Jornada da cidade que não apagou seu passado, mas o usou como alavanca para se tornar o maior case de recuperação ambiental do planeta
Luciana Sotelo
Publicado em 09/10/2026, às 22h08
O céu era escuro e a névoa parecia sufocar.”
A frase do advogado João Ivaniel de França Abreu é uma memória física de quem chegou à Vila Parisi, em 1972. Durante décadas, Cubatão representou um dos paradoxos mais marcantes do desenvolvimento brasileiro.
Ao mesmo tempo em que se consolidava como um dos maiores polos industriais da América Latina, também se tornava símbolo de crise ambiental sem precedentes no país.
Nos anos 1970, e início da década de 1980, a cidade da Baixada Santista passou a figurar em reportagens nacionais e internacionais como território no qual a industrialização havia ultrapassado os limites ambientais e sociais.
Quatro décadas depois, porém, o mesmo território passou a ser estudado como um dos mais emblemáticos processos de recuperação ambiental em áreas industriais do mundo.
Construção de uma crise
O cenário que levou Cubatão à crise ambiental começou a se formar ainda nas décadas de 1950 e 1960. A instalação da Refinaria Presidente Bernardes, seguida pela Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista) e por um conjunto de indústrias petroquímicas, químicas e de fertilizantes, transformou rapidamente o município em um dos principais polos produtivos do país.
Esse crescimento, no entanto, ocorreu sob a lógica do desenvolvimentismo econômico que marcou o período, quando a industrialização era vista como sinônimo de progresso nacional.
O historiador Sergio Willians é categórico:
O Vale da Morte não foi um acidente, foi um projeto de desenvolvimento sem freios. Ficou claro que o problema era estrutural."
O que Willians destaca como singular é que Cubatão enfrentou o que poucas cidades industriais no mundo ousaram: recuperar o ecossistema sem expulsar as fábricas. Foi uma reforma com o motor em pleno funcionamento.
De acordo com o pesquisador, a ausência de padrões rigorosos de emissão de poluentes, aliada ao uso de tecnologias industriais pouco eficientes e à fiscalização ainda incipiente, permitiu que grandes volumes de contaminantes fossem lançados no ar, na água e no solo.
A própria geografia local também contribuiu para agravar o problema. Localizada em um vale cercado pela Serra do Mar, a cidade apresenta baixa dispersão atmosférica, o que favorece o acúmulo de poluentes sobre a área urbana.
Durante algum tempo, os impactos da poluição foram percebidos de forma fragmentada. Mas, no início da década de 1980, estudos técnicos e epidemiológicos passaram a demonstrar que o problema era muito mais profundo.
Relatórios ambientais e análises científicas indicavam altas concentrações de poluentes atmosféricos como dióxido de enxofre, material particulado e compostos químicos tóxicos. Paralelamente, cresciam os registros de problemas respiratórios na população, e de alterações ambientais severas, como o comprometimento da vegetação da Serra do Mar.
Foi então que a crise de Cubatão ganhou repercussão nacional e internacional. Segundo Sergio Willians, tornou-se evidente que não se tratavam de episódios isolados.
Ficou claro que o problema era estrutural. Não era um acidente pontual, mas consequência de um modelo produtivo inteiro”, afirma.
Mas, como algumas crises levam a um lado positivo, este período também coincidiu com o fortalecimento da Cetesb, Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, que passou a implementar programas sistemáticos de monitoramento da qualidade do ar e exigir planos de controle de poluição das indústrias instaladas na região.
Memórias de quem viveu o período
Para quem conheceu Cubatão naquele período, a crise ambiental não era apenas um tema técnico ou institucional, mas uma experiência cotidiana. O advogado João Ivaniel de França Abreu, que chegou à cidade em 1972, aos 17 anos, recorda com pesar as condições enfrentadas pelos moradores.
Residente na antiga Vila Parisi, bairro localizado próximo ao complexo industrial, ele descreve um ambiente marcado pela presença constante de poluentes no ar.
O céu era escuro, havia muita poeira em suspensão e uma névoa que parecia sufocar a todos. À noite, era um pó preto que tomava conta do ambiente”, relembra.
Segundo ele, a população convivia com problemas respiratórios frequentes e com sensação constante de impotência e insegurança diante das condições existentes. Como se não bastassem as doenças, João testemunhou também o nascimento de recém-nascidos com malformação.
Era um período muito difícil. Muitos se sentiam acuados e, ao mesmo tempo, havia uma certa acomodação, porque a cidade dependia da indústria”, conta.
Entre os acontecimentos mais traumáticos daquele período, desponta o incêndio ocorrido em 1984, na Vila Socó, provocado pelo vazamento de combustível em um oleoduto. A tragédia deixou número elevado de vítimas e marcou profundamente a memória coletiva da cidade. João Ivaniel lembra ter presenciado a dimensão do ocorrido.
Eu estive lá pessoalmente. Foi um caos difícil de descrever. Uma tristeza sem precedentes”, recorda o ex-morador.
A tragédia selou o fim de uma era de negligência, ao reforçar a percepção de que a cidade vivia uma crise que ultrapassava a dimensão ambiental e se estendia à segurança urbana e às condições de vida da população. Tal situação forçou o nascimento de nova consciência institucional.
Virada ambiental
A resposta à crise começou a se consolidar a partir da década de 1980, com a implantação de amplo programa de controle ambiental coordenado pela Cetesb. A estratégia adotada não previa o fechamento do polo industrial, mas sua transformação tecnológica.
Centenas de projetos de controle de poluição foram implementados, incluindo sistemas de filtragem de gases, tratamento de efluentes industriais, monitoramento atmosférico contínuo e ações de recuperação ambiental.
Sergio Willians reforça que esse modelo de recuperação tornou o caso de Cubatão singular no cenário internacional.
Ao contrário do que ocorreu em várias cidades industriais do mundo, Cubatão não passou por um processo de desindustrialização. O desafio foi compatibilizar a permanência da indústria com a redução das emissões e a modernização tecnológica”, explica.
A transição também contou com a participação decisiva da comunidade científica. Estudos acadêmicos, análises químicas e levantamentos epidemiológicos forneceram dados concretos sobre os impactos da poluição e permitiram estabelecer metas de controle ambiental baseadas em indicadores mensuráveis.
Esse processo contribuiu para fortalecer políticas públicas ambientais no Brasil. A própria Política Nacional do Meio Ambiente, que instituiu instrumentos como o licenciamento ambiental, surgiu nesse contexto de amadurecimento institucional.
Anos depois, a criação do Ibama, em 1989, consolidaria o sistema nacional de gestão ambiental. A partir da década de 1990, relatórios técnicos passaram a apontar reduções significativas nos níveis de poluição em Cubatão, resultado de investimentos industriais e políticas públicas ambientais.
Com investimentos da ordem de US$1,2 bilhão, entre 1984 e 2000, o resultado foi a queda de 90% a 95% dos poluentes atmosféricos. Além de priorizar os filtros para reduzir emissões, o reflorestamento da Serra do Mar também foi fundamental.
João Ivaniel, que saiu de Cubatão em 2016, mas ainda frequenta a cidade, pois mantém um escritório ativo no município, afirma:
Com o controle ambiental que passou a existir, voltamos a nos sentir seguros, principalmente, respirar melhor. Por isso, é importante manter esse cuidado permanente."
Em uma década, o programa Cubatão + Verde também possibilitou o plantio de 150 mil mudas nativas no Parque Estadual da Serra do Mar. Assim, gradualmente, o município passou a ser estudado como caso de sucesso em área industrial ativa.
O reconhecimento mundial veio durante a Conferência da Eco-92, no Rio de Janeiro, quando a cidade foi aclamada como exemplo de recuperação ambiental e, posteriormente, na Rio+20, em 2012, já como modelo de sustentabilidade.
Cubatão demonstrou que crises ambientais podem se transformar em marcos de transformação institucional”, resume Sergio Willians.
A história ambiental da cidade oferece importantes aprendizados. Entre eles, destaca-se a constatação de que crescimento econômico e responsabilidade ambiental não podem ser tratados como agendas separadas.