Da Redação
Publicado em 17/07/2019, às 06h58 - Atualizado em 26/08/2020, às 22h11
Numa casinha pequena e simples de madeira, localizada na rua da Saudade, no centro de Bertioga, mora a história viva do povo caiçara originário dessas terras e responsável pelo início do município. Hoje, com problemas de saúde e andando com dificuldade, Maria Luiza Josefa de Campos, que já foi proprietária de muitas terras em Bertioga, vive modestamente num pequeno espaço ao lado de seus três filhos (três faleceram); 20 netos; 40 bisnetos; e seis tataranetos. Ela conta, com saudades, suas memórias sobre um tempo em que as dificuldades eram inúmeras, mas se vivia com tranquilidade e segurança. Quem ajuda no relato é sua filha Nilza Pinto Costa, de 61 anos, para quem a idade da própria mãe é uma incógnita. “Faço aniversário em 26 de julho", diz dona Maria, que não lembra o ano em que nasceu. Todos dizem que ela completará 95 anos, mas muitos garantem que passa dessa idade.
Como saber? Difícil! Seu único documento é a certidão de casamento. Os demais ficaram no cartório de São Sebastião, onde nasceu. Até os 17 anos, viveu com a família em Paúba, até conhecer Nestor Pinto Florêncio de Campos, nascido em Bertioga em 1893 e falecido em 1951.
Após se casar, veio morar em Bertioga com a família do marido, que mantinha uma mercearia, herança de seu avô, onde hoje é um posto de gasolina. Para abastecer seu comércio, ele enfrentava mais de duas horas numa barca até Santos ou horas em alto mar até chegar a São Sebastião. Isso quando não resolvia fazer o caminho, com dona Maria, a pé, levando de dois a três dias para chegar ao município vizinho.
Não tinha estrada. “Era um caminho no meio da mata, mas não tinha perigo; todos se conheciam e era seguro", lembra dona Maria, que criou seus filhos em Bertioga sem água, luz ou qualquer outra comodidade e com uma alimentação típica caiçara que não dispensava mandioca, batata, farinha, cará e peixe. A iluminação ficava a cargo de um lampião de querosene e, para conseguir água, Nilza recorda que, duas vezes por dia, ia buscar o precioso líquido numa bica localizada na Prainha Branca. "A luz só chegou a Bertioga quando minha filha já tinha 14 anos", diz Nilza, que teve seus filhos em casa.
Revolução - Dona Maria lembra-se da Revolução de 1932 e do medo que envolvia a pequena comunidade que vivia em Bertioga, protegida pelos soldados que se abrigavam na Fortaleza para defender o povoado. Quando a situação demonstrava perigo, as pessoas corriam para os barracões de zinco que ocupavam o espaço onde hoje é a sede da prefeitura. Elas deixavam o local só quando os tiros cessavam. Mas havia também diversão numa cidade pacata, com seus três hotéis, que recebiam visitantes recepcionados por uma charrete, e que serviam de local de festas como bailes de carnaval. "Saíamos em blocos e dançávamos nas ruas e nos hotéis", conta Nilza, lembrando, ainda, as festas de São João da Barra, em 24 de junho, e as brincadeiras de roda dos jovens que adoravam as praias, totalmente desertas e despoluídas.
Poder do Sol - Dona Maria nunca aprendeu a escrever e sempre tirou seus ensinamentos da própria natureza, que lhe dava as plantas como remédio e curava seus males. Membro da Assembleia de Deus há 52 anos, ela acredita em Deus e no santo Sol, como faz questão de frisar. "Me tratei com o sol. Pegava água e deixava num copo das 6 da manha às 6 da noite. Depois bebia aquela água", conta dona Maria, que diz que se curou de reumatismo e problemas renais com a água energizada pelo sol.
Hoje, apesar de rodeada por amigos e familiares, ressente-se de não andar sozinha - ela se arrasta segurando uma cadeira, e de não poder mais fazer os deliciosos doces que lhe renderam bom um bom dinheiro, depois que teve que trabalhar para sustentar a família após a morte do marido. Dona Maria sente falta da amizade e da união que existiam antes. “Éramos uma só família. Hoje, tem muita gente estranha", diz preocupada com a segurança das crianças. "Triste de quem fica", declara dona Maria que, depois de tudo o que passou, dá a receita para os mais jovens enfrentarem a vida: “É preciso ter fé em Deus e trabalhar bastante". Ela lembra a força de sua raça ao declarar: “O caiçara não tem medo de nada.”