Principal eixo de ligação do litoral norte, BR-101 sustenta o turismo e a economia regional, mas enfrenta desafios de segurança, mobilidade e infraestrutura
Reginaldo Pupo
Publicado em 19/06/2026, às 03h20
Entre montanhas cobertas pela Mata Atlântica e o litoral de águas cristalinas, a rodovia Rio-Santos (BR-101), também SP-55, figura entre os trajetos mais cênicos do Brasil. Ao longo de seu percurso, que conecta os municípios de São Sebastião, Caraguatatuba e Ubatuba, a estrada revela praias, costões, cachoeiras e comunidades caiçaras que transformam a viagem em uma atração à parte.
A beleza do cenário, no entanto, contrasta com uma realidade marcada pelo elevado número de acidentes e pelos desafios enfrentados diariamente por quem depende da rodovia. Em feriados prolongados e durante a alta temporada de verão, o volume de veículos cresce significativamente, impulsionado sobretudo por visitantes vindos da capital e do Vale do Paraíba. Com isso, percursos que normalmente seriam concluídos em poucas horas podem se prolongar por grande parte do dia.
Além do trânsito intenso, a rodovia acumula um histórico de acidentes que preocupa moradores e motoristas. Muitos deles acontecem em trechos sinuosos, com visibilidade reduzida e grande circulação de veículos leves, motocicletas, ônibus e caminhões. Os trechos mais perigosos são a “serrinha da Enseada’, na Costa Norte e a serra da Boiçucanga, na Costa Sul de São Sebastião; a “serra do Olaria”, em Caraguatatuba, e o trecho entre a praia de Maranduba e a Praia Grande, em Ubatuba, especialmente na região do Saco da Ribeira.
Para quem utiliza a estrada regularmente, as curvas acentuadas, pista estreita em alguns trechos, chuva e neblina, principalmente nesta época do ano, exigem atenção permanente dos motoristas. Em períodos de grande movimento, qualquer imprudência ou distração pode resultar em ocorrências graves e longos congestionamentos.
A médica veterinária Letícia Sant´Anna da Cruz, 34, encara diariamente a Rio-Santos para ir ao trabalho. Ela reside em Caraguatatuba e atende em uma clínica em São Sebastião. “Antes de pegar a estrada, rezo todos os dias, pois a serrinha da Enseada é bastante perigosa e toda semana vejo algum acidente por lá”, conta, temerosa. “Ontem mesmo (dia 17) vi duas pessoas caídas no asfalto após serem atropeladas na faixa de pedestre, um pouquinho antes de começar a serra”, relembra.
Outro morador de Caraguatatuba que depende da Rio-Santos para chegar ao trabalho é o mecânico Isaias de Souza Freitas, 45, que se desloca até a praia das Toninhas, em Ubatuba. “Encaro a serrinha da Olaria e todas as serras que têm ate chegar em Ubatuba. O que me deixa com medo são os caminhões, que sempre acabam provocando algum acidente”, afirma. “O pior, na minha opinião, são os dias de chuva, à noite. Não dá para enxergar nada e com neblina a viagem fica ainda mais perigosa”, acrescentou.
Os períodos de chuva, conforme relatou Freitas, representam um desafio adicional. A instabilidade das encostas e a possibilidade de quedas de barreiras frequentemente provocam interdições parciais ou totais, comprometendo o acesso a bairros, impactando o deslocamento de moradores e afetando diretamente a atividade turística da região. Em situações mais críticas, comunidades chegam a ficar temporariamente isoladas, especialmente em Ubatuba, uma das cidades que mais chove em todo o estado de São Paulo.
Motoristas também apontam limitações estruturais em alguns segmentos da rodovia, como a ausência de acostamentos, falhas no sinal de telefonia móvel e baixa iluminação noturna. Em dias de maior movimento, até mesmo acidentes de menor gravidade podem desencadear congestionamentos de vários quilômetros, ampliando o tempo de viagem e os transtornos para quem utiliza a estrada.
Apesar dos problemas, a Rio-Santos desempenha papel estratégico para a economia regional, já que hotéis, pousadas, restaurantes, marinas, comércios e operadores turísticos dependem diretamente do fluxo de visitantes que circula pela rodovia. Quando o trânsito é interrompido ou sofre grandes retenções, os reflexos são sentidos diretamente.
O trecho entre Caraguatatuba e Ubatuba da Rio-Santos (SP-55) poderá ser duplicado nos próximos anos. Projeto do governo do estado prevê a modernização completa do trecho de 44,5 quilômetros entre os dois municípios.
O plano foi integrado ao pacote de investimentos regionais e conta com orçamento estimado em R$ 3 bilhões, para tentar solucionar os gargalos históricos de trânsito que afetam moradores e turistas. Veja maquete eletrônica do projeto clicando aqui.
O projeto prevê a duplicação de 100% das pistas ao longo de 44,5 km, mesmo em trechos de serra, iniciando-se no final do Contorno Norte da rodovia dos Tamoios, em Caraguatatuba, seguindo até o trevo da rodovia Oswaldo Cruz (que tem início em Taubaté, no Vale do Paraíba), na região da Praia Grande, em Ubatuba.
O projeto também prevê a construção de túneis na Serra do Mar para suavizar o traçado, um deles com 1.460 metros de extensão, tratamento geotécnico de 55 encostas com cortinas de concreto e 14 muros de contenção gigantes (especialmente na região crítica do Saco da Ribeira).
Dentro do projeto também está prevista a implementação de tráfego binário na chegada à praia Grande para otimizar o fluxo urbano. Os retornos à esquerda deixarão de existir. O projeto quer instalar 16 dispositivos de retorno estratégicos, construção de 23 passarelas elevadas e 14 passagens inferiores para pedestres.
A rodovia deverá ter iluminação em 100% do trecho e implantação de 44,5 km de ciclovias e ciclofaixas. No momento, as prefeituras da região e a sociedade civil debatem ajustes pontuais no traçado para mitigar impactos no comércio local. O cronograma definitivo de início das obras físicas aguarda as definições desses alinhamentos contratuais e ambientais.