Semente de moringa tem potencial para retirar microplásticos da água, diz estudo

Pesquisa do ICT-Unesp de São José dos Campos aponta que extrato de semente atua de forma similar ao sulfato de alumínio

Redação
Publicado em 21/08/2026, às 09h49

Extrato salino gerou coagulação necessária para a filtração de microplásticos - Adriano Reis/ICT-Unesp


Um estudo desenvolvido no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José dos Campos, mostra o potencial da moringa (Moringa oleifera) para a remoção de microplásticos da água.

A pesquisa foi publicada pela revista ACS Omega, da Sociedade Americana de Química. Originária da Índia, a planta é adaptada a países tropicais e atende a diversos fins, como a alimentação.

Nos últimos anos, especialistas analisam o uso das sementes no tratamento hídrico. A primeira autora do estudo, Gabrielle Batista, explica o funcionamento do extrato salino da planta, testado durante o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (PPGECA) da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) da Unesp.



“Mostramos que o extrato salino das sementes tem uma performance parecida ao do sulfato de alumínio, usado em estações de tratamento para coagular a água com microplásticos. Em águas mais alcalinas, ele teve um desempenho até melhor do que o produto químico”, relata a pesquisadora Gabrielle Batista.

Benefícios e aplicações

O projeto recebe a coordenação do professor do ICT-Unesp e do PPGECA da FEB-Unesp, Adriano Gonçalves dos Reis, que também lidera a pesquisa 'Filtração direta e em linha para remoção de microplásticos da água de abastecimento', apoiada pela Fapesp.

O professor do ICT-Unesp e coordenador do estudo, Adriano Gonçalves dos Reis, destaca o uso em locais específicos: “A única desvantagem encontrada até agora em relação ao sulfato de alumínio foi o aumento de matéria orgânica dissolvida, cuja remoção poderia encarecer o processo. No entanto, em pequenas escalas, como propriedades rurais e pequenas comunidades, o método poderia ser usado com baixo custo e eficiência”.



A pesquisa focou o tratamento por filtração em linha, onde a água passa por coagulação para desestabilizar as partículas e segue para um filtro de areia. O processo atende águas de baixa turbidez.

Poluentes como o microplástico possuem carga elétrica negativa e se repelem, assim como repelem a areia dos filtros. Coagulantres neutralizam essa carga. O extrato salino de moringa, acessível para preparo caseiro, desfaz a repulsão e permite a filtragem dos resíduos.

Em etapa anterior, o grupo comprovou a eficácia da semente no ciclo completo de tratamento (floculação, sedimentação e filtração). O estudo anterior teve autoria principal do pesquisador Luiz Gustavo Rodrigues Godoy, em mestrado com bolsa da Fapesp na FEB-Unesp.



Amostras em rios do Vale do Paraíba

Para os testes, a equipe utilizou água da torneira contaminada experimentalmente com policloreto de vinila (PVC). A escolha do PVC ocorre pelo risco à saúde, por causa do potencial mutagênico e cancerígeno, além da presença frequente na superfície de rios e na água tratada.

Os pesquisadores aplicaram irradiação ultravioleta para envelhecer o PVC artificialmente, de modo a reproduzir o comportamento do material na natureza. A água contaminada passou por coagulação e filtração no equipamento Jar Test.

A contagem de partículas ocorreu por meio de microscopia eletrônica de varredura (MEV). Câmeras de alta velocidade e feixes de laser mediram os flocos formados, sem apontar diferenças significativas na remoção de partículas em comparação ao sulfato de alumínio.



Atualmente, o grupo analisa a aplicação do extrato salino em amostras coletadas no rio Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento em São José dos Campos. Nos testes recentes, o produto natural apresentou alta eficiência.

O professor do ICT-Unesp, Adriano Gonçalves dos Reis, complementa sobre a busca por alternativas: “Há um escrutínio regulatório cada vez maior e uma preocupação com a saúde sobre o uso de coagulantes baseados em alumínio e ferro, pelo fato de não serem biodegradáveis, além de deixarem toxicidade residual e apresentarem risco de doenças. Por isso, tem-se intensificado a busca por alternativas sustentáveis”.

Com informações da Agência Fapesp



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