Com a atualização do Plano Diretor, após 25 anos, município redefine seu zoneamento para atrair o capital ESG e se consolidar como a "cidade-plataforma" do Sudeste brasileiro
Luciana Sotelo
Publicado em 09/10/2026, às 17h00
Como será Cubatão em 2030? Resposta não está apenas em metas abstratas, mas no novo masterplan de eficiência que a cidade acaba de sancionar. Com a atualização do Plano Diretor, após 25 anos (Lei Complementar nº 134/2023), o município redefine seu zoneamento para atrair o capital ESG e se consolidar como a "cidade-plataforma" do Sudeste, território no qual a segurança jurídica e a inovação industrial caminham juntas.
Novo marco urbanístico define parâmetros para expansão industrial, organização do crescimento urbano e fortalecimento de políticas voltadas à sustentabilidade. Para o secretário municipal de Planejamento, Wilney Fraga, objetivo é garantir que a próxima década seja marcada por crescimento estruturado e alinhado às demandas ambientais contemporâneas.
O planejamento, conforme pontua, envolve a atuação integrada de áreas como Obras, Segurança e Finanças.
As diretrizes são claras: crescimento industrial ordenado, crescimento urbano estruturado e qualidade de vida elevada. O desenvolvimento sustentável é o grande norte da cidade”, destaca.
Ainda segundo Fraga, o novo Plano Diretor prevê a expansão da área industrial
com critérios ambientais e uma verticalização urbana planejada para garantir qualidade de vida à população”.
Entre os pilares da estratégia municipal está também o fortalecimento da participação dos moradores nas decisões sobre investimentos e prioridades da cidade. Programas de orçamento participativo têm ampliado o diálogo entre o poder público e os moradores, permitindo que demandas locais sejam incorporadas ao planejamento urbano.
Wilney Fraga enfatiza que esse processo contribui para tornar o desenvolvimento mais alinhado às necessidades da população.
A participação social influencia diretamente as decisões de planejamento. Quando a população indica prioridades por meio de instrumentos como o orçamento participativo, cria-se uma expectativa legítima de atendimento dessas demandas.”
Conceito de cidade-plataforma
A posição geográfica de Cubatão continua sendo seu principal ativo. Localizada entre a Região Metropolitana de São Paulo e o porto de Santos, maior complexo portuário da América Latina, a cidade integra um dos mais importantes corredores logísticos do país.
Dados da Autoridade Portuária de Santos (APS) indicam que o porto movimentou 186,4 milhões de toneladas de cargas em 2025, o maior volume de sua história, com crescimento de 3,6% em relação ao ano anterior.
O cais santista foi responsável por aproximadamente 25% da balança comercial brasileira. Essa estrutura logística conecta diretamente a região aos principais fluxos econômicos internacionais.
Para o arquiteto e urbanista Alessandro Lopes, especialista em planejamento urbano e cidades inteligentes, essa condição coloca Cubatão em posição estratégica para participar da transição energética global.
Cubatão é, por natureza, uma cidade-plataforma. Sua geografia conecta o planalto ao litoral, e sua base industrial sustenta cadeias produtivas nacionais. O desafio agora é reconverter e qualificar a infraestrutura que já existe, transformando-a em ativo estratégico para a economia de baixo carbono”, explica.
Lopes vai além e menciona que a transformação da cidade não depende apenas de inovação tecnológica, mas também de um novo olhar sobre o desenvolvimento urbano.
Durante décadas, Cubatão foi estruturada para garantir a eficiência dos fluxos industriais. O desafio de 2030 é transformar essa infraestrutura em oportunidade real para a população”, afirma.
Desafios e adaptação climática
Mesmo com os avanços, o futuro exige atenção às mudanças climáticas. Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) reforça que o planejamento ambiental será um dos fatores determinantes para o futuro do município.
A prioridade, hoje, é fortalecer a capacidade dos territórios para se adaptarem às mudanças climáticas. Isso exige planos diretores eficazes, controle rigoroso das emissões de poluentes e atenção às características geográficas da cidade”, define.
Bocuhy também enfatiza a localização de Cubatão, área cercada pelas encostas da Serra do Mar, e reforça que ela exige cuidados adicionais no monitoramento da qualidade do ar e no planejamento industrial.
É necessário considerar não apenas os limites individuais de emissão de poluentes, mas o conjunto das emissões dentro de uma mesma bacia atmosférica e hídrica”.
A trajetória de Cubatão encontra paralelos em outras cidades industriais que passaram por processos profundos de recuperação ambiental e reconversão econômica.
Entre os casos frequentemente citados estão Pittsburgh, nos Estados Unidos, que deixou de ser símbolo da poluição da indústria do aço, para se tornar polo de tecnologia e inovação; Bilbao, na Espanha, conhecida pela revitalização urbana e recuperação ambiental de antigas áreas industriais; e a região do Ruhr, na Alemanha, que transformou antigas áreas de mineração em centros de inovação, parques e infraestrutura verde.
Esses exemplos, segundo Alessandro Lopes, demonstram que a vocação industrial não precisa ser abandonada, mas, sim, transformada.
O futuro não exige que Cubatão deixe de ser uma cidade industrial. Exige que ela se torne uma cidade industrial inteligente, onde eficiência produtiva, preservação ambiental e qualidade urbana operem como partes de um mesmo sistema”, pondera.
Perfil de investimentos para o futuro
A nova agenda de desenvolvimento também tende a atrair um perfil específico de investidores. Projetos ligados à transição energética, logística sustentável e desenvolvimento urbano estão entre os setores com maior potencial de crescimento.
Ao projetar os próximos anos, Alessandro Lopes aponta que o futuro de Cubatão dependerá não apenas da capacidade de atrair investimentos, mas também de consolidar uma visão estratégica de longo prazo.
Depois de superar uma crise ambiental que marcou sua história e de consolidar um processo de recuperação reconhecido internacionalmente, o município chega a novo momento.
Agora, o desafio não é apenas corrigir os erros do passado, mas transformar a experiência acumulada em estratégia para o futuro. Planejar o crescimento urbano, qualificar a atividade industrial e preservar os ativos ambientais que cercam a cidade, passam a fazer parte de um mesmo projeto de desenvolvimento.
Será o capítulo no qual desenvolvimento, sustentabilidade e qualidade de vida caminham juntos; Cubatão deixa de ser apenas símbolo de superação para se afirmar como cidade preparada para liderar os desafios do século XXI.
Cubatão não é uma cidade à espera do futuro. É um território onde o futuro industrial e ambiental do Brasil tem todas as condições de começar a ser liderado”, finaliza.