Inspirado em lista de alerta da OMS, projeto da USP antecipa diagnóstico de vírus como o Nipah, antes que cheguem ao Brasil
Redação
Publicado em 27/01/2026, às 15h33
Autoridades sanitárias da Ásia estão em alerta máximo, após a confirmação de cinco casos do vírus Nipah na província de Bengala Ocidental, na Índia.
Surto, que atingiu profissionais de saúde de um hospital local, levou à quarentena de cerca de 100 pessoas e fez com que países vizinhos, como Tailândia, Nepal e Taiwan, retomassem medidas de segurança em aeroportos, semelhantes às da pandemia de covid-19.
Embora o cenário preocupe, o Brasil já se prepara para alertas deste tipo. Em julho do ano passado, o Jornal da Universidade de São Paulo (USP) divulgou o Projeto Prepare, focado em criar testes diagnósticos para ameaças globais, antes que elas desembarquem em solo nacional.
Infecção pelo Nipah começa com sintomas inespecíficos como febre, dor de cabeça e vômitos, mas pode evoluir rapidamente para quadro grave de encefalite (inflamação no cérebro), com tontura, sonolência e alteração de consciência. Além disso, alguns casos podem evoluir para pneumonia e graves problemas respiratórios.
O vírus Nipah é uma zoonose (transmitido de animais para humanos) e seu reservatório natural são morcegos frutíferos. Segundo Benedito Fonseca, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, ouvido por Vinícius Lisboa para a Agência Brasil, reaparecimento frequente do vírus na Índia tem uma explicação cultural e ambiental: a seiva de tamareira.
"Nesta fase do ano, as tamareiras dão uma seiva muito doce, que os morcegos adoram. Essa seiva é consumida também por pessoas, que geralmente tomam isso puro, sem ferver", explica o infectologista. A saliva, ou urina, do morcego contamina o líquido, infectando quem o bebe.
Além disso, frutas mordidas por morcegos caem no chão e são comidas por porcos, que também adoecem e podem transmitir o vírus para humanos, ampliando a cadeia de contágio.
Apesar da alta letalidade (que pode chegar a 70%, e não tem vacina, ainda), o potencial de o Nipah causar pandemia global, como a da covid-19, é considerado pequeno, analisa Fonseca.
Ele explica que os morcegos transmissores não existem nas Américas, ou na Europa. Além disso, a transmissão entre humanos, embora ocorra (especialmente em hospitais), é menos eficiente que a de vírus respiratórios como gripe, ou sarampo.
No entanto, o risco de casos importados existe.
Do momento da infecção até os sintomas, demora em torno de quatro dias. É possível que uma pessoa se infecte na Ásia e venha para o Brasil", alerta o especialista.
É justamente para identificar esses possíveis casos importados que a USP trabalha. O Projeto Prepare padroniza técnicas de análise tecidual para patógenos da lista prioritária da OMS (incluindo Nipah, Ebola e Marburg).
"A ideia é adquirirmos reagentes e padronizar esse diagnóstico antes que o evento ocorra", afirma o professor Amaro Nunes Duarte Neto, da USP. Objetivo é evitar os gargalos de testagem vistos no início da crise da covid-19.
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