Obra 'Puxa a rede' percorreu a praia da Enseada nos trechos do Centro, Vista Linda e Indaiá, para registrar a tradição caiçara
Patrícia Oliveira
Publicado em 07/10/2026, às 10h27
A praia da Enseada, nos trechos do Centro, Vista Linda e Indaiá, serviu de cenário para o documentário Puxa a rede, obra audiovisual que resgata a memória, beleza e importância socioeconômica da pesca de arrasto de praia, em Bertioga, litoral paulista.
Com produção da Fotossíntese Fotografia e Vídeo, o filme tem direção, captura de imagens e edição assinadas pela bióloga marinha Deborah Gallo. A iniciativa contou com financiamento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), que reforça o papel essencial das políticas públicas de fomento na valorização da arte e da identidade cultural do município.
A idealização do projeto ganhou força a partir da vivência da diretora com o grupo de pesca de arrasto de praia Kapiloton, durante um roteiro de turismo de base comunitária integrado ao ecossistema cultural do litoral, promovido pelo Sesc Bertioga.
Antes de dar início às filmagens, Deborah fez questão de vivenciar a rotina na prática: puxou a rede na areia e acompanhou de perto cada etapa da jornada junto aos pescadores para criar vínculos e compreender os ritmos da atividade.
Acho lindo o desenho que a rede faz quando está sendo puxada e principalmente quando chega com os peixes, busquei retratar isso também. Além disso, busquei mostrar os processos trabalhosos, com seu tempo próprio, que é de calma, paciência e sincronia com os outros, em tempos em que tudo é tão rápido e imediato."
Diferente do arrasto industrial de camarão, a modalidade de praia é uma prática artesanal tradicional em toda a costa brasileira, marcada pela colaboração coletiva:
"Quis mostrar como a pesca acontece, ressaltar o caráter coletivo e colaborativo dela. Me impressionou a quantidade de raias que chegam e são todas soltas, retiradas com cuidado, além de outras espécies que não são o alvo. Mesmo em meio à rotina, o grupo devolve esses animais ao mar. Também achei muito interessante a presença de várias mulheres e o envolvimento da equipe com questões ambientais e direitos da pesca", destaca a diretora.
A pesca artesanal de arrasto enfrenta um cenário delicado devido ao avanço da especulação imobiliária, à perda de territórios tradicionais na orla e à escassez de mão de obra disposta a manter o ofício.
Ex-empresário na capital paulista, o pescador profissional artesanal Wesley Shkola trocou a rotina corporativa pelo mar há 15 anos e vivencia diariamente os obstáculos enfrentados pelas equipes na cidade.
A pesca de arrasto de praia é uma atividade artesanal muito antiga que vem passando por dificuldades. Ficamos sem pessoas para contribuir e a perda de território pesqueiro diminui nosso espaço. Com o aumento de empreendimentos, muitos pescadores mudam de ramo, e a pesca acaba virando apenas complemento de renda", relata.
Para o pescador, o registro nas telas surge como uma ferramenta decisiva para dar visibilidade à causa e conscientizar:
Quem sabe as pessoas, os órgãos públicos, comecem a olhar para essa tradição caiçara com uma outra visão e entendam a importância dessa atividade que envolve também a educação ambiental, a conscientização e a qualidade do pescado."
Neste momento, Puxa a rede passa pela fase de inscrição e seleção em festivais de cinema nacionais e internacionais. Por essa razão, a produção ainda não está aberta para acesso amplo na internet, participando de exibições pontuais e mostras cinematográficas.
A comunidade e o público interessado em acompanhar as datas e os espaços de exibição podem conferir as atualizações diretamente nos perfis oficiais no Instagram: @fotossintese.fotoevideo e @arrastodepraiakapioloton.