Grande Sertão: Veredas completa 70 anos

Neste texto, apresento três recortes do romance, como convite à leitura integral da obra, uma das maiores referências da literatura brasileira em prosa

Francisco Neto
Publicado em 04/05/2026, às 11h25

Grande Sertão: Veredas completa 70 anos - Foto de arquivo pessoal com uso de IA


Grande Sertão: Veredas, único romance de João Guimarães Rosa, foi publicado em maio de 1956, logo após outra publicação sua, em janeiro do mesmo ano, Corpo de Baile, e dez anos depois da estreia meteórica do escritor de Cordisburgo, Minas Gerais, no meio literário brasileiro, com Sagarana, conforme comenta um de seus maiores críticos, Paulo Rónai (RÓNAI, P. Rosa e Rónai: o universo de Guimarães Rosa por Paulo Rónai, seu maior decifrador. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2020).

Embora considerado uma das maiores realizações da literatura brasileira, é possível que a obra seja mais falada e comentada do que efetivamente lida, destino comum de muitos clássicos brasileiros e universais. Por isso, neste texto, não farei comentários sobre Grande Sertão: Veredas, mas vou recortar, na íntegra, três momentos do romance (ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. [Biblioteca do Estudante]), selecionados de minha memória afetiva, como flashes que poderia facilmente acessar durante uma conversa. Trata-se de um convite para que o(a) leitor(a) vá diretamente ao livro e tome coragem para a leitura integral, que muito vale a pena. Isso garanto.

A história de Maria Mutema
Morreu o marido de Maria Mutema e, depois disso, ela se tornou uma pessoa muito religiosa, indo à igreja todos os dias, confessando-se a cada três dias, ao Padre Pontes que, de tanto ouvi-la, foi entristecendo, o que também resultou em sua morte. Anos depois, chega ao arraial dois missionários, e um deles incita Maria Mutema a uma confissão.



Recorte 1
E Maria Mutema, sozinha em pé, torta magra de preto, deu um gemido de lágrimas e exclamação, berro de corpo que faca estraçalha. Pediu perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que da dura bondade de Deus baixasse nela, em dôres de urgência, antes de qualquer hora de nossa morte. E rompeu fala, por entre prantos ali mesmo, a fim de perdão de todos também, se confessava. Confissão edital, consoantemente, para tremer exemplo, raio em pesadelo de quem ouvia, público, que rasgava gastura, como porque avessava a ordem das coisas e o quieto comum do viver transtornava. Ao que ela, onça monstra, tinha matado o marido – e que ela era cobra, bicho imundo, sobrado do pôdre de todos os estercos. Que tinha matado o marido, aquela noite, sem motivo nenhum, sem malfeito dele nenhum, causa nenhuma -; por que, nem sabia. Matou – enquanto ele estava dormindo – assim despejou no buraquinho do ouvido dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido. O marido passou, lá o que diz – do oco para o ocão – do sono para a morte, e lesão no buraco do ouvido dele ninguém não foi ver, não se notou. E, depois, por enjoar do Padre Ponte, também sem ter queixa nem razão, amargável mentiu, no confessionário dele: disse, afirmou que tinha matado o marido por causa dele, Padre Ponte – porque dele gostava em fogo de amores, e queria ser concubina amásia...Tudo era mentira, ela não queria nem gostava. Mas, com ver o padre em justa zanga, ela disso tomou gosto, e era um prazer de cão, que aumentava de cada vez, pelo que ele não estava em poder de se defender de modo nenhum, era um homem manso, pobre coitado, e padre. Todo o tempo ela vinha em igreja, confirmava o falso, mais declarava – edificar o mal. E daí, até que o Padre Ponte de desgosto adoeceu, e morreu em desespero calado...

Os cavalos incendiados

No sertão, dois grupos rivais lutam: de um lado, o de Zé Bebelo, que inclui Riobaldo e Diadorin; do outro, Hermógenes e seus capangas. Como estratégia de guerra, Hermógenes manda incendiar os cavalos do grupo rival.



Recorte 2

-“A que estão matando os cavalos!...”
Arre e era. Aí lá cheio o curralão, com a boa animalada nossa, os pobres dos cavalos ali presos, tão sadios todos, que não tinham culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus nem justiça de coração, se viravam para judiar e estragar, o rasgável da alma da gente – no vivo dos cavalos, a torto e a direito, fazendo fogo! Ânsias, ver aquilo. Alt’-e-baixos – entendendo, sem saber, que era o destapar do demônio – os cavalos desesperaram em roda, sacolejados esgalopeando, uns saltavam erguidos em chaça, as mãos cascantes, se deitando uns nos outros, retombados no enrolar dum rolo, que reboldeou, batendo com uma porção de cabeças no ar, os pescoços, e as crinas sacudidas esticadas, espinhosas: eles eram só umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho, de raiva – rinchado; e o relincho de medo – curto também, o grave e rouco, como urro de onça, soprando das ventas todas abertas. Curro que giraram, trompando nas cercas, escouceantes, no esparrame, no desembêsto – naquilo tudo a gente viu um não haver de dôidas asas. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo, achatavam no chão, abrindo as mãos, só os queixos ou topetes para cima, numa tremura. Iam caindo, quase todos, e todos; agora, os de tardar no morrer, rinchavam de dôr – o que era um gemido alto, roncando, de uns como se estivessem falando, de outros zunido estrito nos dentes, ou saído com custo, aquele rincho não respirava, o bicho largando as forças, vinha de apertos, de sufocados.

O sepultamento de Diadorim



Grande Sertão: Veredas tem como núcleo amoroso os jagunços Riobaldo e Diadorim, amor que não se concretiza, de fato, em relacionamento físico, uma vez que, no universo do romance, se trata de um amor impossível. Diadorim é filho de Joca Ramiro, o chefe dos jagunços durante boa parte da narrativa. Em ato de traição, Hermógenes mata Joca Ramiro, tornando-se inimigo mortal de Diadorim que, a partir de então, busca oportunidade de vingança, desembocando no confronto em que os dois, quase ao final da obra, morrem. A esposa de Hermógenes, conhecendo o amor entre Diadorim e Riobaldo, e também que, na verdade, Diadorim não era homem, mas mulher, cuida que Riobaldo veja o corpo nú de Diadorim – “corpo de mulher, moça perfeita... Estarreci.” Riobaldo, sem saber por qual nome chamá-la, exclamou doloroso: -“Meu amor!...”

Recorte 3

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.
A mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou de uma trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas...-de-nossa-senhora. Só faltou – ah!- a pedra-de-ametista, tanto trazida...O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: - “Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba..” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e a sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.
Ela tinha amor em mim.