Imóveis 'tamanho família' somem do mercado? Apartamentos menores dominam o Brasil

Metragem média de imóveis financiados encolheu 12,75% desde 2018. Mudanças demográficas, juros altos e programas habitacionais impulsionam os compactos

Redação
Publicado em 04/11/2025, às 15h14

Imóveis no Brasil encolhem 12,75% e compactos viram febre - Cecília Bastos/USP Imagens


Apartamentos espaçosos, com múltiplos quartos e banheiros, parecem ter ficado no passado. A tendência atual do mercado imobiliário brasileiro são imóveis com um quarto, um banheiro e cozinha integrada à sala. Encontrar um lugar para famílias grandes está cada vez mais difícil.

Levantamento do jornal Valor Econômico, com dados do Banco Central e da Caixa Econômica Federal, aponta um encolhimento de 12,75% na metragem média dos imóveis financiados desde 2018. Não é apenas a procura, mas a oferta de unidades menores que disparou nos últimos anos.

Em São Paulo, por exemplo, dados gráficos mostram uma mudança drástica. Em 2024, cerca de 80% dos imóveis vendidos tinham menos de 45 metros quadrados. Atualmente, mais de 80% dos lançamentos na capital paulista possuem menos de 42 metros quadrados.



Por que os imóveis estão encolhendo?

O professor João Meyer, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, explica que diversos fatores impulsionam essa tendência. Ele destaca a diminuição do tamanho da estrutura familiar. Também aponta o financiamento público para habitação social, a busca por imóveis como investimento e a relação dos juros com o mercado.

"O tamanho da família está diminuindo", afirma Meyer. Ele cita que o número de pessoas por domicílio caiu meia pessoa entre 2006 e 2010.

Alteração da estrutura da família, menos filhos, pessoas que são mais idosas, pessoas que não se casam, vivem sozinhas, representam uma mudança grande no perfil demográfico", explica.

Dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) confirmam essa visão. Os chamados domicílios unipessoais (onde mora apenas uma pessoa) saltaram de 12,2% em 2012 para 18% em 2023. Isso representa quase um a cada cinco lares no país.



Tabela do IBGE

 

Impacto dos juros e programas habitacionais

Incentivos governamentais para moradias de baixa renda também são cruciais. Meyer cita o programa Minha Casa Minha Vida, que permitiu a entrada de um público antes excluído do mercado formal. Isso aumentou a oferta de unidades menores, principalmente em periferias.

A taxa de juros é outro fator determinante. "Quando os juros estão altos, a produção para a classe média é inviabilizada, pois o financiamento fica muito caro", detalha o professor. No entanto, programas como o Minha Casa Minha Vida sofrem menos, pois usam recursos do FGTS, menos influenciados pelo mercado financeiro.



Imóvel como investimento e renda

A busca por imóveis como forma de investimento também aqueceu o mercado de compactos. Durante a pandemia de covid-19, com a taxa de juros em 2%, aplicações financeiras se tornaram pouco atrativas. Muitos investidores migraram para o mercado imobiliário.

Esses investidores adquiriram unidades pequenas em regiões bem localizadas, especialmente perto de estações de metrô, visando o aluguel posterior. Essa tendência não se limita a São Paulo, sendo observada também em áreas nobres de cidades como Recife.

"Famílias unipessoais cresceram muito nos últimos anos. Quem tem poder aquisitivo prefere um apartamento menor, mas bem localizado”, conclui Meyer. O cenário aponta para um futuro onde espaços compactos e bem localizados serão cada vez mais a norma.



* Baseada em matéria original de Reginaldo Ramos, publicada no Jornal da USP



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