Visão da natureza e de seus elementos, um dos pilares para a preservação do meio ambiente, mostra a importância das terras indígenas
Mayumi Kitamura
Publicado em 18/04/2025, às 09h00
No dia 19 de abril, o Brasil celebra o Dia dos Povos Indígenas, data que nem sempre proporciona mais conhecimento da cultura indígena, que se mostra cada vez mais necessária, principalmente, em tempos como o que estamos vivendo, de extremos climáticos e de crise da saúde mental.
Uma das filosofias milenares, a do povo guarani Mbya, se baseia no conceito de teko porã, traduzido como bem viver, que pode ser interpretado como uma vida tranquila, em harmonia com o tempo e a natureza, com respeito por seus elementos. Esse conceito é transmitido na série documental Diálogo entre Dois Mundos, do Sesc Bertioga, produzida pelo documentarista Júnior Castro e pelo historiador, etnógrafo, fotógrafo documental e doutorando em ciências sociais Cadu de Castro.
Pelos vídeos, é possível entender um pouco a relação desta cultura, que valoriza a Existência, cuja rotina é ditada pelos costumes, considerando as mudanças da natureza. Entre os exemplos estão os chamados ano Novo (Ara Pyau) e ano Velho (Ara Ymã) do povo guarani, que seria a passagem do tempo; o primeiro marca a abundância de colheita e de renovação. O segundo, é tempo de introspecção e envolve o preparo da terra e as sementes para o plantio. A natureza também é quem dita os tempos físicos e espirituais.
Para apresentar mais aspectos e propor uma reflexão sobre a data, além do proporcionado pela série documental, entrevistamos Cadu de Castro, que comentou também sobre a luta indígena em busca de justiça pelo território.
Costa Norte: Por que é importante conhecer a visão de mundo dos povos indígenas?
Cadu de Castro: Para compreender a relevância da visão de mundo indígena, é fundamental reconhecer que o conhecimento transmitido historicamente nas escolas parte de uma perspectiva unilateral: a do colonizador. Essa visão eurocêntrica, marcada por limitações culturais e ideológicas, frequentemente distorceu a realidade dos povos originários.
Os colonizadores, guiados por uma moral judaico-cristã e por preconceitos enraizados, não possuíam o repertório necessário para interpretar adequadamente as culturas indígenas. Em vez disso, impuseram uma lógica de dominação que justificava a exploração e a violência. Ao estabelecerem sua hegemonia nas terras colonizadas, os invasores não apenas usurparam territórios e escravizaram populações, mas também construíram narrativas deturpadas sobre os povos nativos. Esses discursos, perpetuados ao longo de séculos, retratavam os indígenas de forma estereotipada: como "ingênuos" (justificando sua tutela), "preguiçosos" (legitimando seu trabalho forçado) ou "hostis" (validando seu extermínio). Tais representações serviram para ocultar a riqueza de seus saberes e práticas, relegando-os à invisibilidade social.
CN: E agora?
CC: Mesmo após mais de cinco séculos, essa lógica colonial persiste. A mídia e as instituições educacionais, enquanto aparelhos de manutenção hegemônica, continuam a negligenciar a diversidade cultural e o conhecimento ancestral desses povos. Nas escolas, por exemplo, a abordagem sobre as culturas indígenas muitas vezes se resume a uma comemoração superficial no dia 19 de abril, com representações folclóricas que ignoram questões essenciais, como a luta pela demarcação de terras e a preservação de tradições milenares.
No entanto, o conhecimento indígena se mostra fundamental para enfrentarmos os desafios contemporâneos. Nosso modelo de sociedade, herdado do colonizador, revela-se insustentável: ele consome recursos naturais de forma predatória, gera crises econômicas cíclicas e agrava a emergência climática. Enquanto isso, muitas comunidades indígenas, como os guarani, praticam o Teko Porã (bem viver), um princípio filosófico que enfatiza a harmonia entre todos os seres – humanos, naturais e espirituais. Essa relação simbiótica com o ambiente contrasta radicalmente com nossa visão dissociada da natureza, na qual predominam a exploração e o individualismo.
CN: Como a interpretação indígena de natureza pode ajudar a mudar a nossa realidade?
CC: Estudos científicos comprovam que os povos indígenas desempenham um papel crucial na preservação da biodiversidade. Pesquisas demonstram, por exemplo, que as florestas tropicais foram moldadas por uma relação ancestral entre humanos e ecossistemas, resultando em paisagens ricas e diversas. Diante da crise climática – que já se manifesta em eventos extremos, escassez de recursos e degradação ambiental –, a humanidade enfrenta um dilema urgente: persistir em um modelo autodestrutivo ou aprender com os saberes indígenas.
Assim, (des)aprender as noções coloniais de "progresso" e "riqueza" torna-se um imperativo ético e prático. A visão de mundo dos povos indígenas oferece caminhos para reconstruirmos nossa relação com o planeta, substituindo a lógica da acumulação pela harmonia coletiva. Se pretendemos evitar um futuro catastrófico, é essencial valorizar esses conhecimentos ancestrais não como curiosidade histórica, mas como ferramentas vitais para a sobrevivência da espécie humana e do próprio planeta”.
CN: Queria saber também sua visão, como historiador e pesquisador, sobre a data; você acredita que ela realmente ajuda a termos um pouco desse contato com a cultura ancestral?
CC: O verdadeiro significado do 19 de abril: uma data para reflexão e não para comemoração. O Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, assim como outras datas emblemáticas - o Dia Internacional das Mulheres e o Dia da Consciência Negra - não são ocasiões para festejos, mas, sim, momentos de profunda reflexão sobre as lutas históricas desses grupos. Afinal, não podemos comemorar séculos de violência, opressão e exclusão. No caso dos povos originários, seria incoerente "celebrar" uma história marcada pelo roubo de territórios, pela escravização e pelo extermínio sistemático. Essas datas existem justamente para jogar luz sobre essas injustiças e fortalecer as lutas por direitos e reconhecimento.
A escolha do 19 de abril como data representativa remonta a 1940, quando foi realizado o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, em Pátzcuaro, México. Esse importante encontro reuniu representantes de diversos países das Américas, incluindo lideranças indígenas, com o objetivo de discutir políticas públicas que garantissem o respeito às culturas originárias, a proteção de seus territórios tradicionais e formas de integração que não significassem assimilação forçada. Foi nesse contexto que se estabeleceu o 19 de abril como marco simbólico desses compromissos continentais com a dignidade dos povos indígenas.
CN: Como está esse panorama com relação à terra indígena mais próxima daqui, a Aldeia Rio Silveira?
CC: Em Bertioga, essa reflexão ganha contornos ainda mais urgentes e concretos. Precisamos, antes de tudo, reconhecer a presença viva e resistente da comunidade guarani em nosso território, que representa aproximadamente 1% da população local. Na Terra Indígena Ribeirão Silveira (Aldeia Rio Silveira), encontramos guardiões de saberes ancestrais - os Nhanderuís, líderes espirituais detentores de profundos conhecimentos sobre medicina tradicional e da filosofia do Teko Porã (o "Bem Viver"). Ali também vivem profissionais indígenas formados em nossas universidades - professores, uma filósofa e um cineasta - demonstrando a riqueza intelectual dessa comunidade que, muitas vezes, é invisibilizada.
Mais do que isso, o modo de vida tradicional guarani desempenha um papel fundamental na preservação ambiental de nossa região. Enquanto nosso modelo de desenvolvimento predatório ameaça os ecossistemas locais, os guarani mantêm uma relação de harmonia com a Mata Atlântica, garantindo a conservação de mananciais, a biodiversidade e o equilíbrio ecológico - benefícios que se estendem a toda população de Bertioga.
CN: Qual a sua opinião sobre como devemos avaliar e lembrar a situação, em especial com relação a essa data?
CC: Diante disso tudo, a maneira como tratamos o 19 de abril precisa ser repensada. Em vez de reduzir a data a representações folclóricas e fantasias, deveríamos transformá-la em uma oportunidade real de aprendizado e ação. Isso significa reconhecer publicamente os saberes tradicionais guaranis, apoiar suas lutas por demarcação territorial, incluir suas vozes nos espaços de decisão política e, sobretudo, agradecer por sua presença contínua como guardiões desse território que todos compartilhamos.
O 19 de abril não pode ser um dia de comemoração vazia. Deve ser, isso sim, um momento de consciência crítica, de reconhecimento de dívidas históricas e de construção de alianças verdadeiras. Se queremos de fato um futuro mais justo e sustentável para Bertioga e para o planeta, precisamos aprender com os povos originários não apenas nessa data, mas em todos os dias do ano. A sabedoria indígena não é coisa do passado - é um farol essencial para encontrarmos saídas para as crises que enfrentamos no presente.
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