Por que a saída dos 23 votantes ao prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil deveria interessar a você?
Francisco Neto
Publicado em 21/03/2026, às 13h19
Em carta divulgada no dia 11 de março de 2026, os 23 especialistas que compõem o painel de votantes ao prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil anunciaram a retirada coletiva, deixando de fazer parte da Fundação. Essa notícia deixou a comunidade interessada na literatura infantil e juvenil brasileira bastante preocupada, o que inclui autores, ilustradores, editores, críticos, professores, bibliotecários, mediadores e, claro, nós, que somos leitores, pais e cuidadores de crianças e jovens.
No dia 14 de março, depois de divulgada a carta do corpo votante, o Grupo de Trabalho de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil, que faz parte da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística – Anpoll -, composto por 39 pesquisadores do campo, publicaram moção de apoio aos votantes e à defesa da FNLIJ. Por sua vez, no dia 16 de março, o Conselho do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, Câmpus de Assis, publicou moção sobre a situação institucional da Fundação, afirmando que tem acompanhado atentamente as informações divulgadas a respeito tanto da situação da Fundação quanto da decisão dos votantes pela retirada.
Para o GT, os votantes são os intelectuais responsáveis pela legitimidade crítica, ética e simbólica do prêmio, cuja existência remonta a 1974 com sua primeira edição, tornando-se uma referência crítica fundamental para o campo editorial e educacional brasileiro. Para os pesquisadores do GT, a impossibilidade de realização de premiações em 2026 impacta diversos campos, o da crítica literária, o da produção literária e de sua socialização e, em especial, o do acesso de leitores e mediadores diversos à literatura infantil e juvenil dotada de valor estético.
O fato é que os votantes do prêmio da FNLIJ são todos especialistas, o que eleva a dignidade da premiação ao status de referência máxima para toda a cadeia de produção do livro infantil e juvenil em termos de qualidade literária. A ênfase recai na qualidade das obras destinadas a crianças e jovens que, no vazio deixado pela premiação, corre o risco de ser ocupado pelas produções internacionais, nem sempre dotadas de valor estético, como me explicou por ligação a Drª Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira, coordenadora do GT de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil da Anpoll.
A premiação da FNLIJ conta, hoje, com 18 categorias distintas, contemplando o trabalho realizado por escritores, ilustradores, editores, tradutores, críticos etc., criando anualmente expectativas para toda a sociedade comparável ao prêmio Jabuti, o que pode ser afirmado sem exagero algum. Como explicam os doutores João Luís Ceccantini e Thiago Alves Valente, em seu texto Prêmios Literários na Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, a premiação da FNLIJ é a única exclusivamente voltada à literatura para crianças e jovens. É, também, a que tem maior peso nesse nicho no Brasil.
Como se pode ver, a existência da premiação nivela por cima as exigências quanto à qualidade da produção literária voltada às crianças e aos jovens. Isso incentiva toda a cadeia produtiva a alcançar a excelência, em busca do tão cobiçado e disputado Selo Altamente Recomendável. Trata-se, por um lado, da valorização dessa literatura específica como também de gesto à sociedade de que pode confiar na qualidade da produção premiada. Com a ausência dessa premiação, de onde virá essa garantia, para sinalizar aos pais e professores que se importam com a qualidade da literatura produzida para crianças e jovens que estão sob sua tutela?
A carta do Conselho de Programa de Pós-Graduação em Letras da Unesp se encerra com um desejo que é, também, o nosso, dada a relevância tanto da FNLIJ quanto de sua premiação. O Conselho expressa o desejo de que as questões atualmente em discussão possam encontrar bons encaminhamentos que favoreçam a continuidade das atividades, a memória e a relevância pública das iniciativas voltadas à promoção da leitura e da literatura para crianças e jovens.
Porém, ao conversar com a Drª Ana Crelia Penha Dias, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e votante do prêmio da FNLIJ, não há expectativa no horizonte próximo para resolução da crise institucional na qual se encontra a Fundação, como também para retorno dos votantes. Como afirmam na Carta, a retirada coletiva dos votantes configura um gesto extremo, exatamente por não se vislumbrar outra opção para uma situação que se arrasta desde 2018.
Uma coisa é certa – a ausência do prêmio da FNLIJ configura um grave risco à produção e circulação da literatura infantil e juvenil de qualidade. O modo como uma sociedade trata a literatura voltada ao público de crianças e jovens é um indicativo do quanto se importa com essas pessoas. A pergunta que fica é: será que o Brasil se importa?
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