Cruzeiro, que zarpava do porto de Santos com escalas em Ilhabela, no litoral norte de SP, teve até assassinatos antes de seu fim melancólico
Reginaldo Pupo
Publicado em 16/07/2025, às 10h33
Durante os anos 2000, um transatlântico se destacou nos mares brasileiros não apenas pelo coqueiro pintado na lateral, mas por popularizar os cruzeiros entre as classes C e D: o Island Escape. Apelidado de “Itapemirim dos mares”, o navio operou na costa do Brasil entre 2002 e 2009 com pacotes acessíveis e parceláveis, tornando-se símbolo de uma nova geração de turistas emergentes.
Mas o que aconteceu com este emblemático cruzeiro? Descubra a incrível história deste gigante dos mares, em seus 36 anos de "vida".
O cruzeiro se destacava entre os demais por ostentar, em seu costado, a pintura de um coqueiro estilizado fincado sobre uma pequena ilha, visto até mesmo a longas distâncias. O Escape zarpava do porto de Santos com paradas em Ilhabela e Angra dos Reis, com destino ao Rio de Janeiro ou Cabo Frio. Ele ficou famoso justamente por fazer minicruzeiros (viagens a curtas distâncias).
O Escape tinha capacidade para transportar 1.740 hóspedes e 540 tripulantes. Pesava 40.171 toneladas e atingia velocidade máxima de 20 nós, o equivalente a 37km/h. O cruzeiro media 189,9 metros de comprimento e 27 metros de largura.
O navio ostentava três restaurantes, o Buffet Island, o Buffet Beachcomber e a sala de jantar Oasis. Os hóspedes tinham à disposição oito bares e cafés, incluindo o The Pub, Champions Sports Bar, Café Brasil, Coffee Bar, Mirage Bar, Sailaway Bar e Sundowner Bar Saúde e Fitness Piscina.
Entre as opções de lazer e entretenimento estavam academias; salão de beleza; cabeleireiro; estúdio de aeróbica; sauna; deque esportivo; ocean theatre; cassino, bounty entertainment; lounge lookout; discoteca; cyber café; creche palmy’s; fliperama; lojas e centro médico.
A cidade de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, foi, por muitas vezes, o porto de parada do “Itapemirim dos Mares” durante algumas temporadas. O arquipélago via o perfil de seu público mudar todas as vezes em que o navio fazia escala por lá.
Em 2009, a vizinha cidade de São Sebastião recebeu uma escala do Island Escape como parte de um programa piloto da armadora Island Cruisers. Inicialmente, a parada seria em Ilhabela, mas a empresa proprietária do navio mudou o destino no meio da noite. Sem avisar os passageiros.
Parte dos 1.135 cruzeiristas não gostou da mudança e iniciou um protesto à bordo, exigindo do comandante que o navio se dirigisse a Ilhabela, afinal, haviam adquirido um pacote que previa uma escala no arquipélago e alguns passeios já haviam sido agendados.
Alguns dos hóspedes demonstraram medo em desembarcar em São Sebastião, pois o navio havia atracado no porto, um lugar que, à época, expunha um cenário deplorável. Além da região portuária, os cruzeiristas tinham uma visão clara do bairro do Itatinga, a poucos quilômetros dali, que expunha seus barracos pendurados nas encostas da Serra do Mar.
“Gente! Será que estamos no lugar certo? Aqui parece o Rio de Janeiro!”, bradou uma turista desavisada, que perguntou a outra mulher que a acompanhava se havia o risco de serem assaltadas. Apesar da manhã ensolarada, tinha chovido na noite anterior e o navio possuía uma espécie de carpete em quase toda a região externa, ao ar livre, que molhado, exalava mau cheiro.
A prefeitura, que imaginava receber o navio com grande festa, por se tratar da data de aniversário da cidade, se esforçou para tentar oferecer aos turistas alguns passeios por algumas de suas praias, mas a maioria ficava muito afastada do centro, o que gerou mais queixas dos visitantes, devido ao tempo perdido entre os deslocamentos de ida e volta.
Outro ponto alvo de críticas foi que as vans que faziam os transfers para as praias passavam por dentro da zona de meretrício e algumas das mulheres que trabalhavam por lá exibiam os seios aos turistas, entre elas, crianças e adolescentes.
O navio foi construído em 1982 ao custo de US$ 100 milhões, pela Dubigeon-Normandie SA, em Nantes, na França, para a Scandinavian World Cruises, uma subsidiária da DFDS, como o cruiseferry Scandinavia. Ele teve uma vida útil ativa de 36 anos. Em 1985, foi batizado com o nome de MS Stardancer e, em 1990, foi nomeado Viking Serenade antes de receber a configuração de um navio de cruzeiro em 1991.
A partir deste ano, ele passou a ser operado pela Island Cruises, que era uma joint-venture do grupo Royal Caribbean com o grupo First Choice, do Reino Unido. A parceria, no entanto, acabou pouco depois da última temporada do navio no Brasil, e a marca Island Cruises passou a ser propriedade exclusiva do grupo britânico.
Na época de sua construção, era o maior cruiseferry do mundo. Depois de ser retirado da Scandinavian World Cruises, o navio navegou brevemente para a DFDS Seaways. Entre 1985 e 1990, atuou para a Sundance Cruises e Admiral Cruises como Stardancer.
Em 1990, o navio foi vendido para a Royal Caribbean Cruise Lines e renomeado Viking Serenade. Entre janeiro e junho de 1991, a embarcação foi convertida em um navio de cruzeiro em tempo integral no antigo Southwest Marine Shipyard em San Diego, Califórnia. Em 2002, o navio foi transferido para a frota da nova subsidiária da Royal Caribbean, a Island Cruises, como Island Escape.
O navio se juntou à frota da Thomson Cruises em abril de 2009, mas manteve seu nome. O Island Escape operou nas ilhas Canárias e no Mediterrâneo Ocidental sob a chancela da Thomson Cruises. Em novembro de 2010, a Thomson havia programado investir mais de £ 4 milhões na reforma do Island Escape e passou a operar no sistema all inclusive a partir de março de 2013. Em 2016, a Thomson Cruises substituiu o Island Escape pelo Splendour of the Seas, que também reinou por muitos anos nos mares brasileiros.
Em 3 de dezembro de 2015, foi relatado que o navio havia sido vendido e estava a caminho de Brest, na França, para atracação seca, sendo renomeado Ocean Gala. Em fevereiro de 2016, o Ocean Gala foi oferecido como uma acomodação flutuante pelo site Floating Accommodations, administrado pela US Shipmanagers, uma empresa da Flórida.
Após reinar por muitos mares, a decadência do Island Escape parecia estar próxima, além do surgimento de várias polêmicas. A Agência Sueca de Migração assinou um contrato para usar o Ocean Gala, agora ex-Island Escape, como um hotel de asilo para 1.790 refugiados, por quatro anos, entre 2016 e 2020, no Porto de Härnösand, na Suécia.
Apesar de ter contratado o navio, o governo sueco alegou que a embarcação não possuía classificação adequada para os portos do país e que o número de refugiados havia diminuído, para justificar sua desistência de locação. Com isso, os planos do hotel-asilo não se concretizaram e o governo encerrou o contrato sem que o navio tenha recebido qualquer refugiado.
Dessa forma, o que seria a primeira operação do navio sob responsabilidade de seus novos proprietários, acabou se tornando uma disputa: o governo sueco recusou-se a pagar os valores a que havia se comprometido, alegando ter estipulado condições que não teriam sido cumpridas, para que o pagamento fosse efetuado.
Como o Ocean Gala não cumpria as regras de classe de gelo finlandesas e suecas e para evitar o aumento dos custos de manutenção, o navio deixou o porto em 3 de novembro de 2016. A caminho de Esbjerg, foi feita uma curta parada em Tallinn, na Estônia, para reabastecimento. O navio seguiu para a Dinamarca para concluir sua vistoria de cinco anos com a sociedade classificadora DNVGL.
Desde então, o então Island Escape passou a vagar por diversos portos da Europa, sem propósito claro e com condições de manutenção em deterioramento. Após um período fundeado no Chipre, o navio atravessou o canal de Suez rumo ao Oriente.
Pouco tempo depois, foi renomeado Ocean Gala 1, e teve sua bandeira mudada, passando a ter o registro naval sob responsabilidade da St. Kitts e Nevis.
O cruzeiro chegou a ser usado, por alguns meses, como estadia para trabalhadores em Suez e, em 2017, desceu o Mar Vermelho. A partir daí, a comunidade marítima começou a especular que a embarcação estava a caminho de Alang, na Índia, lugar conhecido de desmanche de navios. Havia a suspeita de que ele seria desmantelado, mas o próximo porto acabou sendo Khalifa, em Abu Dhabi, para serviço contínuo.
No ano seguinte, as especulações pareciam estar corretas. Em março de 2018, depois de passar vários meses atracado em Khalifa, o então Island Escape partiu para Alang, onde foi encalhado propositalmente para ser, enfim, totalmente desmantelado em 4 de abril de 2018, virando sucata.
Alang é o principal centro mundial de sucateamento de navios e reciclagem industrial. Os estaleiros estão localizados no golfo de Cambaia, 50 km a sudeste de Bhavnagar. A técnica utilizada é o do encalhe dos navios na maré alta e o trabalho é predominantemente manual.
Em seus 36 anos de vida, além de todos os problemas que enfrentou até a decretação de sua “morte” em 2018, o navio também foi cenário de dois homicídios. Um deles ocorreu quando a embarcação se chamava Stardancer. O segundo foi no próprio Island Escape.
A primeira vítima foi Karen Waltz, de 26 anos, que foi estrangulada pelo próprio marido, o quiroprático Scott Rolston. 36, no Stardancer. O crime ocorreu em 13 fevereiro de 1988. O casal estava em sua última noite de lua de mel, após cruzeiro de uma semana no México. No dia do crime, o navio estava indo para Long Beach, na Califórnia.
O recém-casado alegou às autoridades policiais que a mulher teria caído acidentalmente no mar, após “fortes ventos” terem jogado a jovem para fora da pista de corrida do convés, onde caminhavam. Mas foi desmentido pela guarda costeira, que informou que o tempo estava tranquilo naquela noite.
A polícia disse acreditar, à época, que ele estrangulou Karen e, para encobrir o crime, jogou a vítima no mar para parecer um afogamento. Após ter sido declarado suspeito, Rolston deu uma declaração bizarra aos investigadores. Afirmou que agentes israelenses assassinaram sua mulher e tentaram incriminá-lo em retaliação ao que ele alegou ter sido sua exposição dos “inúmeros crimes” cometidos pelo governo israelense. Ele foi preso pelo FBI e posteriormente foi condenado a prisão perpétua por homicídio em segundo grau.
Dezoito anos depois, em 26 de maio de 2006, Micki Kanesaki, de 52 anos, foi assassinada por seu ex-marido, Lonnie Kocontes, enquanto estava a bordo do Island Escape. O casal estava fazendo o cruzeiro para a Itália com a intenção de reatar o relacionamento. Mas, curiosamente, ela foi morta da mesma forma que Karen. Seu corpo foi descoberto no dia seguinte flutuando no Mar Mediterrâneo. A exemplo do primeiro caso, o legista constatou que a morte foi causada por esganadura.
Apesar de o desaparecimento ter ocorrido na Itália, o caso foi investigado pelo FBI, pois Lonnie era cidadão americano. Ele contou aos federais que ambos tinham tomado vinho no quarto, antes que ela saísse para procurar um chá de ervas. Ele tomou um medicamento e foi dormir e quando acordou por volta das 4h30 da manhã, Micki ainda não havia retornado.
A tripulação do Island Escape foi notificada e revistou a embarcação, mas não havia sinal de Micki em nenhum lugar. A guarda costeira italiana começou a procura-la em mar aberto.
O navio atracou em Nápoles e estava programado para partir mais tarde naquela noite. Lonnie arrumou sua mala e os pertences de Micki e desembarcou do navio. Menos de 48h após a morte de Micki, ele já estava de volta aos EUA. Na tarde de 27 de maio, Lonnie já havia voado para casa quando um barco de pesquisa científica descobriu o corpo de Micki flutuando no Mar Mediterrâneo.
A necropsia, realizada em 16 de junho, concluiu que Micki havia sido assassinada. Seu corpo estava muito machucado, especialmente na base do pescoço, sugerindo que ela havia sido estrangulada. Ainda mais revelador, não havia água descoberta em seus pulmões, o que significa que Micki já estava morta antes de entrar na água.
Lonnie foi preso e acusado pelo assassinato de Micki. O FBI descobriu que ele herdou o patrimônio de quase US$ 2 milhões do casal após a morte de Micki. Ele foi condenado por assassinato em primeiro grau por ganho financeiro e sentenciado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
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