Folia de Reis: tradição na Prainha Branca silenciada pela covid-19

Pandemia e morte de dois membros do grupo impossibilitou realização da celebração que ocorre há mais de 30 anos no vilarejo do Guarujá

Eleni Nogueira
Publicado em 06/01/2021, às 11h48 - Atualizado às 14h45

- Joelma Corrêa Diniz de Oliveira


No meio da madrugada, o silêncio é cortado pelo leve som de um violino, logo acompanhado pela viola, cavaquinho, zabumba e violão caipira. A melodia é quase um lamento e as vozes chamam os donos da casa a abrir a porta, para receber os três reis magos. É iniciada a Folia de Reis, na Prainha Branca, celebração do Dia de Reis, em 6 de janeiro, que segue de casa em casa até amanhecer o dia. 

Mas, neste ano, a tradição que ocorre há mais de 30 anos no vilarejo caiçara, localizado em Guarujá, na divisa com Bertioga, não será realizada, em decorrência da pandemia de covid-19 e da perda de dois integrantes do grupo, Silvano Neves Ledo (o Passarinho), e Nilson Oliveira. 

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O compositor Silvio Neves Ledo, um dos integrantes do grupo e neto do pioneiro da tradição no local, Maciel Hermôgenes de Oliveira, fala da tristeza de não poder realizar a festa neste ano: "É um vazio muito grande. Fica um buraco, por não poder fazer, não poder dar continuidade. Eu sinto pra caramba". Ele lembrou que o irmão, Passarinho, era o líder do grupo, responspável por toda a organização e afirmou: "Para o próximo ano vamos nos organizar para continuar. Faz parte da gente, da nossa história". 

Joelma Corrêa Diniz de Oliveira, nascida no vilarejo, traduz a emoção de quem recebe o grupo em casa, desde criança. "Confesso que nem conseguia dormir quando sabia que era dia de Folia de Reis. Acho que não só eu, como todos. Esperávamos a madrugada toda se fosse preciso e se a mãe deixasse. Uma mistura de sentimentos ao ver a folia entrar em nossa casa, com todas aquelas pessoas cantando e trazendo a Bandeirante do Divino. Não tem sensação melhor ! 

Sobre a falta da festa neste ano ela desabafa: "Um ano difícil, perdemos nossos cantadores. Espero que tudo isso um dia passe e nossa Folia de Reis volte, pois tenho certeza que no  céu hoje terá folia".



(Joelma Corrêa Diniz de Oliveira)

O grupo da Prainha

Até o ano passado, a Folia de Reis da Prainha Branca era comandada por cinco moradores: Silvio Neves Ledo (violão), Silvano Neves Ledo (zabumba), Ivete Lins de Oliveira, Gil Ângelo de Oliveira e Nilson Alves de Oliveira (cantores), e quatro amigos da capital: Jaime Santos (saxofone), Marcio Baltazar, Wilson Rocha e Niltinho. 

Segundo Silvio, o grupo iniciava a celebração, geralmente com meia duzia de pessoas acompanhando, mas após a passagem pelas primeiras casas outras pessoas seguiam o cortejo e, no final, chegava a mais de 20. 



Ainda de acordo com Silvio, originalmente, os "cantadores" da Prainha Branca, liderados por seu avô, realizavam a folia de São Sebastião à Guarujá. "Era uma celebração que durava uma semana e terminava no Instituto Histórico do Guarujá".

Os instrumentos originais são o cavaquinho, viola caipira, violão e zabumba. Mas, de acordo com o compositor, outros são agregados por participantes que se juntam ao grupo, como o triângulo, saxofone e pandeiros.