O livro 'Lavoura Arcaica', de Raduan Nassar, revela que, embora seja uma instituição antiga, a família permanece como o melhor espaço de humanização do ser humano
Francisco Neto
Publicado em 18/12/2025, às 13h58
O romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, publicado em 1975, completa neste mês de dezembro cinquenta anos de seu lançamento. Reconhecido de imediato pela crítica e pelo público como grande obra literária, continua encantando leitores e demonstrando seu potencial de nos ajudar a compreender melhor o ser humano e a sociedade, como diria o crítico Antonio Cândido.
Em comemoração do jubileu dessa obra fundamental da literatura brasileira, decidi reler Lavoura Arcaica a partir de seu tema central, que permanece como pedra de toque na sociedade contemporânea: a família como berço da humanidade do ser humano. Mas afinal, ela está mesmo em crise?
Lavoura Arcaica é um romance envolvente, escrito em prosa poética cuja beleza, por si só, já justifica a leitura, facilmente realizada em duas tardes. Toda a narrativa gira em torno de André e de sua relação conflituosa consigo mesmo e com a família; ou, dito de outro modo, de seu desejo peculiar, cuja expressão afronta diretamente a moral da época, encarnada em sua família, uma célula exemplar do que o contexto ficcional sugere como bons costumes e da tradição.
O pai, Iohána, é uma figura autoritária, o que é diferente de autoridade. A mãe, afetuosa, é a única personagem a quem um nome próprio é negado. Os irmãos são Pedro e Lula; as irmãs, Rosa, Zuleika e Huda, todos submissos ao pai. E há Ana, por quem André nutre uma paixão desmedida, estabelecendo com ela uma relação incestuosa.
Nessa família, assentada no modelo patriarcal, o saldo que André cultiva é um sentimento de culpa atroz e uma imagem profundamente depreciativa de si, como um fruto diferente, uma espécie de ovelha negra, cuja linhagem remontaria ao Caim da narrativa bíblica.
Ele abandona a família rural e vai morar na cidade. Depois, o irmão mais velho, Pedro, mais identificado com o pai, tenta convencê-lo a voltar, alegando sobretudo o sofrimento da mãe e de Ana. Como o filho pródigo da parábola narrada por Jesus, André retorna à casa paterna próximo ao final do romance.
Quando lançado, na década de 1970, o romance foi lido como metáfora do Estado opressor e da busca por liberdade em plena ditadura militar. Também se interpretou a obra como sinal do declínio da família tradicional, em meio às revisões pelas quais passavam as sociedades ocidentais. Todas essas leituras são possíveis. Mas, cinquenta anos depois, permanece a pergunta:
A família não está em crise; ao contrário, entre as instituições modernas, como a Igreja e o Estado, ela foi a que mais se consolidou, defende o filósofo francês Luc Ferry em Famílias, Amo Vocês: Política e Vida Privada na Era da Globalização.
O fenômeno, captado com precisão por Lavoura Arcaica, manifesta-se na reconfiguração do modelo familiar tradicional - pai, mãe e filhos biológicos e legítimos -, que cedeu lugar à multiplicidade de formatos que vemos hoje.
Na família de André, o pai sentava-se à cabeceira da mesa; a mãe e os filhos mais novos, à esquerda; os mais velhos, à direita. Iohána assumia a liderança como provedor e guia moral e espiritual, como indicam seus sermões.
Na sociedade contemporânea, porém, muitos são os modos de se organizar uma família: uma pessoa e seu animal de estimação; avós e netos; tios e sobrinhos; e, muito comum, mães que criam sozinhas seus filhos, como Rita Preta, no romance Coração sem Medo, de Itamar Vieira Júnior.
Essa mudança na arquitetura família também se faz acompanhar de uma virada ética, que sinaliza a passagem do dever ao afeto, embora, é claro, não se possa falar de uma superação total, mas de uma coexistência dinâmica.
A família de André se estruturava na moral do dever, enquanto grande parte das famílias do século XXI se orienta pela moral emocional, conforme interpretação de Gilles Lipovetsky, em Metamorfoses da Cultura Liberal.
Ao rever o irmão Pedro, André diz sentir o peso da família desabando sobre si como um aguaceiro pesado. Logo adiante, porém, refere-se à mesma família como pobre, já desprovida de sua antiga força.
Essa força antiga pode ser lida como o peso da tradição e do dever, herança que ainda orienta muitas famílias, mas que cede cada vez mais espaço aos modelos estruturados pelos laços do afeto, como o amor, que tornam a família contemporânea um espaço de expressão do sagrado.
O sagrado, segundo Luc Ferry, em A Revolução do Amor, é aquilo pelo qual podemos arriscar a própria vida. Ao longo da história, esse lugar foi ocupado por Deus, pela Pátria e até pela Razão. Hoje, porém, o sagrado tornou-se mais pessoal, mais próximo, ganhando corpo e presença física na figura de um ente querido.
Próximo ao final do romance, André afirma que "amar e ser amado era tudo que eu queria." Contudo, pelas diferenças familiares, ele sentia que isso não era possível, que não se encaixava, por representar o mal, o excesso, a rebeldia, tudo aquilo com que o modelo paterno não podia conviver.
Esse continua sendo um dilema, talvez ainda maior, para as famílias neste século. Com a contestação dos grandes modelos, cada família é à sua maneira, e cada indivíduo, em seu interior, reivindica sua singularidade.
Se, por um lado, cada um pode ter a alegria de se sentir respeitado em seu modo único de ser, por outro, cresce a possibilidade de não se sentir compreendido ou amado como gostaria.
O grande desafio da família contemporânea é articular suas diferenças e compreender que o amor pode circular e enlaçar mesmo quando não há plena compreensão. Que o desejo de amar e ser amado possa se realizar na família de todos nós, para além e aquém do dever, da tradição e apesar das diferenças que nos constituem.
E que Lavoura Arcaica continue a encantar e ensinar por mais cinquenta anos.
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