Roteiros de Anchieta revelam legado histórico e turístico no litoral paulista

Percurso criado pela Setur-SP traça o mapa da cartografia a pé que o Apóstolo do Brasil andou, esquadrinhou e escreveu em detalhes

Reginaldo Pupo
Publicado em 11/06/2026, às 22h14

Forte de São João, em Bertioga, onde Anchieta se hospedou, no século XVI (foto Elias Gomes Setur-SP) - Elias Gomes - Setur-SP


A passagem de José de Anchieta pelo litoral paulista, no século XVI, deixou marcas que atravessam gerações e hoje se transformaram em importantes atrativos turísticos. Em homenagem ao jesuíta, falecido em 9 de junho de 1597 e canonizado pelo Vaticano em 2014, a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo destacou alguns dos principais destinos percorridos por ele durante suas missões de evangelização, catequese dos povos indígenas e participação na formação dos primeiros núcleos coloniais do Brasil.

Entre os locais lembrados pela pasta estão cidades da região, como Itanhaém, no litoral sul; São Vicente, Guarujá e Bertioga, na Baixada Santista; e Ubatuba, no litoral norte. Nessas localidades, a presença de Anchieta ajudou a construir capítulos importantes da história brasileira e deixou um patrimônio cultural que continua atraindo visitantes.

A relação entre Anchieta e o território paulista vai além da atuação religiosa. Em maio de 1560, ele escreveu a famosa Carta de São Vicente, documento considerado um dos mais importantes registros sobre a então Capitania de São Vicente. No texto, descreveu aspectos da Mata Atlântica, da geografia, da fauna, da flora e dos habitantes da região. Sua trajetória, porém, teve papel ainda mais amplo na formação social, cultural e religiosa do Brasil colonial.



Itanhaém preserva caminhos percorridos pelo jesuíta

Conhecida como a segunda cidade mais antiga do Brasil, Itanhaém reúne um dos mais completos roteiros ligados à memória de Anchieta. Os chamados Caminhos de Anchieta contemplam seis atrações que remetem à passagem do religioso entre os anos de 1563 e 1595.

Entre os destaques está a Cama de Anchieta, formação rochosa onde, segundo a tradição, ele descansava e escrevia poemas. Outro ponto é a Passarela de Anchieta, estrutura suspensa de 220 metros que oferece vista privilegiada do litoral.

O roteiro inclui ainda o Pocinho de Anchieta, construído por indígenas; os Painéis de Anchieta, formados por mosaicos em pastilhas de vidro; o Monumento a Anchieta, na Praça Narciso de Andrade; e a Igreja Matriz de Sant’Anna, onde está preservada a imagem conhecida como Virgem de Anchieta.



Ubatuba guarda cenário de um dos maiores poemas marianos da história

No litoral norte, Ubatuba é um dos locais mais emblemáticos da trajetória do jesuíta. Em 1563, durante negociações de paz entre portugueses e indígenas tamoios, Anchieta permaneceu na então aldeia de Iperoig, atual região da Praia do Cruzeiro.

Foi nesse período que compôs o célebre “Poema à Virgem”, obra com mais de 5.700 versos dedicados a Maria. Sem papel para registrar os textos, o religioso memorizava os versos e os escrevia temporariamente na areia da praia com o auxílio de um cajado.

Praia do Cruzeiro (antiga Iperoig) em Ubatuba, onde Anchieta escreveu versos na areia - Foto Ken Chu - Setur-SP

 



Atualmente, a Praia do Cruzeiro é um dos principais cartões-postais da cidade, com extensa faixa de areia, calçadão, áreas esportivas, pista de skate, feiras de artesanato e opções gastronômicas.

Outro importante ponto turístico relacionado ao religioso é a Ilha Anchieta, que recebeu seu nome em homenagem ao jesuíta. Considerada a segunda maior ilha do litoral paulista, atrás apenas de Ilhabela, o local abriga praias preservadas, rica biodiversidade marinha, trilhas ecológicas e as ruínas do antigo presídio estadual.

São Vicente foi porta de entrada para a missão de Anchieta

São Vicente também ocupa posição de destaque na trajetória do religioso. Foi pela então Capitania de São Vicente que Anchieta chegou à região em 1553, iniciando um trabalho que teria grande influência na história do país.



Na vila vicentina, aprendeu a língua tupi e produziu a primeira gramática do idioma indígena registrada nas Américas, contribuindo para a comunicação entre missionários e povos nativos.

A presença do jesuíta também se estendeu a cidades vizinhas. Em Guarujá, realizou missas e atividades de catequização na Ermida de Santo Antônio do Guaibê, considerada uma das mais antigas igrejas do Brasil. Construída com pedras de sambaquis, conchas e óleo de baleia, a capela permanece como um importante patrimônio histórico.

Já em Bertioga, Anchieta esteve no Forte São João, onde se abrigou antes de seguir viagem para suas missões em Ubatuba. Atualmente, o local é um dos principais pontos turísticos e históricos da cidade.



O jesuíta que ajudou a fundar São Paulo

Nascido em 1534, na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, território pertencente à Espanha, José de Anchieta era descendente de judeus sefarditas e integrava uma família de cristãos-novos.

Ainda jovem, foi enviado para Portugal, onde estudou na Universidade de Coimbra. Aos 17 anos ingressou na Companhia de Jesus e, em julho de 1553, desembarcou no Brasil, chegando inicialmente a Salvador.

Poucos meses depois, seguiu para a Capitania de São Vicente e participou da fundação do povoado que daria origem à cidade de São Paulo, em 25 de janeiro de 1554. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação na colônia, tornou-se uma das figuras mais influentes da história brasileira.



José de Anchieta morreu em 9 de junho de 1597, no atual estado do Espírito Santo. Mais de quatro séculos depois, seu legado permanece vivo em igrejas, monumentos, documentos históricos e roteiros turísticos espalhados pelo litoral paulista.