"Pobre pega o vírus e morre. Rico não morre ou faz enterro de 50 mil”, denuncia coveiro da Capital

Depoimento desconcertantes vai virar capítulo de livro sobre pessoas invisíveis: “Não realizei sonho nenhum, nunca tive casa própria, carro, nada. Só comi e vivi. Quem vive com 600 reais? O meu holerite é a mesma coisa há 15 anos. Nosso salário é uma vergonha. Tem família aqui que gasta 30 mil num sepultamento, 50 mil. O mundo é assim, uns têm muito e outros têm pouco", também ref

Da redação
Publicado em 25/02/2021, às 10h35 - Atualizado às 13h02

Reginaldo de Oliveira, de 50 anos, há 15 anos coveiro num cemitério em que as pessoas chegam a pagar 50 mil reais num sepultamento, deu um depoimento sobre sua experiência durante a pandemia. Declaração do coveiro virou capítulo de livro “O Pobre pega o ví - Foto: Reprodução / SP Invisível


Um coveiro de São Paulo deu  um depoimento sobre sua experiência durante a pandemia que vem provocando mal estar nos poderosos e suscitando emoção e solidariedade nos descamisados.

Em entrevista à Página SP Invisível - um projeto que busca contar a história das pessoas invisibilizadas socialmente para fazer com que a sociedade tenha um olhar mais humano – Reginaldo de Oliveira, um sepultador de 50 anos, falou da sua vida em geral e durante a covid-19. “Não realizei sonho nenhum, nunca tive casa própria, carro, nada. Só comi e vivi. Com os 997 reais que ganho, não tem como fazer financiamento.”, relata o coveiro com uma sinceridade cortante.

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O homem, com a autoridade de quem enterra gente morta todos os dias num cemitério de classe média, na capital paulista, critica a desigualdade que se manifesta também nas mortes por covid-19. “Na pandemia trabalhei todos os dias. Aliás, nunca faltei. Aqui não mudou muito, não, até diminuiu. É um cemitério de classe média, né? [Eles] podem se cuidar...Uma pessoa dessa região pode ficar em casa. A da Vila Formosa [bairro pobre da capital] fica como? Vai passar fome?”, reflete.

Em seu depoimento, o coveiro também criticou o descaso com a vida dos mais pobres por parte dos poderosos e dos mais ricos. “'Ah, o governo deu 600 reais'. Quem vive com 600 reais? O pobre pega o vírus e morre.  Aqui [no cemitério de classe média] ninguém pegou. Ainda bem, né? Fora isso, só falta o governo olhar o salário. O meu holerite é a mesma coisa há 15 anos. Nosso salário é uma vergonha."

No declaração, cuja publicação já teve mais de 35 mil compartilhamentos apenas no facebook, o coveiro critica a desigualdade econômica do Brasil que se manifesta até no momento da morte. “Tem família aqui que gasta 30 mil num sepultamento, 50 mil. O mundo é assim, uns têm muito e outros têm pouco... Vizinho meu passa fome. Agora o vereador ganha 30 mil reais, tem auxílio disso, daquilo, e eu não tenho nada. E se quebra a previdência, a culpa é nossa”, analisa.

O coveiro, que é trabalhador de serviço essencial e por isso não parou de trabalhar, disse como se sente na pandemia. “Se tive medo? Nenhum. Na TV falam que, quem trabalha em serviço essencial, tem que arrumar lugar pra ficar. A gente malemá paga as contas. Fácil falar, quero ver viver nossa vida..."



A história do coveiro virou um capítulo do livro A Pandemia que Ninguém Vê, com 100 histórias de pessoas que ninguém percebe.