O verão vem aí, e a dengue, a chikungunya e a zica também

Estela Craveiro
Publicado em 21/10/2017, às 13h08 - Atualizado em 23/08/2020, às 16h12

- Estela Craveiro


Neste sábado, a prefeitura de Bertioga começou pelo Mangue Seco os mutirões de combate a essas arboviroses; e na semana que vem será a vez do Jardim Albatroz 2

Em Bertioga, este sábado foi dia de mutirão de combate à dengue no Mangue Seco.  Em menos de quatro horas, 12 agentes da Vigilância Sanitária, parte da Secretaria de Saúde, percorreram as cerca de oito ruas que compõem o bairro, encontraram 202 domicílios fechados, visitaram outros 261, entre residências e estabelecimentos comerciais, e encontraram larvas, possivelmente do mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, chikungunya e zica vírus, em cinco deles. O que parece um número animador não o é tanto assim, já que a primavera está apenas começando e os períodos mais chuvosos ainda estão por vir.

O caso mais alarmante no Mangue Seco foi de um condomínio com 12 casas, onde residem 32 pessoas, incluindo oito crianças, na extremidade da antiga rua 27, atual rua Aprovada 128, mais próxima da rodovia Rio-Santos, em cujo quintal há uma grande quantidade de telhas, tubulações de largo diâmetro acumuladas em posições horizontais e inclinadas, uma caixa d’água sem uso, com a tampa caída ao lado, cheia de pontos convexos, e uma banheira de hidromassagem abandonada. Embora essa fosse a peça com mais água acumulada, o agente de combate a arboviroses Nilton Toaiari Rodrigues encontrou larvas também nas tubulações.

Questionada sobre a finalidade do material, visto que no imóvel não há nenhuma reforma ou construção em andamento, um pouco espantada com a presença das larvas, Mariana Silva, recepcionista que mora no local com o marido e dois filhos, não soube explicar a presença da banheira, e informou que o material ali depositado é para a obra de uma grande instituição de Bertioga que está sendo feita por inquilinos que alugaram duas das casas e lá permanecem apenas durante a semana.



Armadilhas

A finalidade do mutirão é justamente informar às pessoas os riscos que correm por deixar água de degelo no recipiente existente na parte traseira de geladeiras, pratinhos com água que escorre dos vasos após as regas, lixo, principalmente embalagens plásticas vazias, e pneus velhos abandonados em suas casas. Os campeões entre os criadouros de larvas são caixas d’água sem tampa, informa o agente Nilton.

Mas não ficam muito atrás as piscinas sem tratamento, em áreas mais abastadas, piscinas plásticas, mesmo vazias, em bairros mais pobres, e aqueles inocentes plásticos cobrindo montes de areia, pedras, tijolos e telhas aguardando para serem usados em construções ou reformas. Todo material sujeito a alguma concavidade, como uma dobrinha em um plástico, serve para a água se acumular.



Por mais que hoje se disponha de muita informação sobre isso, tudo indica que grande parte da população não está consciente do perigo que a falta de higiene e cuidado oferece à sua saúde e à sua vida, pois dengue, chikungunya e zica matam, sem contar as dores e os sofrimentos que provocam, além de o zika vírus atacar o cérebro de fetos e provocar outras malformações nos bebês.  Qualquer deslize é favorável ao Aedes aegypti.

A doméstica Ana Paula do Nascimento, também moradora da antiga rua 27, por exemplo, não tem plantas em vasos, não deixa embalagens velhas em sua casa, e aprova o mutirão: “Sempre ouvi falar que essas doenças podem matar, e a prefeitura tem mais é que cobrar mesmo de todo mundo que não deixe água acumulada”. Mas não havia percebido as pocinhas de água formadas no plástico cobrindo uma porção de areia no seu quintal.

Três dias para nascer



Muita gente relaxa nos cuidados, alegando que por aí está cheio de riachos e canais que são nascentes de insetos. Mas Elizângela Maria Penha, coordenadora do setor de Informação, Educação e Comunicação (Iec) integrante do Programa Municipal de Combate às Arboviroses (PMCA) da diretoria de Vigilância Sanitária, diz que não é bem assim. “O Aedes aegypti precisa de paredes para depositar seus ovos um pouquinho acima da superfície de água limpa e parada. Limpa não quer dizer transparente, mas livre de agentes químicos. No calor, em três dias esses ovos já viram mosquitos e saem voando, mas eles podem durar 450 dias esperando a água chegar neles para eclodirem”, ela explica.

Caso a água contenha folhas caídas de árvores, então, melhor ainda para eles, pois é garantia de matéria orgânica para alimentar os filhotes recém-nascidos. Para dar um fim nessa farra dos mosquitos, as armas estão dentro da residência de qualquer cidadão de qualquer classe social: cloro, detergente e sal grosso.

Se você estiver achando que em sua casa está tudo certo e que não há risco naquela fontezinha que muitos utilizam pelo barulhinho relaxante da água corrente, já que ela não está parada, é bom dar uma boa verificada, a não ser que fique ligada ininterruptamente. Se não fica, é uma ótima maternidade para o Aedes aegypti, adverte o agente Nilton.



O mutirão contra a dengue prosseguirá no próximo sábado, no Jardim Albatroz 2. Caso chova, será adiado para o sábado seguinte. A sequência para os próximos bairros depende ainda de liberação do Ministério da Saúde, pois a verba para esse trabalho faz parte de um programa federal.

Os agentes Nilton e Elizângela contam que a receptividade dos moradores aos agentes é bastante positiva, mas eles encontram muitos domicílios sem ninguém, porque estão desabitados ou porque os donos estão fora. Em bairros mais populosos, são cerca de 30%, mas chegam a 60% em bairros com menor densidade demográfica, ou onde há muitas casas de veranistas, outro grande perigo, porque muitas delas ficam quase o ano todo fechadas e nem sempre são cuidadas como se deve.

Estela Craveiro



foto: JCN