Com risco de naufragar, Ibama determina que prefeitura de Ilhabela remova o navio “Prof. W. Besnard” do porto de Santos

O navio Prof. W. Besnard foi utilizado por 40 anos para pesquisas oceanográficas pela Universidade de São Paulo (USP) e seria cortado para ser vendido como sucata

Reginaldo Pupo
Publicado em 30/08/2018, às 08h42 - Atualizado em 23/08/2020, às 17h21

- Divulgação


A “novela” sobre a destinação do navio “Prof. W. Besnard” ganhou mais um capítulo após o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) determinar à prefeitura de Ilhabela a remoção da embarcação do porto de Santos em um prazo de 10 dias. A notificação foi feita no último dia 20 de julho e encaminhada pelos Correios e o prazo passaria a valer a partir do momento do recebimento do documento pela administração municipal.

O navio foi utilizado por 40 anos para pesquisas oceanográficas pela Universidade de São Paulo (USP) e seria cortado para ser vendido como sucata. Mas em 2016 a prefeitura de Ilhabela, na gestão do então prefeito Antônio Colucci, decidiu adquiri-lo para naufragá-lo e, desta forma, utilizá-lo como recife artificial e ponto turístico para mergulhadores em Ilhabela, um dos maiores destinos de mergulho do Brasil. O Instituto de Oceanografia da USP fez a doação da embarcação à prefeitura naquele ano.

Mas para que a prefeitura conseguisse atingir sua finalidade, primeiramente teria que descontaminar a embarcação antes de realizar o naufrágio controlado, entre 20 a 25 metros de profundidade. Para a operação de descontaminação, reboque do navio do porto de Santos até Ilhabela e o naufrágio, a prefeitura abriu uma licitação para a contratação de empresa especializada, que acabou sendo impugnada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).



Antes de virar sucata, o navio já havia realizado mais de nove mil expedições científicas, algumas delas para a Antártica. Um incêndio ocorrido em 2008 comprometeu sua navegabilidade, tirando-o definitivamente de operação. O navio está no porto de Santos desde o incêndio.

De acordo com o Ibama, o navio não pode mais permanecer no porto santista, onde aguarda a remoção para Ilhabela, devido às condições estruturais pelas quais se encontra, inclusive com o risco de naufrágio. A Autoridade Marítima também já havia notificado a prefeitura sobre a necessidade de remover o navio.

Além disso, durante uma vistoria feita pelo Ibama, foram localizadas roupas penduradas em suas dependências, o que indicaria que a embarcação estaria sendo utilizada como moradia clandestina, o que reforçou ainda mais a decisão do órgão, já que deve haver a destinação correta dos resíduos que geralmente são produzidos em uma moradia. Segundo a USP, R$ 22 mil são gastos mensalmente para a manutenção da embarcação.



Mergulho e turismo

À época da aquisição do navio, a prefeitura de Ilhabela havia afirmado que diversos mergulhadores profissionais adeptos à ideia da criação do recife artificial realizaram mergulhos para uma vistoria técnica e aprovaram o local onde o “Prof. W. Besnard” seria naufragado, entre a Ponta da Sela e a Ponta da Sepituba, ao sul da ilha.

Segundo a USP, o Conselho Universitário aprovou a alienação do navio, que permitiu ao Instituto Oceanográfico ceder ou transferir a embarcação a qualquer interessado, sem precisar de novo aval. Ainda de acordo com a instituição, em dezembro de 2014, o mesmo conselho havia aprovado a doação do navio ao Uruguai. Entretanto, o governo uruguaio desistiu do processo.



Em junho passado, a atual gestão da prefeitura de Ilhabela disponibilizou para consulta pública as propostas que definiriam o destino do navio “Prof. W. Besnard”. Duas alternativas chegaram a ser apresentadas para uso da embarcação: o naufrágio ou a doação do navio para uma entidade particular, que o transformaria em museu.  Venceu a primeira proposta.

Questionada, a prefeitura informou, na quinta-feira, 30 de agosto, que está tomando medidas legais para o cumprimento das exigências das notificações. Disse, ainda, que "está contratando empresa para cuidar do transporte do navio para um outro local, ainda a ser definido, visto que precisa ocorrer o licenciamento para o transporte. Os valores dos procedimentos estão sendo avaliados".

História 



Durante os anos em que permaneceu à disposição da USP, entre 1967 e 2008, o navio norueguês, construído em 1966, navegou seis vezes para a Antártida, transportou cerca de 50 mil amostras de organismos marinhos, navegou durante 23 anos sem interrupções, realizou nove mil estações oceanográficas e possui 80 diários de bordo, inúmeras pesquisas e muitas histórias.

O nome é uma homenagem ao primeiro diretor do Instituto Oceanográfico da USP, o russo Wladimir Besnard, nascido em 1890 em São Petesburgo e morto em São Paulo em 1960. Ele foi um dos cientistas mais importantes para a pesquisa oceanográfica brasileira e é considerado o pai da oceanografia nacional.

Duas novas embarcações oceanográficas, o navio “Alpha Crucis” e o barco “Alpha Delphini”, agora substituem o “Prof. W. Besnard”.