Guarujá amplia o uso de tecnologia e inteligência de dados no combate à criminalidade, e aposta em uma cidade mais segura para moradores, turistas e empreendimentos
Marina Aguiar
Publicado em 25/09/2026, às 09h58
Segurança deixou de ser apenas uma questão de policiamento ostensivo e passou a ocupar um espaço estratégico na transformação urbana de Guarujá. Nos últimos anos, o município ampliou a iluminação pública em LED, instalou mais de 2.500 câmeras e integrou sistemas de inteligência artificial, reconhecimento facial e leitura de placas a uma central de operações.
Por trás das telas, alertas e bancos de dados, existe um desafio simples e concreto: fazer com que moradores e visitantes se sintam seguros para circular pela cidade, consumir, trabalhar e investir. Os indicadores apresentados pela Secretaria de Defesa e Convivência Social apontam uma evolução positiva. Entre janeiro e setembro de 2025, Guarujá registrou redução de 24,4% nos roubos e de 59% nos homicídios, na comparação com o mesmo período de 2024.
Na avaliação da administração municipal, os resultados refletem uma estratégia que combina presença das forças de segurança, monitoramento, inteligência e integração de dados. No centro dessa estrutura está o Centro de Operações Integradas (COI), que reúne informações de diferentes sistemas de monitoramento. A chamada Muralha Digital combina videomonitoramento, reconhecimento facial e leitura de placas (LPR), em integração com o programa Muralha Paulista, do governo do estado.
Segundo o secretário de Defesa e Convivência Social, coronel Renato Fincatti, a inteligência artificial funciona como uma camada adicional de análise, capaz de identificar padrões e gerar alertas para as equipes em campo. Um exemplo citado é a identificação de grupos ou comportamentos considerados suspeitos, que podem ser encaminhados para averiguação pelas equipes mais próximas.
A inteligência artificial busca padrões. Se o sistema detecta, por exemplo, três indivíduos circulando de bicicleta em atitude de observação, na areia, um alerta é gerado imediatamente para a viatura mais próxima”, explica Fincatti.
A estrutura também amplia a capacidade de cruzamento de informações. As câmeras distribuídas pelo município podem trabalhar de forma integrada com bancos de dados e sistemas estaduais, permitindo localizar veículos com registro de furto ou roubo e auxiliar na identificação de pessoas procuradas pela Justiça.
Mas, apesar dos avanços tecnológicos, o comando da segurança municipal identifica que o maior desafio está nos delitos que afetam diretamente a rotina de quem frequenta a cidade.
De acordo com Fincatti, o roubo de celulares e de correntinhas, na orla marítima e nas áreas comerciais, representa o principal gargalo do município. O secretário estima que o combate efetivo a essa modalidade de crime de oportunidade resolveria 90% dos problemas de segurança pública que perturbam o cidadão e o turista hoje.
É justamente para antecipar esses movimentos que a inteligência artificial busca padrões de comportamento, permitindo uma resposta mais ágil das equipes em campo”.
É uma questão que se revela de forma diferente nas ruas. Se no COI a segurança é monitorada por telas, alertas e indicadores, nos bairros ela pode ser percebida em sinais mais cotidianos: no comerciante que mantém a porta aberta por mais tempo, no consumidor que volta a circular à noite e na percepção de quem vive e trabalha na região.
O que muda nas ruas
Em Vicente de Carvalho, onde o comércio convive historicamente com os desafios da criminalidade, essa percepção começa a ganhar contornos mais concretos.
Na avenida Thiago Ferreira, uma das principais áreas comerciais do distrito, Sandra Salvador, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Guarujá, relata uma mudança no cenário.
Há dois anos, tínhamos uma insegurança muito grande, com três a seis assaltos por dia na avenida. Hoje, não se ouve mais falar de assalto”, afirma Sandra.
Parte dessa mudança, segundo a presidente da CDL, está relacionada à articulação entre comerciantes e poder público. Para ela, a segurança também tem impacto direto sobre a atividade econômica.
Quando o medo está instalado, as pessoas não aparecem”, resume.
Por meio do programa Vizinhança Solidária, lojistas também passaram a compartilhar câmeras e sirenes e a manter grupos de comunicação para alertar uns aos outros diante de movimentações consideradas suspeitas. A rede permite acionar rapidamente a Guarda Civil Municipal, pelo 153, e a Polícia Militar, pelo 190.
Se a tecnologia amplia a capacidade de monitoramento, a presença das equipes nas ruas continua sendo essencial para lidar com ocorrências do cotidiano. No centro dessa engrenagem está Antônio Luís da Cunha, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Centro, e atual assessor da Secretaria de Defesa e Convivência Social. Com 18 anos de atuação no conselho, Cunha funciona como um elo entre as demandas dos bairros e a gestão municipal. Ele explica que a incidência de pequenos delitos costuma ser maior em áreas de grande fluxo, como as praias da Enseada, Pitangueiras e Astúrias.
Como resposta, a Operação Pé na Areia, que uniu a Guarda Civil Municipal à fiscalização de posturas, trabalha para ordenar o trabalho dos ambulantes e inibir pequenos furtos na faixa de areia.
Essa integração reduziu drasticamente o índice de ocorrências na areia. Hoje, o monitoramento é tão eficiente que temos casos de identificação em tempo real via Muralha Paulista”, explica Cunha.
Um fator para investir
A relação entre segurança e atividade econômica é perceptível. Carlos Meschini, do Secovi Baixada Santista, avalia que o ordenamento urbano e a ocupação dos espaços públicos contribuem para um ambiente mais seguro. Segundo ele, áreas movimentadas por moradores, comércio e novos empreendimentos tendem a receber mais investimentos privados em iluminação e monitoramento, ampliando a rede que já existe no poder público.
Para Meschini, o fator segurança influencia a decisão de investir e pode ganhar ainda mais peso diante das transformações previstas para Guarujá na próxima década.
Inteligência para a cidade
A modernização da segurança faz parte de uma transformação mais ampla na gestão urbana. A ideia é que os sistemas de informação não sirvam apenas para monitorar ocorrências, mas também para identificar demandas e agilizar a resposta do poder público. O secretário de Gestão e Inovação, Walter Batista, revela que Guarujá foi um dos dez municípios selecionados, no Brasil, para integrar uma coalizão internacional de Inteligência Artificial financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
A parceria resultará em um aplicativo que colocará os serviços públicos, incluindo alertas de segurança e zeladoria, na palma da mão do cidadão.
A cidade só é inteligente quando facilita a vida de quem nela vive. Não se trata apenas de digitalizar processos, mas de reestruturar o serviço com foco no cidadão”, conclui Batista.
A proposta amplia para outras áreas da administração a mesma lógica de integração de informações que sustenta a estrutura de segurança: reunir dados, identificar demandas e agilizar a resposta do poder público.
Para Guarujá, o desafio agora é fazer com que essa estrutura tecnológica produza efeitos perceptíveis para quem está do outro lado das câmeras: o morador que circula pelo bairro, o turista que caminha pela orla, o comerciante que mantém sua porta aberta e o empresário que decide se vale a pena investir na cidade.