Formação registrada na Baixada Santista tinha aparência de funil, mas análise meteorológica não encontrou condições para confirmar fenômeno
Lenildo Silva
Publicado em 21/09/2026, às 16h47
Uma formação de nuvens com aparência incomum chamou atenção no céu de Cubatão, na Baixada Santista. O formato escuro, alongado e aparentemente circular viralizou nas redes sociais no fim de semana e levantou dúvidas sobre a possibilidade de uma nuvem-funil, fenômeno que pode estar associado à formação de tornados.
Apesar da aparência registrada nas imagens, não há elementos suficientes para confirmar que se tratava de uma nuvem-funil ou do início de um tornado. O climatologista Rodolfo Bonafim analisou registros meteorológicos do período e explicou que a identificação de fenômenos desse tipo exige avaliação conjunta de imagens de radar, satélite e características das nuvens.
Segundo Bonafim, a análise não encontrou, naquele momento, sinais atmosféricos suficientes para sustentar essa conclusão. "A conclusão que eu cheguei é que não dá para afirmar que é uma nuvem funil, mas também não dá para totalmente ser descartado, porque a resolução do radar pode não ter abrangido uma pequena formação, uma microformação muito isolada", explicou.
O climatologista afirmou que havia instabilidade no estado de São Paulo, porém os registros de radar e satélite consultados por ele não mostraram, na região analisada, nuvens com perfil compatível com a formação de tornado.
Para confirmar fenômeno desse tipo, Bonafim explica que é necessário observar, entre outros elementos, o desenvolvimento vertical das nuvens. Quanto mais alto o topo de uma nuvem de tempestade, menor tende a ser sua temperatura, sinal que pode indicar forte desenvolvimento vertical e convecção profunda.
É possível que seja uma cumulonimbus, uma nuvem de tempestade muito bem desenvolvida e, portanto, com aquilo que a gente chama de convecção profunda", explicou ao detalhar quais características precisam ser investigadas.
Nessas condições, segundo o climatologista, podem ocorrer fortes correntes ascendentes e descendentes dentro da tempestade, além de raios, chuva intensa, rajadas de vento e até granizo. A existência dessas características, entretanto, não significa automaticamente que haverá tornado.
A principal hipótese apontada por Bonafim é que a formação registrada seja uma nuvem pannus. Trata-se de uma nuvem acessória que pode aparecer abaixo da base de nuvens associadas a condições de tempo instável.
Provavelmente, pode ter sido uma nuvem pannus [...] que é uma nuvem chamada nuvem acessório, que geralmente fica colada na base da nuvem de tempestade”, afirmou.
A aparência fragmentada e baixa desse tipo de formação pode chamar atenção quando observada a distância. Apenas o formato registrado em fotografia ou vídeo, porém, não basta para determinar que exista rotação ou circulação compatível com uma nuvem-funil.
Não necessariamente. Uma nuvem-funil corresponde a uma formação associada a uma coluna de ar em rotação que se projeta a partir de uma nuvem, mas não alcança o solo. Quando a circulação associada ao fenômeno atinge a superfície, pode caracterizar um tornado.
No episódio registrado na Baixada Santista, Bonafim reforçou a necessidade de cautela. A análise feita por ele não encontrou evidências meteorológicas suficientes para autenticar o registro como nuvem-funil ou início de tornado.
Por isso, embora a imagem possa lembrar esse tipo de fenômeno, a identificação mais prudente, diante das informações disponíveis, é de formação de nuvem com aparência de funil, com a hipótese de pannus apontada pelo climatologista.
No litoral de São Paulo, a passagem do sistema meteorológico que atua sobre o Centro-Sul do país mantém atenção para rajadas de vento fortes nesta segunda-feira (21).
O Inmet emitiu aviso de tempestade que alcança áreas paulistas, com previsão de ventos entre 60km e 100km/h, além de chuva intensa e possibilidade de granizo. A faixa de risco inclui o litoral sul paulista, enquanto as instabilidades associadas ao avanço da frente fria também alcançam outras áreas do estado.
A tendência é de mudança nas condições conforme o sistema avança e a frente fria atravessa São Paulo. Os 100km/h representam o limite previsto pelo aviso e não significam que todas as cidades do litoral registrarão rajadas dessa intensidade.