Suspeito ainda não identificado inventou história mirabolante, conquistou afeição da vítima e arrancou dela soma vultosa; polícia de Praia Grande investiga o caso
Da redação
Publicado em 10/09/2021, às 10h22 - Atualizado às 17h19
Uma moradora de Praia Grande perdeu uma soma vultosa, após ser encantada por um charmoso golpista e se comover por uma história mirabolante por ele arquitetada, no início deste mês.
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“O que me encantou foi a educação dele. Ele falou que gostou de mim. Disse que estava sofrendo muito em Bagdá e precisava de dinheiro pra fugir de lá. Fiquei com muita dó. Fui ao banco e fiz um empréstimo. Transferi um dinheirão”, confessou a mulher em entrevista ao Portal Costa Norte nesta quinta-feira (9).
Após a transferência, no entanto, ela afirma que desconfiou de um estranho desdobramento na história, acompanhado de um novo pedido de dinheiro, e constatou ter sido vítima de um embuste para lhe tirar dinheiro. “Isso acabou comigo. Estou trabalhando à base de remédios. Me abalou muito. Eu tô me sentindo usada pra uma coisa que eu não esperava. Não esperava ter caído nessa armadilha”, afirma. Constrangida, ela pediu para não ter seu nome ou idade revelados.
Paula (nome fictício), uma trabalhadora da saúde de Praia Grande, relata que há pouco mais de um mês, no último dia 2 de agosto, conheceu nas redes sociais um homem que se identificava como Makoto San, um suposto general nipo-estadunidense.
Rapidamente, diz ela, ambos começaram a trocar mensagens na rede social e Makoto lhe revelou que estava em sua última missão no Iraque, a serviço da ONU, e que se aposentaria em cerca de um mês. “Ele conversava comigo de noite, de dia”, relembra-se Paula.
Com o passar dos dias, conversando diariamente com o suposto oficial, Paula afirma que começou a se afeiçoar a ele e que ele emitia sinais recíprocos.
“O que me encantou nele foi a educação. Ele me tratava com muita educação e respeito. Não teve uma palavra que mexesse com a minha dignidade. Eu até falei pra ele que ele era muito educado. Nunca me falou, assim, uma besteira. Ele falou que gostou de mim, que eu sou muito simpática, que eu ajudei ele com muito carinho”.
Afeiçoados, ambos começaram a compartilhar desejos e planos. “Ele falou pra mim que era viúvo, que tinha uma filha de 13 anos, que estava sob os cuidados de outra pessoa nos Estados Unidos. Ele disse que tinha intenções, depois de se aposentar, de se mudar para o Brasil com a filha e de fazer negócios aqui e que, quando chegasse aqui, ia comprar uma casa, fazer uma escola americana, um hospital e também um orfanato pra abrigar moças que veem de fora e queria que eu ajudasse ele”, relembra-se Paula.
“Eu falava assim pra ele. ‘Eu quero que você seja feliz, que você arrume uma companheira pra casar e tudo, porque você é viúvo, você precisa de uma pessoa pra cuidar de você e tudo'. Ele disse que queria morar perto de mim pra eu poder dar um apoio pra menina, né? Como eu já sou avó e tudo. Os meus dois filhos são adultos já”, explica-se Paula.
Ela enfatiza que os planos com o suposto general eram mais na seara do companheirismo e menos na do romantismo. “Eu falei pra ele que eu não tinha interesse nenhum nele, que era uma amizade, que eu ia ajudar pela amizade”, afirma.
Entretanto, neste ínterim, enquanto se aproximavam, o homem, relembra Paula, afirmou que enfrentou problemas na suposta missão em Bagdá, com diversas baixas nas forças de paz de que ele faria parte.
“Ele falou que o negócio estava muito feio lá em Bagdá e tudo, muito combate com um grupo terrorista. Aí ele disse que acabou perdendo 12 soldados no primeiro dia e 47 no terceiro dia. Ele disse que viu uma colega de trabalho morrer na frente dele”, diz a trabalhadora da saúde, que complementa, afirmando que o general lhe disse que resolveu desertar por medo de deixar a suposta filha desamparada.
“Ele foi falando pra mim que, com isso, ele desistiu e aí fugiu de lá, procurou um abrigo e de noite ele conversava comigo. E aí, ele foi falando que tava sofrendo muito, que tava com a roupa até suja, que precisava comprar roupa, mas ele não podia mexer na conta dele lá dentro do Iraque, porque se ele mexesse iam saber que ele estava fugido, dentro do Iraque, iam pegar ele e levar preso. Voltar ele também não podia voltar porque ele saiu fugido, né?”.
Eis que, no apogeu da fantasia quase cinematográfica, com a razão de Paula ofuscada pelo envolvimento afetivo, o golpista deu-lhe o bote certeiro, e, no último dia 1º, após pedir somente orações, pediu a ela R$ 26.000 emprestados, para concluir a falsa fuga do Iraque, a serem pagos quando ele chegasse ao Brasil. Paula argumenta que, inicialmente, resistiu em transferir o dinheiro, não por desconfiança, mas por não ter o montante.
Porém, quando o homem sugeriu que a suposta filha adolescente poderia crescer na orfandade, ela, casada e mãe de dois, afirma que foi arrebatada por um sentimento de pena, dele e da criança.
“Ele foi falando, falando que estava sofrendo muito, pedindo pra eu ajudar e tudo. E eu falei que eu não tinha, que eu não tinha como. Mas quando ele falou assim: ‘Mas você vai deixar uma criança sem pai?”, aí eu fiquei com muita pena porque existia uma criança no meio, entende? Eu não queria que a criança ficasse orfã. Como que a criança vai ficar sem pai? Então, eu fui ao banco e fiz um empréstimo de R$ 19 mil”. Em seguida, Paula transferiu todo o dinheiro para uma conta no banco Santander indicada pelo suposto general.
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Após a transferência, Paula afirma que não desconfiou até o suposto general sumir e reaparecer dois dias depois no aplicativo por meio do qual eles trocavam mensagens, com uma história ainda mais inverossímil.
“Depois que eu depositei o dinheiro, ele sumiu. Dois dias depois ele me deu notícias. Ele me passou uma mensagem dizendo que ele tinha sofrido um acidente. Ele disse que estava em uma condução a caminho do aeroporto de Bagdá, quando veio um caminhão de bebida desgovernado bateu na condução que ele estava, e ele foi parar no hospital. Ele falou que ficou dois dias em coma e quando acordou foi que ele viu que estava no hospital”.
Além de justificar o sumiço, Paula descobriria logo mais adiante que a nova história fantástica tinha o mesmo objetivo da primeira, tirar-lhe dinheiro. “Ele disse que estava com a perna quebrada e precisando de mais R$ 131 mil pra fazer uma cirurgia em um hospital”, relembra Paula, que afirma ter desconfiado. “Aí que eu percebi que cada vez mais a coisa estava se esticando”.
Desconfiada, ela afirma ter olhado com atenção o destino dos R$ 19.000 mil e ter constatado que, além da conta estar no nome de uma mulher, a agência fica em Poá, em São Paulo, e não nos Estados Unidos, onde o homem afirmou que vivia.
“Eu desconfiei depois disso. Até quando ele sumiu dois dias, eu ainda acreditava que realmente ele estava falando a verdade. Ele até me mandou foto da passagem, com o nome dele. Como ele conseguiu eu não sei. Mas aí, agora, eu tô vendo que realmente é mentira. Por que tem hora que a gente fica meio sem saber, né? A gente fica meio perdida. Você só cai na real depois que você vê o que aconteceu”, confessa Paula.
Sentindo-se enganada, ela procurou o 1º DP de Praia Grande na sexta-feira (3) e denunciou o caso, que foi registrado como estelionato. Paula afirma que tem uma inclinação à solidariedade. “Eu tenho esse espírito de bondade dentro de mim. Em 2019, eu abriguei uma senhora espanhola sem teto na minha casa”, justifica-se ela, que completa afirmando que a criança na história fantasiosa foi seu calcanhar de Aquiles.
“Como envolvia uma criança e eu fui criada com tanto sacrifício, com tanta luta, passei tanta necessidade quando era criança, fiquei com muita pena. Eu acho que o que a gente tem que ter nessa vida é honestidade, sinceridade, integridade e procurar ajudar o próximo. Mas não da forma como eu fiz, sem conhecer, sem nada e acontecer assim, de eu cair num golpe. Isso é uma maldade muito grande”, reflete ela.
De acordo com informações do boletim e ocorrência, ainda não há informações sobre o suspeito. Contatado, o banco Santander afirmou que bloqueou a conta para a qual Paula transferiu os R$ 19 mil e aguarda notificação do banco de onde Paula transferiu os valores para avaliar a possibilidade de estorno dos valores.