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O outro Guarujá

Trilhas, Mata Atlântica, praias preservadas, patrimônio histórico e experiências no mar revelam um repertório que ainda está fora do roteiro tradicional

Marina Aguiar
Publicado em 25/09/2026, às 23h00

Praia do Tombo mantém, há 16 anos consecutivos, a certificação internacional Bandeira Azul - Prefeitura de Guarujá


Para quem conhece Guarujá, principalmente pelas praias badaladas da região central, ignora uma cidade inteira a ser descoberta. Ela surge nas trilhas que atravessam a Mata Atlântica, nas praias de acesso restrito, nas ruínas que contam os primeiros capítulos da história da ilha e até no fundo do mar. É por esse território que circula o guia de turismo Antonio Carlos Santos de Carvalho, o Tony, acompanhando visitantes em busca de experiências diferentes. Segundo ele, cresce a procura por trilhas de maior duração, como as do Conde e do Saco do Major.

Na Serra do Guararu, a trilha do Conde reúne percursos em meio à Mata Atlântica, com riachos, piscinas naturais, quedas d’água e atividades de aventura. Já o caminho até o Saco do Major exige mais disposição, com subidas e trechos estreitos, antes da chegada a uma praia de 400 metros com exuberante vegetação no entorno. Nesse Guarujá, o caminho também é parte da experiência. O visitante percorre a floresta, encontra paisagens preservadas e descobre uma relação diferente com o território.

Natureza como destino
A biodiversidade amplia esse repertório. O município registra mais de 300 espécies de aves, e já recebe visitantes interessados especificamente em observá-las. Tony costuma levar grupos para a Serra do Guararu e prevê retomar esse roteiro, além de criar uma experiência de observação de insetos no Parque do Conde.



O interesse por esses nichos encontra um território especialmente favorável: mais de 70% do município estão inseridos em áreas protegidas. São três Áreas de Proteção Ambiental, Serra do Guararu, Santo Amaro e Cabeça do Dragão, que preservam extensos remanescentes de Mata Atlântica.

No extremo norte da ilha, essa relação entre conservação e visitação fica ainda mais evidente. São Pedro, Iporanga, Pinheiros, Camburi, Prainha Branca e as praias Preta e Camburizinho, mantêm características que contrastam com a movimentação da orla urbana. Na Prainha Branca, por exemplo, o acesso por trilha leva a um pequeno vilarejo cercado pela Mata Atlântica, com janela para o mar. Ali, a própria caminhada faz parte da experiência. O desafio é permitir que mais pessoas conheçam esses lugares sem transformar justamente aquilo que os torna especiais.

História que se percorre
A Mata Atlântica também guarda vestígios dos primeiros capítulos da ocupação da ilha de Santo Amaro. A Ermida de Santo Antônio, construída por volta de 1560, por determinação de José Adorno, está entre os mais antigos patrimônios históricos do Guarujá. 



Com vista para Bertioga, o local era frequentado pelo padre José de Anchieta, que ali celebrava missas e catequizava indígenas. Segundo a plataforma Roteiros da Baixada Santista, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP), Anchieta teria escrito ali o poema Milagre dos Anjos. As ruínas são tombadas pelo Condephaat desde 1979.

Ao lado, estão as ruínas do Forte São Felipe, construído em 1552, e associado à passagem do alemão Hans Staden, que viveu no local durante nove meses no século XVI. O acesso é feito pela trilha das Ruínas, a partir do caminho para a Prainha Branca, e, por barco, pelo canal de Bertioga. 

Para Tony, há ainda outros pontos com potencial para integrar novos roteiros. É o caso da chamada Pedra do Sol, formação rochosa, localizada na Prainha Branca, que apresenta uma imagem estilizada do Sol, alinhada ao solstício de verão. A proposta é explorar o local a partir do geoturismo, conectando paisagem, arqueologia e história.



Museu sob as águas
Se as trilhas levam o visitante para dentro da Mata Atlântica, no Guaiúba o caminho turístico segue em direção oposta: para o fundo do mar. A cerca de 500 metros da faixa de areia, e aproximadamente oito metros de profundidade, o Centro de Visitação Subaquático reúne 15 esculturas do artista plástico Adélio Sarro. As peças, feitas em concreto neutro, chegam a 2,45 metros de altura e até três toneladas.

O conjunto representa personagens históricos e figuras ligadas à identidade brasileira e caiçara: Santos Dumont, Cândido Portinari, Fernando Lee e são Francisco de Assis dividem espaço com um pescador, um estivador, um indígena, um imigrante italiano, um marinheiro, uma sereia e um surfista. Além da experiência para o visitante, as esculturas funcionam como abrigo para organismos marinhos e favorecem a formação de novos habitats.

Implantado neste ano pela Secretaria de Turismo de Guarujá, em parceria com a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, o centro começou a receber visitantes após a inauguração, em junho. 



A operação dos mergulhos é feita pela Estação do Mar, escola de mergulho e aventuras sediada no Guaiúba. Segundo Lucca Savio, cofundador da escola, a instalação do museu submerso proporcionou aumento de 30% a 40% na procura por mergulhos no Guarujá. 

Não é preciso ser mergulhador experiente para conhecer o acervo. A Estação do Mar oferece o chamado batismo, destinado a quem nunca mergulhou, além de passeios para mergulhadores certificados.

 As visitas são agendadas e dependem das condições do mar. O acesso ao acervo é gratuito; o visitante paga pelos serviços da operadora, que incluem acompanhamento e, no caso do batismo, equipamentos. Os mergulhos duram, em média, de 30 a 45 minutos.



Uma praia como ativo ambiental
Conhecer esse outro Guarujá também significa entender que a preservação faz parte da própria experiência. A praia do Tombo mantém, há 16 anos consecutivos, a certificação internacional Bandeira Azul, concedida pela Foundation for Environmental Education (FEE) - Fundação para Educação Ambiental -, a praias e marinas de todo o mundo. O reconhecimento considera critérios como qualidade da água, segurança, educação ambiental e gestão.

A prefeitura pretende utilizar o modelo como referência para ampliar a certificação a outras praias, entre elas Guaiúba e Astúrias. Para o setor hoteleiro, o reconhecimento funciona como um diferencial competitivo. Segundo Sandra Chiamulera, diretora executiva do Visite Guarujá, os 16 anos de Bandeira Azul reforçam a imagem de qualidade do destino e contribuem para atrair visitantes estrangeiros, especialmente da América Latina.

Novos públicos 



Se os atrativos já existem, conhecer quem chega à cidade é o próximo passo. Em elaboração pela prefeitura, em parceria com a FIA/USP, o novo Plano Diretor de Turismo reúne pesquisas sobre o perfil dos visitantes e o potencial de cada segmento para orientar as políticas públicas e qualificar a oferta turística do município. 

Uma das principais constatações dos estudos é justamente a mudança na origem e na motivação dos turistas. Ao contrário da percepção histórica de que o fluxo vinha principalmente da Grande São Paulo, os dados municipais indicam predominância de visitantes do interior paulista. E, entre as motivações, a busca por descanso, paz e contato com a natureza tem primazia em relação às praias.