No deserto do desejo: leitura do romance 'A Pediatra', de Andréa Del Fuego

Uma mulher livre e pragmática que, aos poucos, se rende aos encantos de Bruninho, funciona como uma metáfora do deserto do desejo na contemporaneidade

Francisco Neto
Publicado em 04/09/2026, às 15h37

'A Pediatra' é o segundo romance da escritora paulistana Andréa Del Fuego - Pixabay


A Pediatra é o segundo romance da escritora paulistana Andréa Del Fuego, publicado em 2021 pela editora Companhia das Letras, e finalista do prêmio Jabuti no ano seguinte. Composto por 55 capítulos curtos, a narrativa não alcança o umbral das 200 páginas — o que não quer dizer, de jeito nenhum, que seja uma obra desprovida de densidade ou dignidade literária.

Pelo contrário. Com uma linguagem enxuta, precisa e sem ornamentos desnecessários, a voz em primeira pessoa nos lança no mundo prosaico de Cecília, uma mulher dona de si e pragmática, porém um pouco desencantada.

Nesse sentido, a escolha estilística de Del Fuego opera como um objetivo correlato do universo de sua protagonista: uma pediatra neonatal que metaforiza uma geração que conquistou liberdades inéditas, mas acabou se perdendo no deserto do desejo.



Uma mulher livre e pragmática

Cecília não escolheu a medicina por vocação, paixão nem idealismo. A decisão se deu por razões puramente práticas: seu pai era médico e ela precisava de um rumo profissional. Dentro da área, optou pela pediatria neonatal por conveniência, garantindo um consultório no mesmo prédio do pai, que lhe enviaria a clientela.

Na rotina hospitalar, estabeleceu parceria com a obstetra Maria Amélia, delineando sua preferência – ainda que não exclusiva, por partos cesáreos — afinal, o parto normal carrega a insígnia do imponderável, enquanto a cirurgia permite trabalhar com hora marcada e maior controle dos acontecimentos.

A tessitura prática de sua personalidade se revela sem pudores logo nas primeiras páginas, ao dar notícias de um casamento sem afeto que se desfaz sem qualquer alarde – marido é depressivo e ela sofre de fibromialgia.



O leitor assiste ao seu divórcio sem notar qualquer abalo emocional capaz de arranhar sua rotina de trabalho. O mesmo pragmatismo rege o caso amoroso que ela mantém com Celso, um representante comercial casado, que se mudou de Florianópolis para São Paulo.

Quando a mulher de Celso, Cacá, engravida, é Cecília quem atua como pediatra no parto do primeiro filho do casal, o pequeno Bruninho. É a partir desse nascimento que o mundo de Cecília começa a girar de ponta-cabeça, ainda que ela não o saiba: aos poucos, a médica desenvolve pelo menino uma afeição perigosa que ultrapassará barreiras éticas e legais.

No deserto do desejo

Em O Mal-estar da Pós-modernidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman debruça-se sobre o delicado imbricamento entre liberdade e segurança.



Dialogando com o clássico ensaio freudiano O Mal-estar na Civilização, de 1930, Bauman recorda que o sujeito moderno aceitou renunciar a uma parcela da realização de seus desejos em troca de segurança e convívio social.

Na contemporaneidade, contudo, a equação se inverteu: exige-se o máximo de liberdade, ainda que ao custo da insegurança brutal. Acontece que o exercício dessa liberdade que, claro, deve mesmo ser preservada, não tem sido acompanhada, pari passu, pela fruição do desejo.

No caso de Cecília, vemos uma mulher plenamente dona de suas escolhas, de si e do seu destino, mas que age quase sempre sob o signo da necessidade funcional. Até mesmo o sexo em sua vida ocorre por conveniência e cálculo, o que não é, em si, um problema, senão quando se torna a regra, e não exceção.



Sua existência gira em torno do conforto, da ausência de incômodos e da praticidade — uma paisagem estéril que podemos chamar de deserto do desejo.

A chegada de Bruninho, porém, introduz uma quebra em sua vida confortável e segura. Cecília, que nunca quis e continua declarando não querer ser mãe, passa a vivenciar um amor de feições maternais desmedidas.

Ela faz tocaia na porta da escola do menino, oferece caronas, leva-o para sua própria casa como uma extensão da rede de apoio para os pais, e cancela compromissos médicos para se dedicar à criança.



O desfecho é imprevisível e deixa o leitor, a leitora, estupefato(a): ela coloca o menino no carro, abastece no primeiro posto e toma a estrada em direção ao litoral. Sequestro? Delírio? Trata-se do irrompimento do desejo selvagem em uma vida que havia se acostumado à lucidez.

O desbussolamento do desejo

O psicanalista Jorge Forbes costuma pontuar que vivemos em uma época na qual podemos muito mais do que desejamos. Quando tudo é permitido e as escolhas se avolumam no atacado e no varejo, o próprio ato de desejar pode se paralisar, buscando um alvo, assim como encontrar uma agulha no palheiro.

Experimentamos, assim, o paradoxo da liberdade: Cecília viveu por anos no mornidão da conveniência, inteiramente livre para querer o que quisesse, mas sem desejar verdadeiramente nada.



Quando a paixão por Bruninho finalmente a acentua, o desejo não surge como um orientador em meio a tantas possibilidades, mas como cegueira e impulso. Toda a objetividade e o controle da médica caem por terra, deixando-a desorientada.

Ao raptar o filho do amante, ela ignora os riscos, a carreira e as penalidades da lei. Como nos ensina a Psicanálise, a dúvida só para na paixão — e, ao se apaixonar pelo menino, Cecília aceita o preço a pagar com a própria liberdade.

Como já dizia Jacques Lacan, os artistas sempre sabem primeiro, embora nem sempre saibam que sabem. Em A Pediatra, Andréa Del Fuego constrói uma metáfora interessante do nosso tempo: uma época em que, empanturrados de tanto poder e com imensa liberdade para desejar e fazer, corremos o risco do fastio, errantes pelo deserto do próprio desejo.



Fica a dica de uma leitura potente e indispensável para pensar o Brasil e o sujeito contemporâneo.