Secretário de Saúde descarta pediatra e ginecologista em Boraceia

Moradores do bairro de Bertioga continuarão sem atendimento especializado

Estela Craveiro
Publicado em 06/04/2018, às 13h16 - Atualizado em 23/08/2020, às 16h39

Protesto na Unidade de Saúde da Família de Boraceia - JCN


Vestidas de preto, cerca de 30 pessoas reuniram-se, na manhã de sexta-feira, 6, na porta da Unidade de Saúde da Família (USF) de Boraceia, bairro de 10 mil habitantes situado no extremo norte de Bertioga,  para reivindicar a disponibilidade de ginecologista, pediatra e dentista naquele posto de atendimento. Elas também querem a presença contínua de uma ambulância e que exames médicos sejam entregues em poucos dias e não em meses. O protesto foi provocado pelo fato de que, no início da semana, a unidade deixou de abrir por falta de recepcionista. Quem desempenhava tal função eram agentes sanitários de saúde, contratados para visitar as famílias em casa. E eles se negaram a continuar, como haviam avisado há um mês.

Recebido com hostilidade, o secretário de Saúde Jurandyr Teixeira das Neves foi ao local conversar com os manifestantes, mas não acenou com qualquer perspectiva de atendimento, ou de análise, das solicitações. Prometeu contratar duas recepcionistas, uma na próxima semana, e fazer uma reforma para ampliar a recepção da USF e colocar azulejos em algumas salas.  Só depois será instalada a nova cadeira odontológica, que estaria no almoxarifado da secretaria;  a USF está, há mais de três meses, sem prestar esse serviço por causa da cadeira que quebrou. Ele disse que o laboratório de exames foi trocado e que, agora, os resultados estão chegando lá. E descartou qualquer possibilidade de haver ambulância, ginecologista e pediatra na USF.

O cerne da questão é que, justamente o bairro mais distante da área central da cidade foi escolhido para a implantação de um modelo de atendimento no qual agentes sanitários visitam as famílias;  um médico vai até elas quando necessário, e, na USF, há apenas dois médicos clínicos gerais. Para todo tipo de consulta, os cidadãos têm que se deslocar por mais de 30 quilômetros até o centro de Bertioga. E é assim que continuará sendo, afirmou o secretário de Saúde, inclusive no resto da cidade toda: “Esse modelo será carregado para todas as unidades básicas de saúde. É assim que funciona no Brasil inteiro”.



Miriane Queiroz Cerqueira, que veio de São Paulo para Boraceia há sete meses, desconhece esse modelo: “Eu morava no Horto Florestal, tinha dois postos de saúde no bairro, com pediatra e ginecologista. Aqui não tem nada”.  Jeane Meireles Tenório endossa: “Não se tem um ginecologista, um pediatra, não se tem o sistema que o doutor Jurandyr diz que existe, mas que, na realidade, não funciona”. Viviane Maniçoba Portela reclama que as grávidas, inclusive de risco, têm que ir ao centro de Bertioga para fazer acompanhamento pré-natal.

Os moradores do bairro  queixam-se, também, do descaso no atendimento, com erros como datas de consulta informadas com divergência, relata Selma Regina dos Santos, ressalvando a boa qualidade dos médicos da USF: "O doutor Renato e a doutora Nadine são ótimos profissionais, mas a demanda é muito grande. É muita gente para só dois médicos atenderem".