Com 90% do território preservado, Bertioga converte o rigor ambiental em estratégia de mercado e consolida-se como destino de alto valor no ecoturismo nacional
Luciana Sotelo
Publicado em 03/06/2026, às 14h23
Em Bertioga, o maior ativo econômico não está na expansão urbana desenfreada, mas no silêncio da mata. O que para muitos poderia parecer um limite ao desenvolvimento tornou-se a principal vantagem competitiva da cidade.
Com cerca de 90% do território sob proteção, o município transformou suas trilhas de restinga e Mata Atlântica em produtos turísticos de alto valor, inserindo-se definitivamente na lógica da economia da experiência, quando as vivências se sobrepõem aos bens materiais.
Preservar deixou de ser apenas uma obrigação legal para se tornar um modelo de negócio. Ao estruturar oficialmente o uso das trilhas, com homologação de 12 novos percursos e exigência de monitores credenciados, Bertioga reposicionou-se.
O secretário municipal de Turismo e Cultura, Ney Carlos da Rocha, explica:
Quando uma trilha é homologada, ela passa a contar com critérios técnicos de segurança, sinalização adequada, controle de acesso e, em muitos casos, acompanhamento por guias credenciados. Isso garante mais segurança ao visitante e preservação ambiental”.
A estratégia se conecta diretamente ao posicionamento da cidade como destino alternativo ao tradicional “sol e praia”, com diversificação da economia e ampliação do tempo de permanência dos visitantes.
A estratégia foca em um público qualificado: o ecoturista. Diferente do turismo de massa, esse visitante busca vivências autênticas e está disposto a investir em roteiros guiados. Letícia Trindade Luiz, presidente da Abecotur (Associação Bertioguense de Ecoturismo), diz que,
Hoje, as trilhas deixaram de ser apenas deslocamentos na natureza. Elas são estruturadas como experiências, com interpretação ambiental, roteiros educativos e conexão com o território”.
Esse amadurecimento do setor reflete na ponta profissional. Segundo Raphael Roberto de Castro Rodrigues, monitor ambiental e sócio-fundador da agência O Cheiro da Terra Caiçara, há um movimento crescente de capacitação no setor.
Os monitores e as agências vêm buscando, constantemente, cursos como resgate em áreas remotas e condutas de mínimo impacto ambiental, muitos com certificação internacional. Isso eleva o nível de segurança e a qualidade das experiências oferecidas”, destaca.
Raphael também chama atenção para a participação ativa desses profissionais na construção das políticas do setor.
Hoje, os monitores participam de espaços de decisão e contribuem diretamente para o planejamento do turismo, garantindo que as práticas estejam alinhadas à conservação ambiental e ao uso responsável das áreas naturais”, afirma.
Outro fator estratégico, segundo ele, é a promoção do destino.
A presença em feiras, eventos e encontros do setor amplia a visibilidade de Bertioga como destino de natureza, fortalece parcerias e atrai novos públicos interessados em trilhas, canoagem e vivências ambientais”, completa.
Essa mudança impacta diretamente a economia local. Diferente do turista de passagem, esse visitante permanece mais tempo na cidade, movimentando hospedagens, restaurantes, transporte e serviços especializados.
Com o crescimento do ecoturismo, surge também uma nova demanda: a qualificação profissional. O trabalho dos monitores ambientais deixou de ser informal para se tornar uma atividade técnica, essencial para o funcionamento do sistema.
Na visão de Letícia,
a regulamentação foi um divisor de águas. Hoje não se trata apenas de conduzir grupos, mas de atuar com responsabilidade técnica, respeitando normas, capacidade de carga e protocolos ambientais”.
O setor, inclusive, já apresenta uma trajetória consolidada, segundo Raphael:
A primeira associação de monitores ambientais de Bertioga surgiu nos anos 1990 e, nos últimos anos, novas entidades foram criadas. Hoje, temos três associações, o que fortalece a organização da categoria e o crescimento do ecoturismo”.
Esses profissionais desempenham papel estratégico, muito além da simples condução de turistas; traduzem o ambiente natural, garantem segurança e promovem educação ambiental em tempo real.
O visitante deixa de apenas fazer uma trilha e passa a compreender o ecossistema, a cultura local e a importância da conservação”, completa.
A operação ocorre, em grande parte, dentro do Parque Estadual Restinga de Bertioga (Perb) e do Parque Estadual da Serra do Mar (Pesm). Nestas unidades, o sucesso do modelo reside no ordenamento. Eduardo Ferreira, gestor da Fundação Florestal, explica que
as unidades de conservação conciliam a proteção dos ecossistemas com o uso público de forma ordenada. Isso garante que o visitante tenha acesso a ambientes bem conservados, o que valoriza ainda mais a experiência”.
O controle é rigoroso: há limites de visitação, agendamento prévio e monitoramento constante. A lógica é simples: quanto mais organizado o acesso, menor o impacto ambiental.
As trilhas homologadas direcionam o fluxo e evitam degradação, como abertura de caminhos irregulares e danos à vegetação”.
Para o visitante, o impacto é sensorial. Moradora da capital paulista e turista frequente da cidade, Solange Aparecida Martins Barbosa, de 54 anos, já visitou a região quatro vezes e não esconde o encantamento.
A trilha Cachoeira do Elefante é um espetáculo. É um contato íntimo com a natureza, algo surreal”, relata.
Também turista e residente em São Paulo, Camilla Martins, de 37 anos, destaca o impacto emocional da experiência.
Você chega no ponto máximo da trilha, respira fundo e pensa: ‘Eu estou realmente vivendo isso?’. É algo que não se repete”.
Para Raphael, essa diversidade de experiências é justamente um dos diferenciais do destino.
Bertioga consegue atender diferentes perfis, desde quem busca contemplação, como na canoagem em rios mais tranquilos, até quem procura desafios maiores, como trilhas mais longas. Em todos os casos, a educação ambiental está presente ao longo do percurso”, reforça.
O ecoturismo também começa a irradiar efeitos para outros setores. Segundo a prefeitura, a atividade já impacta positivamente a rede hoteleira, a gastronomia e o comércio local, além de abrir espaço para novos empreendimentos.
Esse movimento ganhou reforço com o anúncio de investimentos do governo do estado de São Paulo. Bertioga está entre os municípios contemplados em um pacote de mais de R$276 milhões voltados ao turismo, com recursos destinados à infraestrutura, sinalização e melhorias em trilhas ecológicas.
A iniciativa consolida o turismo como vetor econômico estratégico e fortalece o modelo sustentável adotado pelo município. Com diversidade de ecossistemas, que incluem restinga, manguezal, rios e Mata Atlântica de encosta, Bertioga reúne condições únicas para se consolidar como referência em turismo de natureza. O desafio agora é manter o equilíbrio entre crescimento e preservação.