O que aprendemos com 'A Redoma de Vidro', de Sylvia Plath

A protagonista de 'A Redoma de Vidro', revela um dos principais sintomas da juventude contemporânea: a paralisia diante das escolhas

Francisco Neto
Publicado em 18/11/2025, às 15h29

- Freepik


Quando li o romance A Redoma de Vidro, da escritora norte-americana Sylvia Plath, soube que estava diante de uma obra que, embora publicada em 1963, carrega uma mensagem poderosa para os habitantes deste novo mundo do século XXI, mundo diferente de tudo o que já se viu nos últimos dois milênios da humanidade.

Segundo o psicanalista francês Jacques Lacan, os artistas sempre sabem primeiro e, neste sentido, podemos dizer que Sylvia Plath já antecipava um dos principais sintomas da contemporaneidade: a dúvida paralisante. Trata-se de impasse tão conhecido daqueles que vivem constantemente sob o risco de escolher, cuja única certeza é a de que não há garantia alguma para qualquer decisão.

O horror da escolha: a figueira e os frutos perdidos

É famosa a metáfora em que a protagonista, Esther Greenwood, se imagina debaixo de uma figueira carregada de figos. Ela está morta de fome, mas é incapaz de estender a mão e colher um fruto sequer, simplesmente porque não consegue decidir qual figo quer. Escolher um significa abrir mão de todos os demais.



Presa à indecisão paralisante, ela assiste a todos os figos caírem murchos e podres aos seus pés. Para Esther, cada figo representa um desejo, uma opção. Frente ao horror da decisão, ela sucumbe a uma terrível ansiedade e, depois, a uma severa depressão.

O peso líquido do novo mundo: quem atiraria a primeira pedra?

Hoje, também, em um mundo líquido, como o chamou Zygmunt Bauman, as novas gerações se veem perdidas e oprimidas frente à incerteza brutal que se espalha por todas as áreas da vida.

Até pouco tempo, as balizas estavam dadas quanto às profissões que eram garantia de sucesso e reconhecimento social, quanto ao que se esperava de um homem, de uma mulher, de um filho, dos pais.



Hoje, como diz o psicanalista Jorge Forbes, não se nasce, não se educa, não se ama e não se morre mais como antigamente. Vivemos no mesmo planeta, mas o mundo é completamente outro, é o que ele chamou de TerraDois.

Esther, nesse sentido, não é apenas uma personagem; ela é como uma conhecida nossa, talvez um membro da família, no máximo uma vizinha. Quem atiraria a primeira pedra?

A busca humana, demasiado humana, pelo antídoto exterior

Mergulhada na angústia, e já a caminho de uma depressão, Esther busca a chave para o enigma de sua existência em um outro. Ela vai ao psiquiatra, o Dr. Gordon, esperando que ele a explique as razões de seu mal-estar: por que não comia, não dormia, não conseguia ler e estava tão assustada, como se estivesse sendo enfiada cada vez mais fundo em um saco escuro, sem ar e sem saída.



Sua busca por respostas se estende a uma sucessão de médicos, a colegas de trabalho, a parceiros amorosos e à própria mãe. Humano, demasiado humano, como diria o filósofo Friedrich Nietzsche.

A dúvida cessa na paixão: a bússola do desejo

Porém, embora todos nós estejamos irremediavelmente alienados ao olhar e ao desejo dos outros, há um momento crucial e necessário para lidarmos com a oferta de opções que se apresenta diante de nós todos os dias.

Jorge Forbes é cirúrgico ao dizer: a dúvida somente para na paixão. Para não se afogar no lamaçal da dúvida paralisante, é necessário olhar para o próprio desejo: o que me move, o que me apaixona?



Até mais ou menos as décadas de 1950-60, a gente queria mais do que podia, a sociedade era muito restritiva. Hoje, como explica Forbes, podemos mais do que queremos. Experimentamos uma liberdade de escolha com a qual temos muita dificuldade de lidar. Toda decisão, portanto, é arriscada, porque não há garantia. O peso da escolha, contudo, é contrabalanceado com o selo da paixão.

É necessário coragem, mas é o único caminho para escapar da fome do desejo. Que possamos exercitar a nossa capacidade de desejar e se apaixonar e, ao fazer isso, ajudar as novas gerações a suportar os riscos de decidir e a apostar no desejo, fora do qual não há salvação.



Leia também

Literatura Hoje estreia no portal com reflexões sobre a vida por meio de livros


Autoras lançam romance juvenil 'O mundo pela metade' em shopping de Santos