Das águas do canal ao asfalto das avenidas, rostos e histórias de quem mantém a cidade pulsante muito além do verão
Marina Aguiar
Publicado em 29/05/2026, às 13h59
Houve um tempo em que Bertioga desacelerava com o fim do verão. As ruas esvaziavam, o comércio reduzia o passo e o mar voltava a ser território quase exclusivo de quem sempre esteve ali. Hoje, a lógica é outra. O funcionamento permanente da cidade não é resultado apenas do aumento populacional, mas de uma rede de pessoas que a mantém ativa em todas as estações.
Às sete da manhã, o fluxo de veículos já toma as avenidas. No mar, embarcações iniciam a jornada enquanto surfistas aproveitam as primeiras ondas. Na orla da praia, residentes de longa data e novos habitantes dividem o espaço da caminhada, enquanto o comércio abre as portas e as empresas iniciam mais um turno. É nesse compasso que a cidade funciona, sustentada por quem faz tudo acontecer muito antes de o primeiro turista chegar.
Longe do asfalto, no balanço das águas, essa organização ganha o rosto de Ricardo Miranda, o "Ricardinho". Aos 36 anos, ele personifica a transição da Bertioga que vivia de temporadas para a cidade que hoje pulsa sem interrupções. Natural de Teresina (PI), Ricardo chegou ao litoral aos 7 anos. Aos 9, descobriu o surfe e o vínculo indissociável com o oceano.
Antes de transformar a paixão em sustento, percorreu o caminho comum a muitos bertioguenses, trabalhando em condomínios na Riviera de São Lourenço. Há 15 anos, decidiu empreender no turismo náutico.
Saí de um emprego formal para arriscar no sonho de viver do mar, começando com um barquinho de alumínio e um motor de popa. Hoje, sobrevivo exclusivamente dessa atividade”, conta.
Ricardinho é uma das peças-chave que mantêm o fluxo econômico mesmo quando as temperaturas caem. Atuando como guia de pesca amadora e esportiva, ele consolidou uma clientela que independe do Sol de janeiro.
No inverno, atendemos clientes fiéis atrás de espécies como sororoca e corvina; no verão, o foco são os turistas em busca de dourados e bicudas”, explica.
O negócio familiar conta com o apoio da companheira Bruna Paola Silva, na gestão, e utiliza as tradicionais traineiras de madeira para apresentar as belezas naturais do Cantão do Indaiá, e Iporanga e Camburizinho, no Guarujá, a famílias que buscam contemplação e lazer.
Se o mar é o escritório de Ricardinho, o sustento em terra firme passa pelas mãos de quem alimenta a população crescente. Isa Mendes Paiva, proprietária do restaurante Isa, é um dos símbolos dessa permanência. Há 28 anos, trocou a rotina em uma multinacional em São Paulo pela tranquilidade do litoral. Ao lado do marido, Germano, trouxe para a então pacata vila uma novidade: o sistema de self-service.
“Bertioga naquela época não tinha restaurantes nesse modelo, muito menos por quilo. Era só à la carte”, recorda Isa, que há 26 anos comanda o estabelecimento que virou referência no Centro. O segredo da longevidade foi a transformação em “cozinha do morador”, atendendo diariamente funcionários públicos, bancários e lojistas.
Nos últimos dez anos, ela notou que o antigo veranista deu lugar a uma nova leva de residentes, na faixa dos 50 a 60 anos, que escolheram a cidade para a aposentadoria definitiva. Para a empresária, Bertioga hoje é autossuficiente.
Tenho uma gratidão gigante por tudo o que conquistei aqui com muito trabalho”, afirma.
O dinamismo da cidade também passa pelas mochilas de entrega de Guilherme Kikuti, o “Guibas”. Morador desde meados dos anos 1990, ele ilustra o esforço de quem constrói a própria vida enquanto o município cresce: é pintor durante o dia e entregador de pizza à noite.
Guibas testemunhou a época em que os motoboys esperavam o telefone tocar; hoje, descreve um fluxo constante. Para ele, a Bertioga de 2026 é uma cidade na qual o movimento das sete da manhã já anuncia um dia intenso. Apesar do crescimento, ele ainda enxerga o “ar de interior”, onde as pessoas se conhecem e param para conversar.
Bertioga, para mim, é história, natureza e amizade”, resume.
A transformação urbana também ressignificou endereços tradicionais. Fátima Oliveira, proprietária do Salão Estrela, é testemunha dessa metamorfose na avenida 19 de Maio. Quando chegou de Sergipe, há quase 30 anos, encontrou um cenário, apelidado de "carinha de parafuso", por ser dominado por oficinas mecânicas e lojas de autopeças. Hoje, vê-se uma avenida com vida própria e comércio diversificado.
Fátima construiu sua trajetória com foco no morador fixo, com abertura estratégica às segundas-feiras, para atender quem trabalha nos finais de semana, como zeladores, por exemplo. Assim, consolidou uma clientela fiel que sustenta o negócio em todas as estações. O sucesso permitiu diversificar: atualmente, opera também uma bicicletaria e uma loja de roupas, gerando renda para cerca de 20 pessoas.
O salão é mais do que um empreendimento; é uma escola. Daqui saíram muitos profissionais que cresceram e desenvolveram carreiras sólidas”, orgulha-se. Natural de Lagarto (SE), Fátima define o município como sua “Terra Prometida”.
A nova face de Bertioga é desenhada por quem transformou o veraneio em projeto de vida definitivo, movimento intensificado após a pandemia. Danilo Augusto da Silva, analista de estudo de energia, personifica esse equilíbrio. Mudou-se com a família de São Paulo quando o trabalho tornou-se 100% remoto. Adotou uma estratégia inteligente: alugou seu imóvel na capital para custear a moradia no litoral. Hoje, sua rotina inclui surfar e correr na orla antes do expediente.
A infraestrutura digital de Bertioga hoje permite trabalhar com a mesma eficiência da capital”, afirma.
Já Fabiana Barricelli, supervisora do Poupatempo, buscou em Bertioga um recomeço familiar e saúde mental. Atualmente, ela segue o modelo híbrido de trabalho, dois dias em Bertioga e três no escritório da capital. “Poder desfrutar da orla da praia à noite com a família e criar os filhos em um ambiente tranquilo são os pontos mais altos”, revela. Usuária ativa dos serviços municipais, ela e a filha aproveitam as aulas de esportes gratuitas oferecidas pela prefeitura.
Embora reconheçam desafios, como a necessidade de serviços de saúde mais complexos em centros maiores, para esses novos habitantes, a combinação de segurança, infraestrutura e o contato com o “ouro verde” é o fator determinante para chamar Bertioga de lar.