Estudo da USP/Inpe desenvolveu técnica estatística que reduz a subjetividade na análise de riscos; ferramenta busca aprimorar a prevenção
Redação
Publicado em 13/12/2025, às 16h42
Um estudo coordenado por pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC-USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresentou novo método estatístico capaz de prever, com maior precisão, o risco de deslizamentos de terra.
A estratégia foi validada a partir da análise técnica do evento climático extremo ocorrido em São Sebastião, em fevereiro de 2023.
O objetivo do trabalho, publicado no periódico Scientific Reports, é fornecer ferramentas mais assertivas para a Defesa Civil e órgãos de planejamento, para evitar que desastres dessa magnitude voltem a impactar a população.
Para testar a eficácia do novo modelo, os cientistas utilizaram um inventário detalhado de imagens aéreas pós-evento, que catalogou 983 pontos de início de deslizamento e 1.070 áreas afetadas na região da Serra do Mar.
A abordagem tradicionalmente usada, chamada AHP (Processo de Hierarquia Analítica), depende da avaliação de especialistas para definir o peso de cada fator de risco.
O novo método, denominado AHP Gaussiano, utiliza estatísticas matemáticas (curva de Gauss) para definir esses pesos de forma objetiva, reduzindo ambiguidades.
Ao aplicar as duas técnicas sobre o território de São Sebastião, o novo método classificou 26,31% da área analisada como de "suscetibilidade muito alta", contra 23,52% do modelo tradicional.
Isso indica que a nova ferramenta conseguiu mapear com maior fidelidade as áreas críticas que efetivamente sofreram com os deslizamentos.
A análise dos dados de São Sebastião também trouxe novas perspectivas sobre as causas da instabilidade no local. Enquanto métodos convencionais costumam priorizar a inclinação das encostas como fator principal, o estudo apontou que a geomorfologia (formato do relevo) e a proximidade de estradas e rios foram determinantes no cenário de 2023.
A proximidade de estradas é importante porque sua construção em locais de relevo acidentado pressupõe a execução de obras de movimento de terra, como cortes e aterros, que geralmente levam a uma instabilidade das encostas", explica Cláudia Maria de Almeida, pesquisadora do Inpe e coautora do estudo.
Segundo os autores, a metodologia foi desenvolvida para ser acessível à administração pública. A aplicação requer apenas dados geoespaciais básicos e pode ser executada em computadores comuns utilizando softwares livres (como o QGIS), facilitando sua adoção por prefeituras para o monitoramento preventivo.
O pesquisador Rômulo Marques-Carvalho, doutorando do ICMC-USP e autor principal, destaca que a técnica também tem potencial para ser aplicada na prevenção de outros problemas ambientais, como enchentes e desmatamento.
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