Pesquisa em aldeias de Itanhaém e São Vicente aponta que, para a cultura Guarani Mbya, a saúde só existe se o ambiente também for saudável
Redação
Publicado em 02/11/2025, às 17h43
Para os indígenas guaranis Mbya, saúde é um conceito integral. O bem-estar do corpo não pode ser separado da saúde do território onde vivem. Essa é a conclusão de uma dissertação de mestrado da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.
A assistente social e pesquisadora Bruna Freire buscou responder como os guaranis Mbya entendem e praticam a saúde. Ela também investigou como articular esse saber com as políticas públicas de cuidado.
Para isso, Bruna acompanhou de perto o dia a dia de duas aldeias no litoral sul de São Paulo. Foram elas a tekoa Paranapuã, em São Vicente, e a tekoa Nhanderekoa, em Itanhaém.
O estudo destaca que a palavra tekoa significa mais que "aldeia". É o "lugar onde se vive de acordo com um modo de ser". Essa cosmovisão enxerga humanos, floresta e o Cosmo como uma só coisa.
Essa é a filosofia do Bem Viver (teko porã). Ela se baseia na comunhão e reciprocidade entre pessoas, espíritos e natureza. Aspectos como o sonho, o profetismo e o uso de plantas medicinais são essenciais para essa concepção de saúde.
“Eles entendem que, para que o corpo esteja saudável [...] é preciso que todo o ambiente seja saudável", explica Bruna Freire ao Jornal da USP.
Não existe saúde se você não está conseguindo plantar, porque [...] o seu espírito vai enfraquecer e seu corpo vai adoecer”.
A pesquisa foi conduzida de forma prática, com as "mãos em contato com a terra". Bruna plantou culturas tradicionais, como batata-doce e milho. Ela também aprendeu sobre plantas medicinais com os indígenas.
“Uma das coisas que o Xeramõi [líder espiritual] falou foi que eu só ia aprender se eu plantasse”, relata a pesquisadora. Era nesses momentos, com a mão suja, que ela colhia material para seu diário de campo.
Ela relembra a xejapopoã, uma planta roxa cicatrizante. "Geralmente ela é usada para mulheres que acabaram de ter bebês [...] Eles falaram que até facada aquela planta cura".
O estudo serve como subsídio para um modelo de atenção mais eficiente. O professor Leandro Giatti, orientador da pesquisa, afirma que o objetivo é "oferecer mais qualidade de vida, uma atenção mais adequada, inclusive em termos [...] de traduções interculturais”.
A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) é o braço do SUS nas aldeias. No entanto, segundo Bruna, o serviço sofre com falta de profissionais; o trabalho é precarizado e despreparado para as especificidades de cada comunidade.
As aldeias visitadas no litoral de São Paulo são recentes. A tekoa Paranapuã tem pouco mais de 20 anos, fruto de um "sonho de cura vindo do mar", sonhado pela líder espiritual Erundina Para Poty.
A retomada ocorreu em 2004, em uma área à beira-mar dentro do Parque Estadual Xixová-Japuí, entre São Vicente e Praia Grande. Por ser uma Unidade de Proteção Integral, o uso dos recursos naturais é restrito. Isso gerou um entrave ao modo de vida indígena.
Um acordo judicial de 2022 garantiu a permanência provisória e a autonomia para plantio, pesca e caça. Hoje, 66 pessoas vivem em nove hectares, ainda em processo de demarcação pela Funai.
Já a tekoa Nhanderekoa, em Itanhaém, é mais nova. Foi retomada em 2022 por famílias de outras aldeias. Lá, eles plantam com mais liberdade, apesar de o terreno estar envolto em montanhas de lixo enterrado.
A pesquisadora também auxiliou na busca por melhorias para Nhanderekoa, como energia e água. "Porque, também, se a gente for esperar só do poder público, não vai acontecer tão cedo. Demora, né?", critica Bruna.
* Matéria baseada em publicação de Diego Facundini, no Jornal da USP
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