Costa Norte
Publicado em 16/03/2012, às 17h38 - Atualizado em 24/08/2020, às 00h58
Engenheiro e superintendente da Sabesp na Baixada Santista.
> Se hoje Santos é considerada uma das melhores cidades para se viver, devemos muito desta condição ao início do Porto Organizado. Somente a partir da ampliação do porto, com o aterro dos lodaçais à margem do estuário para a construção dos atracadouros, a implantação da drenagem e coleta de esgoto do porto, foi possível a urbanização do município. Mais tarde, esta primeira iniciativa foi chamada pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito de ‘cinturão sanitário’ de Santos.
Devido às suas condições sanitárias, com fezes, lixo e muita lama acumulada em seus trapiches, que serviam de parada para os navios, as moléstias eram uma realidade e chegaram a dizimar metade da população local. Diante dos graves surtos e diversas doenças transmitidas na região este importante instrumento da balança comercial brasileira chegou a ter a alcunha de “porto maldito”, chegando a dizimar metade da população.
O Porto, a verdadeira porta de entrada e saída do Brasil de grande parte das mercadorias, era a mola propulsora da economia nacional e a melhoria das suas condições, permitindo a continuidade do comércio exterior, além da melhoria para os imigrantes e moradores, foi considerada prioridade estratégica do país. A simbiose entre o saneamento do Porto e da cidade foi fundamental para o desenvolvimento de ambos.
As palavras fortes do escritor Júlio Ribeiro, em 1888, mostram um pouco do sentimento de quem conhecia e vivia na área portuária: “A vida aqui é uma negação da fisiologia, é um verdadeiro milagre. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me.”
Dada a importância do tema, com envolvimento direto do presidente do Estado, Bernardino de Campos, foi contratado, inclusive, o consultor Estevan Antonio Fuertes, renomado sanitarista radicado nos Estados Unidos, para desenvolver o primeiro grande projeto de saneamento para a Cidade e Porto de Santos. Nesta conjuntura, também foi iniciado o processo de modernização do Porto, com a Cia. Docas de Santos, que para a expansão necessária também precisava do saneamento da região.
Apesar de aquele momento representar o início da engenharia sanitária, vários estudos foram elaborados por importantes personalidades da época, sendo discutidos formas e projetos por mais de 15 anos, incluindo debates acalorados com a Câmara Municipal. O próprio Fuertes, Américo Martins, Garcia Redondo, Alberto Fomm, José Brant de Carvalho, José Pereira Rebouças, entre outros engenheiros, criaram seus projetos até a chegada de Saturnino de Brito, que conseguiu desenvolver e implantar um sistema eficiente de drenagem, coleta e dispersão do esgoto.
Além desta intervenção, é importante registrar melhorias no abastecimento de água com qualidade, mudança estrutural interna dos imóveis, coleta de lixo, fiscalização do código de higiene e a criação do Hospital de Isolamento, hoje conhecido como Guilherme Álvaro, que juntas complementaram as ações para melhoria da qualidade de vida.
As obras iniciadas a partir de 1904, quando Saturnino de Brito encampou a Comissão de Saneamento de Santos, tinham alguns dos mesmos modelos estabelecidos por Fuertes, mas com o toque diferenciado de Saturnino. Entre os pontos convergentes, um dos principais foi o modelo separador absoluto, que coletava e destinava de formas diferentes as águas de chuva e o esgoto domiciliar.
Por isso, além de comemorar os 120 anos do pujante Porto de Santos, temos que comemorar os 100 anos do início da operação do sistema de saneamento na cidade, que permitiu o desenvolvimento do município e mudança do estigma do porto.