Da Redação
Publicado em 17/07/2019, às 07h19 - Atualizado em 26/08/2020, às 22h11
Rodeada por quadros que têm como tema principal o mar e os peixes, ela passa os dias retratando a natureza, tendo Bertioga como fonte de inspiração, embora seus trabalhos nunca tenham sido divulgados ou expostos no município. São inúmeros os poemas que escreveu sobre essa cidade que a encanta desde que tinha cinco anos e vinha passear com o avô pela região.
Descendente de família de bandeirantes, Ada Orzina de Oliveira Gerger dá, aos 82 anos, sua contribuição cultural à cidade, embora anonimamente. Ela mostra seus trabalhos ao Grupo Vivência da Terceira Idade, do qual participa desde sua fundação há dois anos. Quando não está pintando em casa, encena sua própria peça A Última Vítima, com o grupo de teatro da terceira idade, às terças-feiras, ou participa do coral, nas quintas.
Sempre em constante atividade, Ada Orzini também tem muita história para contar, como os horrores da guerra que presenciou de perto, durante o tempo em que ficou retida na Alemanha, entre 1939 e 1947, com seu marido Rudolf Anton Gerger e a filha Anneliese Regina Gerger, com quem vive atualmente. Ada, que foi de férias para a Alemanha, em 1939, para conhecer a família do marido, foi surpreendida pela guerra e acabou enfrentando o nazismo. Ela vivenciou as atrocidades cometidas por Adolf Hitler, que chegou a conhecer pessoalmente, e sofreu as pressões daquela época. A experiência resultou no único livro de sua vida, Trincheiras Caseiras, publicado em 1982, pela editora Verbo Divino.
Ela conta que, depois de retornar ao Brasil, seu marido ficou com medo de que o livro fosse publicado, temendo represálias. Mesmo assim, Ada insistiu em relatar os fatos, apesar das ameaças que sofreu de neonazistas. Hoje, ela lembra seu passado, com saudades, mas aposta no futuro e no seu trabalho em Bertioga
Afinal foi aqui que, em outubro do ano passado, Ada Orzina voltou a pintar, após ter feito seu último quadro em 1970. Autodidata desde os 18 anos, entrou para a Faculdade de Belas Artes de São Paulo aos 40 anos, para aprender a técnica dessa arte que desenvolvia desde que se formou na Escola Caetano de Campos, em São Paulo. Continuou pintando, mesmo após ter-se casado aos 21 anos, e sempre esteve à frente de seu tempo, discutindo temas polêmicos como o machismo, por exemplo, numa época em que o assunto era tabú, lembra sua filha Anneliese.
A ligação com Bertioga vem desde a época em que morava com o avô em Caieiras, interior de São Paulo, que a trazia para passear após enfrentar as 2h30 de barca de Santos até Bertioga. A artista, que também procurou conscientizar seus amigos para a importância da emancipação do município, fez seu trabalho para que esse sonho se tornasse realidade
Condenando qualquer ato que cerceie a liberdade, ela diz: "Bertioga tem que andar pelos próprios pés. Pode tropeçar, cair, mas andar sozinha. Pode errar, mas deve ter esperança sempre. Tenho esperança em Bertioga e na sua gente boa", comenta Ada, que já teve seu trabalho reconhecido com prêmios em 1985. Nessa época, ficou em 2° lugar com o conto infantil Sabiá Laranjeira e o Tico Tico Rei, durante concurso promovido pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente e Secretaria de Educação do Estado.
Em Bertioga, ela participou da mostra em homenagem ao poeta Vicente de Carvalho, promovida pelo Sesc Bertioga em 1994, vencendo o concurso de melhor conto. Atualmente, trabalha no 19º quadro desde que voltou a pintar e está à espera de obter uma chance para mostrar seus trabalhos através de uma exposição, que seria a primeira, na cidade. Tendo a natureza como inspiração, Ada afirma que "Deus é a natureza" e adora o mar. Ele é vivo e me fascina, declara.