Itamar Vieira Júnior e a via régia do inconsciente: os sonhos ainda são importantes?

Análise do novo romance do autor baiano mostra por que o sonho e a aposta na palavra são a chave para enfrentar o pesadelo na sociedade insone

Francisco Neto
Publicado em 02/12/2025, às 14h31

Novo livro do autor, Coração Sem Medo, lançado em outubro deste ano, traz novas reflexões - Freepik


Os sonhos são fundamentais para a compreensão do passado e para a abertura de
futuros possíveis, tanto das pessoas quanto das sociedades. Este é um dos grandes
aprendizados que ganhamos com a leitura de Coração Sem Medo, o novo romance de
Itamar Vieira Júnior, talvez o maior autor da literatura brasileira contemporânea.

Essa linha interpretativa se abre a partir do próprio título do romance: Coração Sem Medo — qualificativo que Santa Rita Pescadeira, por meio de um sonho, emprestou a Rita Preta, protagonista desse terceiro romance do escritor baiano, lançado em 13 de outubro de
2025.

Sigmund Freud, pai da Psicanálise, no início do século XX elevou os sonhos à dignidade de via régia do inconsciente, ou seja, um dos modos privilegiados de manifestação do desejo.



Ele dizia que realizamos, por meio dos sonhos noturnos, desejos que não podemos ou não queremos concretizar na vida real. Por isso, a experiência de sonhar seria prazerosa, funcionando como um bônus para manter o sonhador dormindo. Acontece que, para muitas pessoas, dormir é uma experiência dolorosa, configurando-se em pesadelo.

O pesadelo, explica Freud em Além do Princípio de Prazer, é o retorno de uma cena traumática que o aparelho psíquico, por meio do sonho, tenta elaborar. Esses dois tipos de sonhos estão presentes no livro, e selecionamos dois exemplos da vida de Rita Preta para mostrar como eles interpretam um traço muito importante da sociedade brasileira contemporânea: a insônia e o pesadelo.

Os sonhos com os gêmeos

Rita Preta é filha de Mazé, neta de Carmelita e irmã mais velha de dois gêmeos, cujos
nomes não são revelados no romance. Quando Mazé parte para a capital, os três netos
ficam morando com Carmelita, no interior, em uma fazenda cortada por um rio. Um dia,
em momento de cheia, Rita e os gêmeos são engolidos pelas águas.



Rita consegue se salvar, mas os irmãos desaparecem para sempre. Traumatizada, passa a ter pesadelos recorrentes, e o último sonho com os gêmeos acontece apenas um ano depois. O narrador conta que, sempre que acordava de um pesadelo, Rita ia ao banheiro e relatava
em voz alta toda a experiência diante do vaso sanitário.

É bonito perceber como a aposta de Rita na palavra — narrar o pesadelo —, aliada ao trabalho do sonho, resultou na elaboração psíquica do trauma, libertando-a da angústia e permitindo-lhe voltar a sonhar prazerosamente.

Os sonhos com Cid

Cid é o filho mais velho de Rita, morto por policiais e com o corpo ocultado. A trama
do romance gira em torno das buscas da protagonista: primeiro pelo paradeiro do filho,
depois pela punição dos responsáveis e pela localização do corpo, desejando realizar o
rito funerário e o luto.



São numerosos os relatos dos sonhos de Rita com Cid, sempre angustiantes. Porém, treze anos depois, quando os responsáveis pelo desaparecimento são levados à justiça e ela tem a possibilidade de conhecer seus rostos — mas não de reaver o corpo —, Rita sonha algo decisivo.

Ela é capturada por pessoas desconhecidas, que julga serem do mesmo grupo dos algozes do filho. Colocam-lhe um capuz e a levam para um lugar incerto. Ao acordar, encontra uma cova aberta e um corpo coberto por um lençol manchado de sangue. É Cid.

Pela primeira vez, Rita consegue dar lugar a toda a emoção que até então não
conseguia expressar. Aquele é um sonho de despedida, um modo de dizer adeus. Ela afirma, depois, estar pacificada.



Rita participava de encontros de mães com filhos desaparecidos, denunciava na imprensa e fazia muitos movimentos que, junto ao trabalho dos sonhos, lhe permitiram encontrar uma saída para se despedir do primogênito e continuar vivendo – com muitos bons encontros e surpresas que, apenas quem ler o livro, vai poder usufruir. Recomendo.

A sociedade contemporânea é insone e sofre com pesadelos

Na sociedade contemporânea, o sonho tem encolhido. Isso ocorre por várias razões.
Diante do muito que fazer — como trabalhar, por exemplo —, muitos consideram desperdício passar horas dormindo.

Há quem diga que tempo é dinheiro; logo, dormir seria perder dinheiro. Outra razão é a escassez de recursos psíquicos que a sociedade, as famílias e as pessoas dispõem para enfrentar os desafios cotidianos. Até pouco tempo atrás, quando alguém morria, familiares, amigos e vizinhos se reuniam para lamentar.



Esse rito ajudava os enlutados na dura tarefa de dar adeus. Durante um funeral, uma casa particular tornava-se temporariamente espaço público: até desconhecidos que passavam pela rua paravam e participavam. Hoje, a arquitetura do mundo mudou, e rituais como esses estão desaparecendo.

O resultado é que as pessoas na contemporaneidade, como explica o psiquiatra e psicanalista Joel Birman, em O Sujeito na Contemporaneidade, estão cada vez mais traumatizadas.

Temos, então, uma combinação que favorece o perfil de uma sociedade
insone, como caracterizou o neurocientista Sidarta Ribeiro em seu livro O Oráculo da
Noite. As pessoas dormem pouco e, quando dormem, em vez de terem sonhos
prazerosos, têm pesadelos. Dormir deixa de ser uma experiência acolhedora e se torna
tormento.



Coração Sem Medo traz, nesse sentido, uma mensagem poderosa: é preciso investir na
palavra e acreditar nos sonhos. Fazer análise é um recurso valioso, mas também é
necessário multiplicar espaços em que as pessoas possam falar de modo franco e
honesto sobre seus sofrimentos.

Hoje proliferam clubes de leitura, mas esses espaços precisam se diversificar: na família, na escola, nos templos religiosos e locais de trabalho. Onde houver ser humano, é preciso abrir espaço para falar.

É urgente restaurar a confiança no poder dos sonhos, como Freud mostrou no início do
século XX. Como nos ensina Rita Preta, os sonhos transformam nossa relação com o passado, ajudam a lidar com o presente e abrem perspectivas para futuros melhores. Fica a dica.





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