Último registro foi em 1995, no Marrocos; caça e perda de habitat podem ser a causa da primeira extinção de ave da Europa continental em cinco séculos
Redação
Publicado em 14/10/2025, às 17h06
Pela primeira vez em 500 anos, uma ave da Europa continental foi oficialmente declarada extinta. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) confirmou o desaparecimento do maçarico-de-bico-fino (Numenius tenuirostris), ave migratória de médio porte, cujo último registro validado ocorreu em 25 de fevereiro de 1995, na costa do Marrocos.
A decisão encerra décadas de buscas sem sucesso e consolida o que especialistas temiam: uma espécie antes presente da Ásia Ocidental ao norte da África desapareceu, provavelmente levada por pressões humanas e mudanças profundas nos habitats que sustentavam sua rota.
Descrita em 1817 por Louis Pierre Vieillot, a ave se reproduzia nas estepes do Cazaquistão e do sul da Rússia e migrava rumo ao sudoeste, cruzando Bálcãs e sul da Itália até o norte da África. Essa rota, atípica entre maçaricos, dependia de áreas úmidas preservadas ao longo de milhares de quilômetros.
A IUCN aponta a caça e a destruição de habitats como fatores centrais da extinção. A expansão agrícola na antiga União Soviética transformou campos de reprodução, enquanto a pressão cinegética no corredor migratório europeus reduziu ainda mais a população.
Com cerca de 40 centímetros, ninho no solo e ninhadas de até quatro ovos, o maçarico-de-bico-fino alimentava-se de invertebrados, sondando a lama com o bico fino e curvado. Como espécie “indicadora”, refletia a saúde de banhados e zonas alagadas, ecossistemas hoje sob forte estresse.
“O registro desta extinção é um momento trágico e preocupante para a conservação das aves migratórias”, afirmou Amy Fraenkel, secretária-executiva do AEWA (Acordo sobre Aves Aquáticas Migratórias Afro-Eurasiáticas), defendendo ações rápidas para proteger espécies ainda ameaçadas.
A mesma atualização da Lista Vermelha confirmou a extinção de outras seis espécies (entre elas o musaranho da ilha Christmas, e uma espécie de caracol cone) e três bandicoots australianos. Há, porém, sinais de resiliência: a tartaruga-verde (Chelonia mydas) foi reclassificada para “Pouco Preocupante” após alta de 28% desde os anos 1970.
A história da tartaruga-verde mostra que a conservação funciona quando há ação coordenada e determinação”, disse Grethel Aguilar, diretora-geral da IUCN.
Mesmo assim, o quadro global segue crítico: 61% das espécies de aves no mundo apresentam declínio populacional. No Ártico, mamíferos marinhos como a foca-de-capuz e a foca-da-Groenlândia enfrentam pressão crescente das mudanças climáticas — alertas que reforçam a urgência de proteger os últimos refúgios naturais.
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