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Entregador de aplicativo investe um ano em bicicleta e é furtado em um dia, em Santos (SP)

"Estamos abandonados”, lamentou trabalhador; essenciais na pandemia, invisíveis na vida real, entregadores por aplicativo no Brasil são dez vezes a população da Baixada Santista; um deles foi furtado em Santos e fez relato contundente e emocionante

Da redação
Publicado em 10/08/2021, às 11h50 - Atualizado às 14h08

Bicicleta recebida de doação por Felipe após ser furtado e sua bag. Capa - - Acervo Pessoal - Felipe Gonçalves


“Praticamente, a gente que trabalha nas entregas por aplicativo, estamos abandonados, jogados à própria sorte, na mão de Deus”, assim sintetizou sua situação o entregador Felipe Ruzig Gonçalves, de 31 anos. Desde sexta-feira (6), Felipe protagoniza uma curiosa saga, após ter seu instrumento de trabalho furtado no meio do expediente, na região central de Santos, no litoral de SP.   

No mesmo dia, Felipe pediu ajuda nas redes sociais e provocou comoção entre moradores em Santos, uma onda de solidariedade se formou. A história do entregador, por outro lado, também traz à superfície as agruras por que passa uma das categorias de trabalhadores mais precarizadas da atualidade.

"Não temos nenhum suporte"

Há três anos, Felipe, casado e pai de duas crianças, perdeu o emprego em sua área e viu nas entregas por aplicativo uma oportunidade de sustento. “Tenho profissão, sou padeiro. Mas, devido à crise, em 2018, eu saí fora da minha área de trabalho e comecei a trabalhar com entregas.”



Com o prazer em contribuir na alimentação adquirido no outro ofício, Felipe afirma que adaptou-se facilmente ao novo trabaho. “Eu me apaixonei por essa profissão, tenho maior orgulho. Fico tão feliz de ver um sorriso de satisfação do cliente, principalmente quando eu vou levar aqueles McLanche Feliz e entrego na mão das crianças.”, afirma o entregador, sem se esquecar da precariedade do trabalho.  “Eu já trabalhei em todas as plataformas, nenhuma dá suporte pra gente”.

Essenciais na pandemia, invisíveis na vida real

Há pouco mais de um mês, no último dia 1º de julho, entregadores de aplicativo de gigantes tecnológicas como Uber, Rappi e Ifood, em que trabalha Felipe, pararam por sete horas em diversas cidade do Brasil reivindicando aumento do valor mínimo de entrega (em média R$ 5, segundo as plataformas) e melhores condições de trabalho, com inclusão de benefícios como seguro seguro de vida, acidente e roubo, fim dos bloqueios por parte dos aplicativos e vale-refeição.

O número de trabalhadores da categoria, já alto durante as sucessivas crises econômicas dos últimos cinco anos, disparou após a pandemia. Segundo pesquisa de abril deste ano do Instituto Locomotiva, 20% da população adulta brasileira depende de algum aplicativo para trabalhar. O número equivale a 32,4 milhões de brasileiros.



Bicicleta furtada de Felipe. "Levei um ano para montar" Bicicleta furtada - Felipe (Imagem: Acervo Pessoal / Felipe Gonçalves)

Entre eles, o número de entregadores por aplicativo no país é estimado em 14% - isto é, 4,5 milhões de trabalhadores, mais de 10 vezes a população da Baixada Santista.

Categoria que tornou-se vital durante a pandemia, ao manter  minimamente azeitadas as engrenagens de uma economia cambaleante, os entregadores são considerados por sociólogos o paradigma da precarização do trabalho imposta pela tecnologia desregulada. Entre eles, destacam-se como mais precarizados entre os precarizados os entregadores que trabalham de bicicleta, como Felipe.

Pragmático, ele afirma que começou a investir para melhorar seus ganhos no iFood. Durante 12 meses, diz Felipe, ele montou uma bicicleta mais apropriada para longas jornadas diárias. “Demorei um ano para montar a bicicleta. Fui comprando peça por peça aos poucos. Investi R$ 1785, quase dois mil. Chego a pedalar de 120 até 200 km por dia. Faço entrega em Santos, em São Vicente e também nos morros. Subir no morro para fazer entrega é um trabalho que exige muito esforço físico”, afirma, orgulhoso, o entregador.



Com a bicicleta apropriada, Felipe afirma que conseguiu aumentar seus ganhos no iFood. “Com a minha bicicleta mesmo que foi furtada, fazendo 12, 16 horas, eu conseguia tirar 100 reais tranquilo, quando era um dia bom, forte, fazia até 130”.

O entregador planejava galgar mais um degrau e adquirir uma motocicleta, cuja remuneração na plataforma, segundo ele, é mais alta. “Com aquela minha outra bicicleta eu consegui realizar o sonho de pagar minha habilitação. Estava também juntando dinheiro para realizar o meu grande sonho e comprar uma moto e continuar fazendo as minhas entregas. As taxas são maiores”, justifica.

O sonho, porém, foi embora junto da bicicleta furtada.



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O sonho acabou

Na tarde de quinta-feira (5), Felipe realizava entregas no centro de Santos. A área é temida por entregadores, pois, diferentemente de regiões residenciais em que eles podem guardar suas bicicletas nas portarias dos prédios, ali os edifícios são majoritariamente comerciais, o que os obriga a deixar seus instrumentos de trabalho no meio da rua, vulneráveis a furtos. Foi precisamente o que amargou Felipe.   

“Estava fazendo entregas no Centro da cidade. Ali não é prédio residencial, é mais prédio de escritório, então não tem como a gente pegar e deixar [a bicicleta] na portaria. A gente deixa a bicicleta trancada na rua e sobe, faz a entrega nos escritórios das empresas. Fui fazer a entrega. Quando voltei a bicicleta não estava mais lá. Foi a maior frustração que senti na minha vida. Na hora me deu um desespero. Eu comecei a correr pra um lado, correr pro outro, sabe? Naquele desespero de ver se alguém estava andando com a bicicleta”, relembra-se ele.



O entregador, porém, não encontrou mais a bicicleta que simbolizava, a um só tempo, a dignidade do trabalho, a liberdade de transitar pela cidade e seu caminho em busca de uma vida melhor por meio do próprio esforço individual.

Além de ficar impedido de trabalhar, a perda da bicicleta, esclareceu Felipe, significa voltar várias casas no duro e nada justo tabuleiro da melhora de vida.  

“Perdi meu único sustento. Única ferramenta de trabalho que uso para sustentar meus dois filhos. Fiquei sem trabalhar. Muito triste o que anda acontecendo. Muitos entregadores do iFood que trabalham de bicicleta ou moto estão sendo alvos de furtos constantemente. O iFood não dá nenhum suporte pra gente”, lamenta o entregador.



“Com aquela minha outra bicicleta, eu consegui realizar o sonho de pagar minha habilitação. Por enquanto eu vou ter que dar uma parada, referente à situação da moto”, diz o trabalhador em tom de tristeza.

Um fio de esperança: a onda solidária

Sem suporte do empregador, dois dias após o furto, após Felipe fazer um apelo nas redes sociais, uma moradora do Canal 4, em Santos, doou a ele uma bicicleta. “Fiquei dois dias parado. Aí uma senhora se sensibilizou, me deu uma bicicletinha. Essa senhora teve um gesto tão nobre, tão humano, que hoje em dia é tão difícil de se ver”, afirmou, emocionado.

A bicicleta, no entanto, é muito diferente da anterior, furtada. “Ela até me falou no dia que a bicicleta é de passeio. Mas tá quebrando um galho, é o que tá colocando o pão na mesa. Mas eu não consigo fazer a carga horária que eu fazia antes. Agora, pra mim, num dia bom, tô conseguindo fazer 40 reais”.



Outros moradores da região se comprometeram a contribuir com a aquisição de outra bicicleta para o entregador, caso ele criasse uma vaquinha virtual. Felipe, porém, afirmava que, diferentemente da bicicleta, que é quase uma parte de seu corpo, não domina a tecnologia. “Eu pretendo [fazer uma vaquinha virtual], mas não sei como é que funciona, eu não tenho computador em casa, então eu conversei com uns amigos meus que mexem mais com computador, essas coisas e eles ficaram de ver isso pra mim, nem sei como abre isso”, confessou. 

Na noite de ontem (9), com a ajuda de amigos, o entregador conseguiu lançar a vaquinha. Entretanto, até o início da tarde de hoje, da meta de R$ 2.000, o entregador havia arrecadado apenas R$ 50, de um solitário doador ou doadora. 

Após centenas sugerirem que entregador criasse vaquinha virtual comprometendo-se a ajudá-lo, apenas um doador efetivamente ajudou após a criação da vaquinha PRINT VAQUINHA (Imagem: Reprodução / Vakinha.com)

O Portal Costa Norte questionou o iFood sobre quais suportes são oferecidos pela empresa aos entregadores furtados, mas não obteve resposta. A gestão municipal de Santos não informou a quantidade estimada de entregadores por aplicativo na cidade.