Na avaliação da estudiosa, pescadores artesanais de Bertioga prestam serviço ambiental capturando o lixo que foi descartado indevidamente no mar
Thiago S. Paulo
Publicado em 07/06/2023, às 13h51 - Atualizado às 15h21
Pescadores artesanais de Bertioga, litoral de São Paulo, prestam um serviço ambiental involuntário de diminuição do lixo marinho, avalia Nicole Guerrato, uma pesquisadora de 27 anos que estuda os impactos do lixo na pesca artesanal da cidade.
“Meu projeto busca compreender, com dados científicos, de que forma o lixo no mar impacta a pesca. É um estudo de caso em Bertioga”, explicou Nicole em entrevista por videoconferência da Universidade de Queensland, na Austrália, onde ela conduz parte da pesquisa de mestrado em Ciências e Tecnologia do Mar em intercâmbio com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
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Bióloga de formação, Nicole explica que o projeto, sob orientação de Leandra Gonçalves, nasceu quando ela trabalhava em uma unidade de conservação ambiental marinha em Bertioga e percebeu como o lixo no mar prejudica o trabalho de pescadores artesanais.
“Eu busco responder a esta pergunta: como o lixo no mar impacta a pesca artesanal em Bertioga? O projeto busca testar cientificamente essa hipótese que os pescadores já me traziam”.
Paralelamente ao mestrado, Nicole integra outro projeto no terceiro setor e também relacionado à pesca artesanal. “Esse [outro] projeto, Nós na Ação, tem o apoio da Fundação Boticário. Ele trabalha com os pescadores de Bertioga e os do Perequê em Guarujá. A gente busca responder à mesma pergunta nas duas regiões com diferentes equipes de campo”.
As duas pesquisas, explica a pesquisadora, são complementares. “A diferença é que meu mestrado vai até as análises quantitativa e qualitativa do impacto do lixo na pesca, o Nós na Ação continua na parte de tentar encontrar uma intervenção que mitigue esse problema”.
Em ambos os projetos, equipes de campo acompanham os desembarques pesqueiros de camarão e catalogam o lixo capturado em meio ao pescado, relata Nicole. “Fazemos toda a triagem do lixo. A gente quantifica e qualifica esse resíduo pra construirmos um diagnóstico do que eles [pescadores] mais capturam [de resíduos] no mar”.
Ela esclarece que os projetos ainda estão em andamento, mas é possível concluir que o impacto do lixo na pesca artesanal de Bertioga não é desprezível. Outra conclusão, diz, é que o recolhimento acidental de lixo pelos pescadores artesanais é um serviço ambiental involuntário que, com o encaminhamento adequado, poderia beneficiá-los.
“Os pescadores de pequena escala estão em uma situação de vulnerabilidade social, o lixo é um dos problemas. Muitos pescadores acabam trocando de emprego, indo pra outras áreas, porque não conseguem se manter com a pesca, justamente por enfrentar tantos problemas. E isso ameaça a cultura tradicional caiçara que eles mantêm viva através da atividade da pesca artesanal. Eu acredito que se você focar em um desses conflitos tentando trazer uma solução ou mitigá-lo, já vai ser de grande ajuda”, avalia a estudiosa.
A busca de iniciativas legais bem sucedidas de combate ao lixo oceânico é um dos motivos que a levaram à Austrália. “O problema do lixo no mar é complexo, e, por ser complexo, não tem uma solução simples ou única. Agora eu estou aqui na Austrália como parte do meu estágio de bolsa no exterior pela Fapesp justamente estudando como a governança multinível, que são diferentes esferas de governo, pode ser uma ferramenta analítica para se discutir sobre lixo no mar. Aqui na Austrália, eu vou mapear todas as legislações locais, estaduais, federais e internacionais e entender como essas legislações conversam entre si”.
Este mapeamento poderá embasar iniciativas futuras de combate ao lixo no mar no litoral paulista. “[Quero] levar um pouco pro Brasil experiências de projetos, planos e leis bem sucedidos na Austrália, um país climaticamente parecido com o nosso e que está à nossa frente em alguns pontos. O Brasil tem uma legislação ótima, mas tem um problema de implementação; a Austrália não tem tanta legislação, mas tem uma boa implementação”.
Do interior paulista, Nicole revela que decidiu estudar a vida marinha por acaso após um mergulho no Nordeste durante a adolescência. “Fiz um mergulho aos 13 anos, na Bahia. Vi um coral na minha frente, nunca tinha visto, fiquei encantada, marcou minha vida. Daí, fiquei com aquilo dentro de mim, fui considerando e optei por Biologia Marinha na época do vestibular”.
Não necessariamente é preciso viver no litoral para se importar com o oceano, avalia ela. “Mesmo estando na capital, longe do mar, no cerrado, a gente precisa entender que nossas ações vão refletir diretamente no oceano. Promover a 'justiça oceânica' é entender o mar não só como um provedor de recursos, [até] porque esses recursos são finitos”.
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