"Acostumada com o esculacho”, diz advogada sobre síndica impichada em condomínio de Praia Grande

“É muita irregularidade”, afirma moradora; advogada e proprietária de imóvel acusam síndica de má gestão, truculência e falsificação de documentos para concentrar poderes e se tornar “ditadora” de condomínio; moradores teriam desmascarado síndica durante reunião que pegou fogo e a exonerado do cargo

Da redação
Publicado em 12/08/2021, às 17h46 - Atualizado em 13/08/2021, às 16h59

História curiosamente familiar aconteceu no Condomínio Bracuhy, na rua Copacabana, em Praia Grande Síndica de condomínio em Praia Grande (SP) sofre impeachment após moradores suspeitarem de falcatrua e falsificação - Reprodução / Google Street View


A advogada Cleide Sobreira, de 55 anos, uma das protagonistas do curioso - e estranhamente familiar - imbróglio que paira sobre o condomínio Bracuhy, em Praia Grande, deu mais detalhes sobre a reunião em que os moradores se revoltaram com a síndica Solange Rodrigues e resolveram destituí-la do cargo por suspeitas de fraude e má gestão.

Há uma semana, na manhã do último dia 3, os residentes do condomínio Bracuhy, no bairro Vila Guilhermina, desconfiaram da síndica durante uma reunião de condomínio. Segundo Cleide, em um condomínio com 59 unidades, a síndica de 59 anos apareceu na reunião com 29 procurações obtidas de forma duvidosa, o que gerou revolta entre os moradores.

“A administradora do condomínio e a própria síndica me convidaram para presidir essa assembleia, para acompanhar. Só que eu não sabia que ia ser essa confusão toda. Porque o pessoal se revoltou demais contra ela. E queriam sua destituição", relembrou-se Cleide em entrevista ao Portal Costa Norte na tarde desta quinta-feira (12).



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Uma comerciante de 43 anos, proprietária de um imóvel no condomínio confirma as acusações da advogada. “É muita irregularidade”, afirmou a proprietária que preferiu não se identificar.

Com a reunião pegando fogo, acusando a síndica de se tornar uma ‘ditadora’ do condomìnio, além de má gestão, truculência e falta de transparência, os moradores articularam uma movimentação política para que a síndica fosse destituída do cargo ali mesmo.



“Os condôminos presentes se revoltaram, porque se ela tem essa quantidade de procurações. Ela mesma pode aprovar a ata dela, ela mesma pode aumentar o condomínio, ela mesma pode aprovar o orçamento. Ela mesma pode fazer tudo. Então ela não precisa de ninguém.”  reflete Cleide, que completa.

“Existe um desgaste muito grande [de relacionamento] porque o prédio está mal cuidado, o prédio com certeza deve ter muitos débitos que a gente não tem conhecimento. Ela é uma pessoa desprovida de inteligência. No sentido de chamar a atenção de condôminos que estão com apartamento locado e tirar a pessoa da piscina na frente de todo mundo. Eu não posso chegar na frente de todo mundo e expor a pessoa ao ridículo. Não é assim que funciona. É um ato ditatorial”, acusa, enfática, a advogada.

Segundo ela, o condomínio está há dois anos sem consenso na aprovação de contas. “Isso é inadmissível. O Bracuhy tem duas contas de água de R$ 6.000 cada uma, em aberto, porque o prédio não tem dinheiro. Tudo isso foi na gestão da atual síndica. Eu acho que ela já está há mais de dois anos lá”, afirma.



Segundo Cleide e a proprietária, durante a reunião, foi celebrado um “acordo de cavalheiros” entre os presentes em que a síndica aceitou que o mandato dela seria prorrogado por pouco mais de dois meses, numa espécie de período transitório ao final do qual ela seria impugnada com a eleição de um síndico profissional em seu lugar e cada condômino seria portador de procurações limitadas ao número de duas - de forma a se evitar futuras concentrações de poder como a atual.

No entanto, após a deliberação, surpreendentemente a pendenga habitacional adquiriu contornos ainda mais dramáticos e o caso foi parar na delegacia de Praia Grande. 

A síndica, relata a advogada, tinha uma carta na manga, ao que parece, inspirada em um certo governante brasileiro. Destituída, a mulher teria falsificado a ata da reunião em benefício próprio, e a registrado em um cartório da cidade.



“Toda ata de assembleia, ela tem que ter exatamente descrito aquilo que aconteceu na reunião, não se pode mudar. O que acontece é que ela fez alterações na ata. Ela pegou a ata, colocou em word e alterou a substância da ata em tudo aquilo que é de bom proveito dela. Ela tirou a limitação de procurações, ela tirou a contratação de síndico profissional”, acusa Cleide.

A comerciante proprietária de um imóvel no condomínio confirma. “Quero explicações sobre as alterações da ata. Ela fala que não alterou, mas o documento está alterado. A olho nu a gente vê que estão alteradas. Compra um narizinho de palhaço e me dá pra eu colocar”, ironiza.

Cleide reflete sobre a suposta postura da síndica. “É de uma desfaçatez. Aquilo para ela não é nada. Eu acho que ela está acostumada com o esculacho. Com esse tipo de confronto. Porque não é possível a gente conceber que uma pessoa, do jeito que ela foi contestada verbalmente naquela reunião, não renunciar. É muito sangue frio. É muito acostumada mesmo com a baixaria pra não ter já renunciado ali”, critica a advogada, que aconselha.  



“Na minha opinião, se fosse eu, eu diria ‘Olha, quer saber? Eu não preciso disso, por causa da isenção de uma cota de condomínio eu não vou ficar ouvindo isso. Se vocês quiserem [o cargo] está aí, estou renunciando e tal’, mas não. Ela é apegada ao cargo. A questão é por quê? Deve ter alguma coisa muito errada nas contas do Bracuhy. Tanto é que eu já falei pra alguns condôminos que é preciso fazer uma auditoria nas contas dos últimos cinco anos, porque alguma coisa está errada”, conclui.  

Na última segunda-feira (9), a advogada Cleide Sobreira registrou um boletim de ocorrência e a síndica pode responder por estelionato. As atas foram apreendidas e enviadas para análise perícial. Contatada na tarde desta quinta-feira, a síndica Solange Rodrigues não respondeu, caso ela se manifeste, esta matéria será atualizada. 

Após a situação sair de controle, segundo Cleide, os moradores do condomínio Bracuhy vão realizar uma reunião extraordinária de destituição da síndica na tarde do próximo sábado (14).