Primeiras ocas estão quase prontas na reserva do rio silveira

Projeto inédito de moradias indígenas prevê 59 unidades que serão concluídas até o fim do ano

Da Redação
Publicado em 28/10/2019, às 11h48 - Atualizado em 26/08/2020, às 22h13

- Pedro Rezende


Os 264 índios que moram na Reserva do Rio Silveira, em Boraceia, divisa entre Bertioga e São Sebastião, poderão contar, até o fim do ano, com moradias especiais que garantirão melhor qualidade de vida, além de estarem integradas às características da cultura tupi-guarani. As primeiras ocas do programa de Moradia Indígena estão praticamente prontas e falta apenas concluir as obras de saneamento básico para que sejam ocupadas.

A reserva contará com 59 unidades previstas no projeto, considerado pioneiro no Brasil e lançado pelo governo do estado em 14 de janeiro deste ano. As ocas estão sendo erguidas nos cinco aldeamentos espalhados pelos 948 hectares da reserva, nos mesmos locais onde ficam as atuais cabanas de pau-a-pique e cobertas de sapé. O projeto começou a ser elaborado em 1988 pela comunidade guarani, junto com a arquiteta da prefeitura de São Sebastião, Fernanda Palumbo, que se incumbiu de colocar no papel as ideias apresentadas pelos índios.

Além da prefeitura, a iniciativa envolve parceria com o governo do estado de São Paulo, por intermédio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), e Fundação Nacional do Índio (Funai). As obras estão a cargo da Vemax Construtora Ltda., que venceu a concorrência pública para execução dos serviços orçados em RS 1 milhão, sendo que a prefeitura arcará com R$ 280 mil. Inicialmente, eram previstas apenas 50 ocas, mas a ampliação foi necessária para atender o crescimento populacional da reserva.



As casas têm entre 40m² e 60m² e contam com três repartições: sala para reuniões, quarto e cozinha. O banheiro foi projetado com a porta para fora, a pedido dos índios, e há uma varanda para o convívio familiar. Todas as unidades terão água, luz e fossas sépticas para tratamento adequado dos efluentes. Segundo Márcio Alvim do Nascimento, representante da Funai na região, “dar melhores condições de vida é resgatar a dignidade da população indígena".

Por uma terra sem males 

O lema adotado pela Campanha da Fraternidade deste ano, que tem como tema Os Povos Indígenas, reflete a busca incessante do povo guarani que ainda preserva suas tradições e cultura nos cantos, danças e rituais sagrados, reverenciando a natureza e o deus Tupé. Na reserva, as crianças se reúnem todas as noites com suas famílias na Casa de Reza, onde participam de orações com o pajé, o líder espiritual da aldeia.



As festas religiosas são mantidas, como a que acontece, anualmente, entre 9 e 10 de janeiro, quando as crianças que nasceram no ano anterior são “batizadas”, ou seja, recebem a denominação tupi-guarani.

É um ritual especial envolvendo o pajé e a família, pois o nome vai dirigir os destinos dessa criança pelo resto de sua vida. Para o guarani, o sentido da existência está na crença da travessia para uma Terra Sem Males.