Aumento pode provocar perda de aderência e exigir mudanças em componentes, para que a força do motor seja aproveitada de forma adequada
Redação
Publicado em 22/09/2026, às 10h33
Para muitos apaixonados por carros, a lógica parece simples: quanto maior a potência do motor, mais rápido será o veículo.
Na prática, porém, a quantidade de cavalos de potência no motor não determina, sozinha, o desempenho de um carro. Para que o aumento de potência seja aproveitado de forma efetiva, é necessário conseguir transmitir essa força ao solo. Nesse processo, outros componentes do veículo também têm papel fundamental.
Quem explica é José Francisco dos Santos Júnior, conhecido como Juninho Racetech, especialista em performance automotiva, preparação de motores e drag racing. Segundo ele, conforme a potência aumenta, também cresce a possibilidade de destracionamento, quando os pneus perdem aderência e patinam, dificultando o aproveitamento da força produzida pelo motor.
Um carro com muita potência e pouca tração tende a ser mais lento do que um carro com menos potência e um maior aproveitamento da tração. Sem dúvida, um dos maiores mitos é acreditar que um carro com muita potência sempre será mais rápido”, explica.
A diferença entre potência e torque também costuma gerar dúvidas. De acordo com Juninho Racetech, em uma preparação, os dois normalmente caminham juntos, já que o aumento da potência tende a ser acompanhado por um ganho de torque.
Para explicar como essa diferença pode ser percebida pelo motorista, o especialista compara o torque à sensação provocada por uma montanha-russa.
O torque é aquela sensação de algo te empurrando. A montanha-russa provoca essa sensação não simplesmente porque tem velocidade, mas porque atinge essa velocidade rapidamente”, afirma.
Por isso, considerar apenas os números de potência pode não ser suficiente para construir um carro capaz de entregar o desempenho e a experiência esperados.
Um dos principais cuidados ao aumentar a potência, segundo o especialista, é não concentrar todo o investimento no motor. Suspensão, rodas, pneus e freios também precisam ser considerados para aproveitar melhor o ganho obtido e garantir a segurança.
“É primordial, quando se prepara um motor, pensar em melhorar a suspensão, rodas e pneus para transferir essa potência e também para segurança. E, com certeza, os freios, pois tudo tem que ser calculado para suportar essas mudanças”, ressalta.
Como referência para os projetos, Juninho Racetech aponta uma proporção aproximada de investimento: cerca de 60% podem ser destinados à preparação do motor, enquanto 20% ficam para a suspensão e outros 20% para os freios.
O especialista alerta, entretanto, que já acompanhou projetos em que praticamente todo o orçamento disponível foi destinado ao motor, deixando outros componentes importantes em segundo plano.
Em uma preparação considerada mais básica, destinada a um carro que continuará sendo utilizado normalmente, Juninho Racetech cita como referência um aumento de até 100% da potência. Assim, um veículo de 100 cv, por exemplo, poderia chegar a 200 cv sem grandes alterações, segundo sua experiência.
O aumento, porém, precisa ser acompanhado pelo restante do conjunto. A suspensão merece atenção especial, já que interfere diretamente no aproveitamento da potência e na dirigibilidade. Quando o ganho se aproxima desse patamar, é necessário avaliar se o sistema está adequado à nova configuração do veículo.
Outro erro apontado pelo especialista é aumentar significativamente a potência sem substituir componentes internos do motor necessários para suportar o novo nível de exigência. Nesse cenário, cresce a possibilidade de quebra.
“Preparar carros é realizar o sonho do cliente e, se não tomarmos certas providências, isso pode se tornar um pesadelo”, alerta.
Com mais de 20 anos de atuação no segmento, Juninho Racetech afirma que cada preparação tem características próprias. Alguns projetos, porém, se destacaram pela complexidade e pelos resultados alcançados.
Um deles reuniu componentes de três diferentes mercados automotivos. Um motor 2JZ, utilizado em modelos de performance da Toyota e trazido dos Estados Unidos, foi instalado em uma BMW e combinado a um câmbio americano.
“Unimos em um só carro três dos maiores mercados da performance”, relembra. Segundo o especialista, a BMW tinha originalmente cerca de 120 whp e chegou a 750 whp após o projeto.
O HP (cavalos de potência) indica a potência produzida pelo motor, enquanto o WHP (Wheel Horsepower, ou cavalos na roda) representa a força efetivamente entregue às rodas. A segunda medida considera as perdas de potência que ocorrem no conjunto responsável por transmitir a força do motor até os pneus.
Apesar de números como esses chamarem atenção, Juninho Racetech reforça que a potência não deve ser o único objetivo de uma preparação. “Temos que ser muito conscientes e responsáveis pelo que estamos fazendo, porque, se não for bem calculado e principalmente bem executado, pode se tornar algo perigoso. Nunca pense apenas na preparação, mas também na segurança que esse projeto precisa ter”, finaliza.