Tecnologia da Unesp usa tecidos reciclados para extrair até 6 litros de água por dia; protótipo autônomo pode abastecer comunidades
Redação
Publicado em 22/06/2026, às 10h36
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em colaboração com o Instituto Granado de Tecnologia da Poliacrilonitrila (Igtpan), de Jacareí (SP), desenvolveram um novo sistema para captar água diretamente da umidade do ar.
A tecnologia emprega um polímero superabsorvente fabricado a partir de resíduos têxteis reciclados, capaz de capturar vapor de água da atmosfera e liberá-lo posteriormente em forma líquida.
O sistema, descrito em dezembro na revista NPJ Clean Water, baseia-se em módulos denominados hidrocélulas. As estruturas funcionam como 'esponjas' que absorvem a umidade do ar, ou seja, retêm as moléculas de vapor de água presas apenas na superfície, de forma diferente da adsorção [processo pelo qual átomos, moléculas ou íons são retidos na superfície de sólidos através de interações de natureza química ou física] comum.
Depois, o mecanismo converte a umidade capturada em água líquida por meio de aquecimento moderado. Em testes experimentais conduzidos ao longo de quase um ano, o protótipo produziu entre 4l e 6l de água por dia, com baixo consumo de energia.
A professora do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp, em Sorocaba, e autora correspondente do artigo, Valquiria Campos, explicou o alcance do projeto: “A abordagem pode constituir uma alternativa descentralizada para o abastecimento de água em regiões áridas e semiáridas, onde fontes convencionais, como aquíferos ou dessalinização, são frequentemente limitadas por elevados custos energéticos e demandas de infraestrutura”.
O pesquisador do Igtpan e inventor do equipamento, Nilton Granado, apontou a importância do recurso para as áreas urbanas:
A produção sustentável de água potável, partindo do reservatório atmosférico que está disponível em qualquer lugar do mundo, será vital para grandes cidades, que já são carentes desse recurso”.
O inventor mencionou o exemplo de Lima, capital do Peru, uma localidade com 11,2 milhões de habitantes e precipitação média anual de apenas 6mm de chuva, o que a torna a terceira maior cidade do mundo em um deserto. Nilton Granado complementou:
Por isso, o desenvolvimento de equipamentos que extraiam água da atmosfera poderá oferecer soluções domésticas para produção de água potável num futuro próximo”. A tecnologia brasileira para fabricação do polímero superabsorvente obteve a concessão de patente no Brasil e nos Estados Unidos.
O elemento central do mecanismo consiste em um polímero chamado Pansap, poli(acrilato de potássio-co-acrilamida), reticulado, obtido por meio da reciclagem de fibras de poliacrilonitrila (PAN), conhecida popularmente como fibra acrílica.
O processo recupera o polímero das fibras têxteis e o submete a uma reação de hidrólise alcalina, que transforma o material em um novo polímero superabsorvente (SAP) altamente higroscópico, moldado em placas para o uso.
A pesquisadora Valquiria Campos indicou que o uso de resíduos têxteis foi a melhor opção para a fabricação: "Podíamos ter utilizado poliacrilato comercial, mas ele não seria tão eficiente para a adsorção e produção de placas”.
O método tridimensional retém o líquido em poros, de modo que cada grama do polímero pode absorver de 200g a 300g de água líquida. No ar, a saturação ocorre quando o material adsorve 80% de sua massa em água.
Todo o ciclo fundamenta-se no conceito de economia circular. Além do aproveitamento de roupas e aparas de tecidos, o método recupera a amônia liberada na reação química e a transforma em fosfato de amônio, um fertilizante para a agricultura. Valquiria Campos destacou os benefícios ecológicos e financeiros:
Isso reduz significativamente a geração de lixo e melhora o desempenho ambiental do processamento. Além disso, do ponto de vista econômico, a produção de água baseada no polímero superabsorvente obtido de tecidos é muito mais vantajosa do que outras rotas que utilizam materiais avançados”.
A tecnologia destaca-se pelo valor competitivo em comparação com os chamados MOFs (estruturas metal-orgânicas), materiais cristalinos porosos de alto custo. A professora Valquiria Campos comparou os custos de fabricação:
Embora os MOFs apresentem alto desempenho em laboratório, são muito caros e difíceis de produzir em grande escala. O preço estimado para a produção do nosso polímero é da ordem de US$2,50 por quilograma, enquanto alguns MOFs podem custar até milhares de dólares por grama. Como vamos fornecer atendimento emergencial para populações que necessitam de água com um preço desses?”.
Em ensaios executados durante o estudo, o novo polímero em placas demonstrou capacidade de adsorção de cerca de 0,43g de água por grama de material sob umidade relativa entre 69% e 90%.
O ar ambiente circula pelas placas das hidrocélulas, agrupadas em módulos chamados hidrobaterias, onde ocorre a captura da umidade. Na sequência, as placas passam por aquecimento entre 55°C e 80°C para a liberação do vapor, que se condensa e segue para coleta.
A pesquisadora explicou que o controle da temperatura foi um ponto crítico, pois índices acima de 100°C degradam o polímero e causam odor amoniacal na água. Valquiria Campos relatou a solução: “A redução da temperatura resolveu o problema. Quando baixamos a temperatura para a faixa dos 60°C, 65°C, aí sim a água saiu insípida”.
O líquido obtido apresenta alto grau de pureza e ausência de contaminantes orgânicos detectáveis, com nível mínimo de amônia (0,09mg por litro). Como a água passa por desmineralização, os cientistas orientam a adição posterior de sais minerais. O protótipo funciona de forma autônoma por meio de energia solar, com uso de quatro painéis fotovoltaicos de 580W.
O material demonstrou alta estabilidade ao longo de mais de 2.500 ciclos de adsorção e dessorção, com estimativa de vida útil superior a dez anos. Uma única unidade com 10kg de polímero produz aproximadamente 6l de água por dia. O sistema possui caráter modular, o que viabiliza a expansão para o atendimento de pequenas comunidades isoladas. A pesquisadora Valquiria Campos concluiu com os próximos passos:
Estamos nos preparando para um teste de campo na região de Lima, no Peru, em uma comunidade que sobrevive com sistemas artesanais de captação de neblina e abastecimento por caminhões-pipa”. O estudo contou com apoio financeiro da Fapesp.