não pode ver um sapo, que vai lá e taca sal no sapo. Essa semana circulou um monte de vídeo de pessoas matando onça pintada”, opina Abrahão, que reflete.
"A troco de quê? Apenas pelo prazer mórbido de matar [um animal]. Pois é, a mesma coisa aconteceu com aquela surucucu. Não estou acusando ninguém de ter feito de propósito, mas geralmente é o que acontece. As pessoas fazem isso propositalmente. Isso existe e infelizmente uma cobra daquela acabou morrendo”.
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