Conheça como são produzidas e um pouco da história deste símbolo da cidade
Da redação
Publicado em 14/11/2022, às 08h54 - Atualizado às 09h13
Elas nascem gêmeas e pesando entre 80 kg e 100 kg, com 1,1 m de comprimento, por 52 centímetros de largura e sete centímetros de espessura. Nascem quadradas e com um círculo interno. Nascem de um parto demorado, feito em equipe. Nascem frutos da "união" entre areia, pedra, cimento e água, onde vai acrescentada uma estrutura de ferro para ficar "mais forte". O berçário fica em um pequeno espaço na região central de Santos. Quem as vê em várias partes da cidade, mal sabe quão complexa é a criação de um dos símbolos santistas: as icônicas muretas. Um dos últimos locais que está recebendo estas peças é a Praça do Céu, na Vila Progresso.
O armador da Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Seserp) Leonardo Fagundes de Souza, é um dos membros da equipe que faz "nascer" as muretas. Ele conta que cerca de dez peças ficam estocadas "para emergência" em seu local de trabalho, enquanto a produção segue para suprir a demanda.
Leonardo explica que para o "parto" das muretas são acrescentados cimento e areia em uma betoneira, na fase inicial. Depois é acrescida água. Se não há choro no processo, há uma fumaça que sai desta mistura, indicando a produção. Essa massa depois segue para um molde onde, após breve tempo, é acrescida a estrutura de ferro, tornando as peças mais resistentes.
O armador não esconde o orgulho de ajudar a construir uma peça que é símbolo da cidade. "É legal saber que o que fazemos aqui acaba sendo fotografado por santistas e turistas, e vira item de recordação".
A historiadora da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams) Lilliam Tavares conta que, para falar das muretas como símbolo de Santos, é necessário entender o contexto da cidade no início do século passado. Dois acontecimentos de escala mundial afetaram o município: a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque (EUA), em 1929, e a recuperação de Santos dos efeitos da Segunda Guerra Mundial. "Por mais que o Brasil estivesse distante do conflito, os efeitos foram sentidos no país. Em Santos, em especial, acarretou na baixa movimentação do porto e no comércio de café".
Em contraponto a estes dois acontecimentos, cita Lilliam, o turismo nacional estava em ascensão. "Até em decorrência da Segunda Guerra, os brasileiros passaram a buscar destinos nacionais para suas viagens. Aliado a isso, a popularização dos automóveis fez muitos procurarem cidades balneárias como Santos". Neste contexto, segue a historiadora, "o poder público começou a promover avanços urbanísticos para tornar a cidade mais atrativa e, dentre as obras realizadas, uma das mais importantes foi a construção da avenida Almirante Saldanha da Gama, na Ponta da Praia, que já abrigava clubes náuticos". A prefeitura providenciou um aterramento na faixa de areia, e construiu um muro com o objetivo de conter o avanço da maré.
Nascia assim o embrião das muretas: como a ideia era tornar a cidade atrativa turisticamente, foi pensado um elemento decorativo para esse muro. Em 1941, o chefe do Departamento de Obras Públicas da Prefeitura, Carlos Lang, apresentou esse elemento. Detalhe: ele não elaborou o desenho das muretas. Não se sabe quem foi o autor do traçado das peças inspiradas no estilo Art Déco. O projeto foi aprovado em 1943 e elas foram concluídas em 1945, ano emblemático para Santos, pois foi inaugurado o Aquário Municipal.
A popularidade das muretas cresceu ao longo dos anos. Hoje, elas são identificadas como um dos símbolos de Santos, e foi esse aspecto que motivou a produtora de vídeo Lorraine Lopes a imortalizar este ícone na pele. "Amo minha cidade, de verdade. O santista fala que é muito bairrista, não tenho dúvida".
Lorraine conta que todas as tatuagens que fez têm um significado especial. "A das muretas é uma das minhas preferidas. Escolhi mostrar na minha pele o lugar que eu amo".
Leia também: Boqueirão: conheça mais sobre esse tradicional bairro santista